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Mercado

Com Cogna (COGN3) de fora, Ser Educacional (SEER3) e Yduqs (YDUQ3) disputam Laureate

Empresas tentam adquirir ativos da rede americana Laureate no Brasil

Por Thiago Lasco

15/09/2020 | 16:38 Atualização: 03/12/2020 | 11:15

FMU, parte dos ativos da Laureate no Brasil que estão à venda (Crédito: Divulgação)
FMU, parte dos ativos da Laureate no Brasil que estão à venda (Crédito: Divulgação)

O setor de educação está vivendo uma semana movimentada. No domingo (13), a Ser Educacional (SEER3) soltou um fato relevante anunciando um acordo para a aquisição dos ativos da rede americana Laureate no Brasil, que incluem as conhecidas universidades FMU e Anhembi Morumbi, de São Paulo.

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A transação ainda depende de aprovação dos acionistas em assembleia geral extraordinária e do aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Uma das cláusulas do acordo permite que a Laureate receba outras propostas dentro de um prazo 30 dias – mas, caso feche negócio com um outro interessado, este deverá pagar à Ser uma multa rescisória de R$ 180 milhões.

Na manhã de segunda-feira (14), a Yduqs (YDUQ3) entrou na disputa e anunciou que tem condições de apresentar à Laureate uma proposta melhor que a da concorrente pelos ativos em questão. Com isso, as ações das duas empresas se valorizaram: Ser Educacional ON abriu o pregão com alta de 13,25% e Yduqs, de 6,49%.

Cogna fora do jogo

Se a pandemia não tivesse acontecido, talvez o comprador dos ativos da Laureate no Brasil não seria nem a Ser Educacional, nem a Yduqs – mas sim a Cogna (COGN3). O maior grupo educacional do País havia levantado capital para fazer essa compra.

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Mas aí veio o coronavírus, a Cogna deixou o dinheiro em caixa e resolveu priorizar o IPO da sua subsidiária Vasta em Nova York.

“Neste momento, a Cogna está com o balanço fragilizado e resultados muito piores. Ela tem sofrido com a queda do FIES de forma mais intensa. Já a Yduqs conseguiu minimizar esse impacto pelo seu curso de Medicina e também pelo crescimento do EAD”, diz Rafael Cota Maciel, gestor de renda variável da AF Invest.

Para Fernando Siqueira, gestor da Infinity Asset, também de renda variável, o impacto da venda dos ativos da Laureate atinge a Cogna apenas indiretamente, já que poderá formar um player mais forte para competir com ela no EAD, seara em que é veterana.

“Essa transação afeta muito pouco a Cogna em termos de ensino superior, onde ela é mais madura. Se algum desses players começasse a investir mais pesado em ensino básico e médio, que é onde a Cogna está investindo nesse momento, aí sim ela seria atingida”, afirma Siqueira.

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O gestor acrescenta que Cogna já é um grupo bem grande e, por isso, a compra desses ativos não faz sentido para ela – e poderia até mesmo ser vetada pelo Cade: “Se a Cogna comprar alguma coisa, serão ativos bem menores, pontuais. Caso o Cade exija, para aprovar a venda para Yduqs ou Ser, que alguns ativos fiquem de fora da transação, talvez a Cogna possa se interessar em comprá-los”.

Consolidação é alento para setor em dificuldades

O setor de educação foi um dos mais atingidos pela pandemia de covid-19. De um lado, as medidas de contenção da transmissão do vírus impuseram o fim das aulas presenciais. De outro, as dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias fizeram com que a inadimplência aumentasse de forma exponencial.

“Esses problemas vão persistir por algum tempo. O setor continua pressionado, já que não temos ainda uma solução para essa questão sanitária”, diz Maciel, da AF Invest. “Só com a chegada de uma vacina eu vejo o comportamento caminhando para uma normalidade.”

Siqueira explica que dois aspectos dificultam o cenário. O primeiro é que a educação ainda é muito focada em atividades presenciais. O segundo é que a retomada desse setor depende da própria recuperação da atividade econômica e do emprego.

“É difícil investir em uma faculdade ou pós-graduação quando a pessoa não sabe se vai continuar trabalhando. Por isso, a recuperação do setor só chega no final do ciclo econômico, quando os consumidores já estão bem mais confiantes”, diz.

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Esses fatores ajudam a inserir o interesse dos competidores pelos ativos da Laureate em um contexto maior, de consolidação de um setor que ainda é bastante pulverizado. Movimentos como fusões e aquisições tendem a se intensificar, pois ajudam a recompor uma receita que foi muito debilitada pelo financiamento estudantil (FIES).

