Anthony Scaramucci disse que possui ações da SpaceX. O rapper 2 Chainz também. Betsy DeVos, ex-secretária de Educação dos EUA, também. Assim como os apresentadores de um podcast chamado “Rich Habits” e mais de 150 de seus seguidores.
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Anthony Scaramucci disse que possui ações da SpaceX. O rapper 2 Chainz também. Betsy DeVos, ex-secretária de Educação dos EUA, também. Assim como os apresentadores de um podcast chamado “Rich Habits” e mais de 150 de seus seguidores.
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A empresa de foguetes e satélites de Elon Musk está prestes a realizar o que pode ser o maior IPO da história, permitindo que qualquer pessoa possa ter suas ações após 24 anos como companhia privada. Então por que parece que tantas pessoas já possuem participação nela?
A resposta está no mercado opaco de ações de empresas privadas, impulsionado em grande parte pelo que é conhecido como veículos de propósito específico, ou SPVs. Essas entidades legais, projetadas para deter ativos como ações, tornaram-se uma forma popular de investir em empresas privadas, já que grupos de investidores podem reunir recursos para um único investimento.
A SpaceX, fundada em 2002, está entre as companhias privadas para as quais os investidores mais criaram SPVs, segundo levantamento do The New York Times. Mais de 170 desses veículos de investimento com o nome “SpaceX” ou “Space Exploration” foram criados principalmente nos últimos seis anos, de acordo com registros da Securities and Exchange Commission (SEC, o órgão regulador do mercado de capitais americano). Nem todas as entidades que possuem ações da SpaceX incluem o nome da companhia.
Agora, enquanto a SpaceX busca levantar mais de US$ 50 bilhões em um IPO já em junho, isso turbinou o mercado privado para as ações da companhia. A demanda pelos papéis da SpaceX tem sido “virtualmente insaciável”, afirmou Sim Desai, fundador e CEO da Hiive, plataforma que permite a venda de ações privadas.
A proliferação de veículos de investimento ligados à SpaceX mostra um vibrante mercado paralelo de ações privadas e sinaliza o nível de interesse em possuir ações da companhia após sua abertura de capital. Esses veículos também oferecem uma prévia do que pode acontecer com duas empresas de inteligência artificial de alto perfil — OpenAI e Anthropic, para as quais investidores também formaram SPVs — caso abram capital ainda este ano.
“A história do crescimento das ações americanas está sendo cada vez mais contada nos mercados privados e não nos mercados públicos”, disse Shriram Bhashyam, diretor de operações da Sydecar, empresa responsável pela parte administrativa desses veículos de investimento.
Musk, que está envolvido em um julgamento contra a OpenAI em tribunal federal em Oakland, Califórnia, e um porta-voz da SpaceX não responderam aos pedidos de comentário.
Na última década, investidores menores usaram veículos de propósito específico para investir em empresas como Twitter e Uber antes de suas aberturas de capital. Eles se tornaram mais comuns à medida que startups permaneceram privadas por mais tempo e levantaram rodadas maiores de financiamento, enquanto investidores iniciais e funcionários buscavam liquidez.
Para muitas pessoas, possuir ações da SpaceX antes do IPO é motivo de ostentação. Reguladores restringem quem pode investir em empresas privadas porque os negócios podem ser arriscados. As empresas têm o direito de aprovar quem possui suas ações. Investir nessas companhias normalmente exige algum tipo de conexão, então os veículos de propósito específico se tornaram uma forma de ajudar investidores sem acesso direto.
Algumas pessoas elogiaram o boom na negociação de ações privadas por democratizar o acesso a oportunidades lucrativas de investimento. Outras criticaram o modelo por ser propenso a fraudes.
Os investidores não têm acesso a muitas informações sobre os dados financeiros de uma empresa privada nem sobre a origem das ações que estão comprando. Alguns veículos podem ser “empilhados”, com um SPV investindo em outro SPV, e assim sucessivamente, com cada entidade cobrando taxas ao longo do caminho.
Essas camadas podem gerar problemas. Democratas levantaram preocupações sobre investidores chineses que compraram participação na SpaceX por meio de veículos de propósito específico e contas offshore, considerando isso uma potencial ameaça à segurança nacional.
“Temos preocupações de que investidores chineses possam potencialmente obter acesso a informações não públicas”, escreveram os senadores Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, e Andy Kim, democrata de Nova Jersey, em carta enviada ao secretário de Defesa Pete Hegseth em fevereiro.
Musk, cofundador da empresa de pagamentos digitais PayPal, financiou inicialmente a SpaceX com recursos próprios. Ele também recebeu investimentos de antigos associados do PayPal, como Peter Thiel e Luke Nosek, da gestora Founders Fund, além de amigos como Antonio Gracias, que dirige a Valor Equity Partners.
À medida que a SpaceX cresceu, seus investidores passaram a incluir Justin Fishner-Wolfson, ex-investidor da Founders Fund que criou a 137 Ventures, e Iqbaljit Kahlon, ex-funcionário da Mithril Capital, uma das firmas de investimento de Thiel.
