No mercado preditivo, os usuários negociam contratos binários (com duas opções) que pagam um valor se o evento de fato ocorrer e zero se não ocorrer. O preço flutua conforme novas informações aparecem.
Questionado se mercados de previsão são apostas, derivativos ou uma nova estrutura econômica, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, respondeu que definições como essa acontecem a partir de questões regulatórias. “Investimentos sempre têm algum grau de aposta. O que acontece é que certos conceitos são mais restritos pela regulação”, declarou.
De acordo com Accioly, decisões classificatórias, como a determinada pelo CMN, envolvem crenças e pretensões políticas. “A percepção sobre o que pode dar poder a um grupo específico influencia quais regras serão aprovadas ou não”, afirmou.
Ao comentar o impacto da resolução sobre o desenvolvimento do setor no País, Accioly completou dizendo que “o Brasil nunca perde a chance de perder uma chance”. Vale lembrar que a CVM não tem direito a voto no CMN.
Mercados preditivos são bets ou não?
“Têm cheiro de bet, cara de bet, mas não são bets”. É assim que Davi Cardoso, CEO da Triad Markets, define os mercados preditivos. Segundo ele, a principal diferença está no funcionamento das operações: enquanto nas casas de apostas as próprias empresas definem as odds (retorno potencial) e incluem uma margem de lucro, nos contratos preditivos as negociações acontecem diretamente entre os participantes do mercado.
Cardoso afirmou que via com otimismo o potencial de crescimento do setor no Brasil, especialmente em um ano eleitoral, quando o interesse por previsões tende a aumentar. Por isso, classificou a decisão do CMN como uma frustração. “Receber um bloqueio sem aviso prévio foi muito frustrante”, disse.
Arthur Farache, CEO da Hurst, também criticou a medida. “O mercado no Brasil foi morto antes mesmo de acontecer”, afirmou.
Para Farache, é importante diferenciar a intenção por trás de cada modelo. Segundo ele, nas bets o objetivo é essencialmente o entretenimento, sem outra finalidade econômica para o capital apostado. Já os mercados de previsão teriam uma função mais ampla, ligada à formação de expectativas e à geração de informações econômicas e estatísticas. “Se for usado apenas para entretenimento, é bet. Se houver um racional econômico ou estatístico por trás, é mercado de previsão”, explicou.
De acordo com o executivo, esse tipo de mercado pode contribuir para decisões de política pública – potencial já citado pelo próprio Federal Reserve (Fed) em um estudo publicado em fevereiro. No documento, o banco central americano diz que a plataforma pode ser valiosa tanto para pesquisadores quanto para formuladores de políticas.
Nos Estados Unidos, esse setor tem crescido, com previsões sobre diferentes temas, desde eleições até vencedores do Oscar. O segmento, no entanto, enfrenta disputas legais. Estados – que têm autonomia para autorizar e regular apostas no país – vêm contestando os mercados preditivos, argumentando que as plataformas deveriam seguir as mesmas regras aplicáveis às empresas tradicionais de bets.
Contratos preditivos sobre temas econômicos
A B3 lançou, em abril, contratos referenciados no Ibovespa, dólar e bitcoin. Embora sejam semelhantes aos contratos de opções tradicionais, os contratos de eventos se diferenciam pelo pagamento fixo, potencial de ganho conhecido no início da operação e risco limitado para compradores e vendedores, já que o produto não permite alavancagem, ou seja, o investidor não pode perder mais do que aplicou.
Os novos produtos foram autorizados pela CVM inicialmente para negociação exclusiva por investidores profissionais (com mais de R$ 10 milhões alocados em ativos financeiros ou certificação técnica emitida pela autarquia). A Bolsa agora trabalha para que o órgão libere os produtos para além desse público. A B3 também espera conseguir liberação para contratos ligados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e ao Produto Interno Bruto (PIB).
Antes mesmo da chegada da Bolsa nesse segmento, a XP Investimentos já havia saído na frente. No início de março, a corretora anunciou a entrada no mercado. Por meio de uma parceria com a Kalshi, clientes da marca Clear que possuem conta de investimento internacional na XP passaram a ter acesso a contratos preditivos sobre eventos financeiros e econômicos. Desde o anúncio, a Clear tem disponibilizado vídeos sobre o tema em seu canal no YouTube.
O São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.