“É muito razoável haver uma consolidação agora, pois o momento do mercado é difícil para os players. As marcas tendem a se juntar”, diz Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital.

Ativos da Laureate são estratégicos para as duas rivais

Além das paulistas FMU e Anhembi Morumbi, o pacote de ativos da Laureate que está na mesa inclui Unifacs (Bahia) e Universidade Potiguar (Rio Grande do Norte). Eles são muito interessantes para as duas concorrentes, ainda que por diferentes razões.

Do ponto de vista geográfico, a operação faz mais sentido para a Ser do que para a Yduqs. A Ser é mais forte no Norte e Nordeste e não tem exposição importante em São Paulo, onde ganharia acesso a duas marcas fortes e consolidadas.

Já a Yduqs tem presença maior no Sudeste (principalmente no Rio de Janeiro, onde opera a bandeira Estácio) e Sul. Então, para ela, a compra traria uma sobreposição de áreas maior.

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Um ingrediente muito precioso desse pacote são 830 vagas de Medicina – um curso caro, rentável e com baixíssima evasão e, portanto, cobiçado por todos os grandes players do setor.

“Enquanto o tíquete médio da Yduqs é de cerca de R$ 800, a mensalidade de medicina chega a 10 vezes esse valor. Mas as famílias não enxergam isso como despesa, e sim um investimento que se paga. Por isso, Medicina é o filé-mignon de qualquer faculdade”, explica Maciel.

Para a Ser, o acréscimo de Medicina no portfólio seria ainda mais importante que para a rival, que já tem oferta razoável de vagas desse curso. “Para a Yduqs, a sinergia maior seria com a operação bem consolidada de ensino a distância (EAD) da Anhembi Morumbi”, destaca Siqueira.

Contudo, qualquer uma das duas oponentes ganhará uma vantagem expressiva ao abocanhar os 270 mil alunos que vêm no pacote da Laureate. Ser Educacional, com atuais 190 mil, passaria a 460 mil, tornando-se a quarta maior rede de ensino superior privado no Brasil. Já Yduqs, hoje com 630 mil, encostaria na líder Cogna, que conta com cerca de 920 mil estudantes.

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Para Junqueira, com o impulso que o EAD ganhou durante a pandemia, a força das marcas envolvidas tende a se tornar bem mais relevante que sua localização geográfica.

“O ensino remoto vai se confundir cada vez mais com o presencial. Veremos mais cursos em que parte das aulas será ministrada a distância, sem a necessidade de os alunos estarem presentes 100% do tempo. Com isso, as faculdades deixarão de ser regionais e se tornarão nacionais”, prevê.

Yduqs mais preparada

Os três especialistas ouvidos pela reportagem concordam que a Yduqs está melhor posicionada que a Ser nessa disputa, porque tem mais caixa para absorver a compra dos ativos.

“A Yduqs tem R$ 1,5 bilhão de Ebitda e a Ser, R$ 300 milhões. Isso significa que elas poderiam assumir dívidas de R$ 3 bilhões e R$ 600 mil, respectivamente”, diz Junqueira. “Yduqs está em posição mais favorável e não se penalizaria tanto.”

O sócio da Gauss Capital conta que a oferta da Ser contempla o pagamento de R$ 1,7 bilhão à vista, outros R$ 600 mil a prazo e mais R$ 1,5 bilhão em ações da empresa. Mas essas ações não seriam tão interessantes para a Laureate.

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“A Laureate ficaria com apenas 7,5% de participação e poder de voto diluído, enquanto Janguiê Diniz (fundador da rede) detém 50% e toma as decisões. Não necessariamente a Laureate ficará com essas ações, mas a liquidez desses papéis é menor que no caso da Yduqs”, compara.

Ainda que não se saiba qual será a oferta feita pela Yduqs, a situação de caixa da empresa permite uma proposta com percentual em dinheiro vivo maior que a oferecida pela Ser.

Vencedor terá papéis mais valorizados

As ações da Ser tiveram um salto de valorização logo após a divulgação do fato relevante. A entrada da Yduqs no páreo provocou uma alta nos papéis das duas rivais e também de Ânima e Cogna.

A partir de agora, porém, somente o desfecho dessa disputa poderá dar um viés mais claro para o preço dessas ações. A empresa que abocanhar os ativos terá alta nos papéis, enquanto a perdedora terá uma correção para baixo em seu preço.

Maciel frisa, entretanto, que o preço das ações também será influenciado pelo valor do lance final a ser dado pela parte vencedora.

“Temos que ver se a compra não vai sair cara demais. A Yduqs pode elevar a proposta. Se o negócio entrar em uma espiral de leilão, isso será ruim para o investidor daquela empresa”, pondera.

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