O consenso do mercado ainda aponta para um corte de 0,50 ponto percentual (p.p.). “O evento no Oriente Médio aumenta a incerteza, mas não muda automaticamente a decisão do Copom em março”, diz o CEO da Gravus Capital, Ricardo Trevisan.
A economista-chefe da Mirae Asset Brasil, Marianna Costa, concorda que o acirramento das tensões tende a elevar a cautela da autoridade monetária, mas, por ora, não altera o cenário-base. “A curva de juros precifica que o ciclo terá início com um corte de 50 pontos base (pb)”, diz. Para ela, o aumento das tensões pode reduzir as chances de uma aceleração no ritmo de cortes ao longo do ano, tornando o ciclo de afrouxamento um pouco mais lento.
Conflito pressiona petróleo e dólar no curto prazo
Os eventos do fim de semana geraram efeitos imediatos no mercado, com abertura da curva de juros, o petróleo Brent chegando a US$ 80 e câmbio subindo para R$ 5,20. Ao longo do dia, porém, o movimento perdeu força. Na tarde desta segunda-feira (2), o Brent já era negociado a US$ 77, enquanto o dólar recuava para R$ 5,17.
“A gente precisa compreender o efeito de curto e médio prazo e saber qual será o novo patamar do dólar e do petróleo. Se permanecerem em níveis elevados por muitas semanas, isso começará a afetar os preços domésticos e, portanto, vai dificultar o trabalho do Banco Central de levar a inflação para a meta”, observa o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung.
A mediana do Boletim Focus, divulgado nesta segunda (2), para o IPCA de 2026 permaneceu em 3,91%, o mesmo patamar da semana anterior. Há um mês, a projeção era de 3,99%. Para 2027, a projeção da inflação passou de 3,8% para 3,79%.
O que pode mudar a decisão do Copom
Em outras palavras, ainda é cedo para se ter uma avaliação do impacto da alta do preço do petróleo e do câmbio sobre a inflação brasileira. “Do ponto de vista do Copom, o que realmente preocupa não é o choque pontual, mas sua persistência e capacidade de contaminar expectativas”, complementa Costa.
Ricardo Trevisan afirma que a chance de um corte de 25 pb aumentou, mas ele trabalha com a uma probabilidade de 30% de isso acontecer, contra 70% do corte de 50 bp. Para o executivo, a Selic terminal, ao final de 2026, pode subir marginalmente, algo como 25 pb, “muito mais por prêmio de risco do que por mudança estrutural”.
O mercado trabalha com um cenário em que o Copom encerra o ciclo de cortes em setembro, antes da eleição, com a Selic em 12,5%. Atualmente em 15%, isso sugere cortes de 0,5% p.p para as próximas cinco reuniões.
Quando o choque vira inflação
Sung explica que esse cenário ainda é possível porque a economia brasileira tem mostrado um processo de desinflação, com o mercado observando expectativas de inflação melhor ancoradas. Além disso, a atividade econômica está em desaceleração, com a economia parando de rodar acima do potencial com as pressões de demanda diminuindo.
“Agora, se tivermos uma escalada generalizada do conflito com o estresse muito grande das variáveis, o Banco Central deve trazer isso na sua comunicação”, diz o economista da Suno.
Na prática, para que o Copom opte por um ajuste menor, seria necessário observar uma combinação de fatores que indiquem maior prudência. Costa, da Mirae Asset, argumenta que a abertura do DI futuro registrado nesta segunda (2) e a incorporação de uma Selic terminal mais elevada para 2026 foram um ajuste tático ao choque geopolítico.
“Para o BC reduzir o ritmo para 25 pb ou sinalizar pausa, precisaríamos ver Brent acima de US$ 90 de forma persistente, câmbio acima de R$ 5,30 a 5,40, junto com piora das expectativas de inflação para 2026 e 2027. É a combinação desses fatores que alteraria a função de reação”, resume Ricardo Trevisan.
O efeito ambíguo do petróleo para o Brasil
Gustavo Sung diz que um aumento em 1% da gasolina pode impactar a inflação em 0,5 pontos percentuais e 10% de aumento no petróleo pode impactar em 0,2 ponto percentual a inflação. “Mas isso não é um choque simples, ela tem que perdurar por um tempo para que haja uma transmissão desses efeitos sobre a economia brasileira. E o Banco Central vai estar preocupado para compreender este movimento”, diz.
Em relatório, a XP avalia que a alta do petróleo representa um vetor ambíguo para o Brasil, com efeitos positivos nas contas externas e fiscais, mas pressão adicional sobre a inflação. Segundo o relatório, preços mais elevados do Brent tendem a elevar receitas com royalties, dividendos e exportações, melhorando o saldo comercial e a arrecadação pública.
Por outro lado, o movimento pode encarecer combustíveis e fretes, gerando pressão altista sobre o IPCA ao longo do tempo. A casa destaca que o efeito líquido dependerá da persistência do choque e do grau de repasse doméstico dos preços.