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Mercado

Fim do boom das commodities? Entenda as baixas no setor

Depois de um momento de euforia, as matérias-primas agora passam por um momento de desaceleração

Por Jenne Andrade

23/08/2021 | 3:00 Atualização: 24/08/2021 | 12:24

Um pedaço de minério de ferro nas mãos de um mineiro. Foto: David Gray/ Reuters
Um pedaço de minério de ferro nas mãos de um mineiro. Foto: David Gray/ Reuters

Nas últimas semanas, o mercado sofreu uma recalibragem de rota. O boom das commodities, iniciado no final do ano passado e que impulsionou as companhias do setor para resultados históricos, começou a enfraquecer. Desde o meio de julho, a cotação dos contratos futuros de minério de ferro negociados em Cingapura caíram 29,7%, passando de US$ 219,67 para US$ 154,31.

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O petróleo seguiu na mesma linha, com queda de 11,84%, aos US$ 65,04, enquanto as commodities agrícolas (grãos, óleo vegetal, açúcar e algodão) amargam uma perspectiva ainda mais negativa. “Estamos mais baixistas em relação aos preços agrícolas e esperamos um declínio de aproximadamente 30% até 2024 a partir do preço atual. O consenso da Bloomberg mostra uma queda de 15%, em linha com nossa previsão anterior”, diz o relatório do Bradesco BBI e Ágora Investimentos.

De acordo com José Mauro Delella, consultor econômico da Alta Vista Investimentos, o ciclo de forte de alta observado entre 2020 e o 1º semestre deste ano, não tem um caráter generalizado e foi motivado por um conjunto de fatores que ‘perderam força’ nos últimos dias. “O que impulsionou as commodities foi o investimento chinês em infraestrutura, como resposta aos efeitos do coronavírus, que aumentou fortemente a demanda por matérias-primas básicas, notoriamente metais”, afirma Delella.

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A China também foi um dos grandes responsáveis pelo salto nos produtos agrícolas, com um ritmo de importação muito forte, enquanto problemas de ordem climática limitavam a oferta dos produtos. Fora essa questão, em muitos outros países, em especial nos desenvolvidos, foram adotadas políticas fiscais e monetárias bastante expansionistas (diminuição dos juros para estimular a economia) para contornar a desaceleração provocada pelo avanço da covid-19, o que deslocou os preços para cima.

“Nos últimos dias vimos questionamentos sobre essas combinações, primeiro com números de atividade econômica mais fracos na China, o que sinaliza um menor ímpeto de expansão chinês nessa parte de infraestrutura”, afirma Delella. Outro ponto forte que freou as expectativas em relação às commodities foi o aumento do risco de que essa essa política monetária expansionista no mundo tenha que acabar antes do que o imaginado, com a escalada da inflação.

O governo chinês também começou a adotar medidas mais restritivas na operação de algumas siderúrgicas, sob a justificativa de diminuir a poluição e controlar os preços desses insumos. Em paralelo, surgiu o temor sobre possíveis novos fechamentos provocados pela variante Delta do coronavírus.

Esses fatores resultaram na desaceleração observada no segmento de commodities na Bolsa. As ações da Vale (VALE3), por exemplo, registraram a maior queda do ano em um pregão, de 5,89%, no dia 30 de julho. Naquela sessão, o minério de ferro recuou cerca de 8%. Entretanto, o cenário continua positivo para o setor.

Metais e petróleo no longo prazo

Apesar das quedas recentes, a visão para commodities, em especial as metálicas e ligadas ao petróleo, continua positiva. A diferença é que agora os ganhos são esperados no médio e longo prazos, sem as grandes estilingadas observadas nos papéis do segmento nos últimos 12 meses.

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“É importante frisar que embora os preços tenham recuado, as commodities metálicas e o petróleo ainda são negociados em níveis muito favoráveis para as empresas”, diz  Ricardo França, analista da Ágora. “Olhando para os fundamentos, para a capacidade das empresas de gerar resultado, ainda vemos um 2021 muito forte.”

Segundo França, o investidor que não conseguiu surfar no grande upside das empresas relacionadas a commodities entre o final do ano passado e início desse ano, ainda pode aproveitar para comprar as ações. “Mas desde que vise o retorno mais no médio e longo prazos. Como estamos entrando em um novo momento de preço, talvez no curto prazo o investidor tenha mais volatilidade nas ações.”

Atualmente, a Ágora tem recomendações de compra para Vale (VALE3), Usiminas (USIM5) e Gerdau (GGBR4), que devem ser beneficiadas pelo pacote trilionário de estímulos à infraestrutura dos EUA. O plano foi aprovado pelo Senado Americano na última semana e deve dar um grande fôlego para a indústria do aço e empresas siderúrgicas. No setor de petróleo, França destaca PetroRio (PRIO3) como uma boa escolha, já que a visão é de aumento da demanda com a volta da circulação de pessoas.

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, não vê o ciclo das commodities perto do fim, apesar da desaceleração. “Os países levaram a cabo políticas fiscais expansionistas e fundamentadas na mudança da matriz energética, coisa que não vimos quando atravessamos a crise de 2008. Esse movimento deve continuar gerando uma demanda grande de commodities ligadas à infraestrutura e matrizes energéticas.”

Commodities agrícolas em declínio

A visão mais positiva não é para todos os tipos de commodities. As agrícolas, por exemplo, vivem uma dinâmica diferente, com perspectivas mais negativas. De acordo com França, no curto prazo, esses insumos ainda devem estar com preços mais altos devido às condições climáticas desfavoráveis. Os próximos anos haverá um movimento gradual de recuo.

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“A China é o maior importador do mundo de grãos e hoje eles estão com um problema na produção do suíno. As margens estão negativas por conta da compra de grãos a preços mais elevados”, afirma. “A China deve reduzir essa importação de grãos e por ser um grande player, quando isso acontece, e há redução de demanda, acaba afetando os preços.”

A baixa nos preços dos bens agrícolas, por outro lado, deve favorecer as empresas na Bolsa que precisam comprar esse tipo de insumo. Segundo os especialistas de mercado, esse é o caso da M. Dias Branco (MDIA3), dona de marcas famosas relacionadas a massas, que tem grande parte do custo relacionado ao preço do trigo. A Ambev (ABEV3) também pode ser favorecida pela diminuição dos custos ligados à fabricação de bebidas alcoólicas.

 

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