Kahlon fundou sua própria gestora, a Tomales Bay Capital, por volta de 2016, e Thiel lhe vendeu algumas ações da SpaceX. Kahlon criou uma série de SPVs para comprar essas ações, segundo documentos de um processo de 2025. Os veículos levantaram centenas de milhões de dólares e normalmente cobravam taxas anuais de 2%, além de 20% sobre os lucros. Entre os investidores de Kahlon estava DeVos, a ex-secretária de Educação, de acordo com os documentos.
Com o tempo, o número de veículos de propósito específico relacionados à SpaceX explodiu. Investidores de SPVs podem vender suas participações a terceiros, que podem criar seus próprios veículos para novos investidores entrarem. As ações da SpaceX se espalharam ainda mais de seus proprietários originais.
Foi assim que seguidores do podcast “Rich Habits” passaram a investir na SpaceX. Christian Blackwell e Austin Hankwitz, que comandam o podcast de finanças pessoais e várias newsletters, ofereceram aos seguidores a oportunidade de investir em ações privadas de tecnologia ao lado deles por meio de uma empresa chamada Witz Ventures.
No ano passado, Blackwell e Hankwitz obtiveram acesso a vários lotes de ações da SpaceX, reunindo investimentos de 98 seguidores em um veículo avaliado em US$ 724 mil e de outros 49 investidores em outro veículo de US$ 308 mil, segundo Blackwell e registros regulatórios.
As ações vieram dos veículos de propósito específico da Witz Ventures, que compraram participações em outros SPVs operados pela DataPower Capital, uma firma de venture capital de Nova York. A DataPower comprou as ações da SpaceX de outra firma de venture capital, cujo nome David Yakobovitch, fundador da DataPower, se recusou a revelar.
Yakobovitch afirmou ter verificado que a firma que forneceu as ações constava na lista oficial de acionistas da SpaceX. Ele evita investir em veículos que estejam mais de uma camada distantes dessa lista porque cada camada cobra taxas que podem se acumular.
“Se começa a passar por várias camadas, a coisa pode ficar um pouco nebulosa”, disse.
O rapper 2 Chainz afirmou em um podcast em março que comprou participação na SpaceX “muito cedo” por meio de conexões em private equity. “Eu estava no lugar certo na hora certa”, disse. Scaramucci, ex-assessor do presidente Donald Trump, afirmou em abril que possui ações da SpaceX por meio de uma “rodada privada”.
Não está claro se algum deles investiu por meio de um SPV. Scaramucci e representantes de 2 Chainz não responderam aos pedidos de comentário.
As ofertas para compra de ações da SpaceX se intensificaram desde que surgiram notícias sobre o IPO da companhia em dezembro.
Em fevereiro, Jori Horberg, sócia da gestora de venture capital Fearless Fund, enviou e-mail para “amigos e familiares”, oferecendo a oportunidade de participar de uma compra de US$ 200 milhões em ações da SpaceX a uma avaliação de US$ 800 bilhões, segundo a mensagem analisada pelo Times. O investimento previa taxa de 6%, além de 20% sobre os lucros. A Fearless Fund buscava cheques de pelo menos US$ 1 milhão e precisava dos compromissos até o dia seguinte.
Não está claro se o negócio foi concluído. Horberg não respondeu aos pedidos de comentário.
Entre 2019 e 2021, a Vika Ventures, sediada em Nova York, levantou mais de US$ 6 milhões de 46 investidores, prometendo colocá-los em empresas privadas, incluindo a SpaceX. Mas o fundador da empresa ficou com o dinheiro e comprou um Corvette Stingray e um relógio Patek Philippe, segundo o Departamento de Justiça e a SEC. Em 2023, ele se declarou culpado por fraude e foi condenado a oito anos de prisão.
No Brasil, a plataforma de investimentos alternativos Hurst Capital criou um veículo com propósito específico para permitir que investidores aplicassem em certificados de recebíveis lastreados nos benefícios econômicos da participação na SpaceX. A oferta foi apresentada no início de abril. Segundo a empresa, 100% das cotas disponíveis foram vendidas em menos de 24 horas após o anúncio aos investidores.
Em 2025, a INCO Investimentos e a Bossa Invest já haviam lançado uma estrutura semelhante. Na operação, o investimento indireto na SpaceX ocorreu por meio de uma sociedade de propósito específico que adquiriu participação majoritária em uma sociedade em conta de participação (SCP).
Além dessas estruturas, quando o IPO da SpaceX de fato ocorrer – está estimado pelo mercado para junho –, investidores brasileiros poderão acessar as ações da companhia diretamente por corretoras internacionais, como Avenue e Nomad.
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Outra alternativa é investir por meio de ETFs (fundos de índice), que reúnem cestas de ações americanas. Os Brazilian Depositary Receipts (BDRs) – recibos negociados no Brasil e lastreados em ações emitidas no exterior – também servem como porta de entrada para empresas estrangeiras, mas ainda não existe definição sobre uma eventual listagem de BDRs da SpaceX na B3.
Esta reportagem foi originalmente publicada em Fortune.com e foi traduzida com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e revisada por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.
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