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Mercado

Crise doméstica joga balde de água fria em IPOs de 2021

Neste ano, a B3 conta com 45 IPOs realizados, contra 55 interrompidos por desistências

Por Jenne Andrade

08/11/2021 | 3:00 Atualização: 08/11/2021 | 7:46

(Fonte: Shutterstock)
(Fonte: Shutterstock)

A Bolsa de Valores brasileira bateu recordes de IPOs (ofertas públicas iniciais) realizados nos sete primeiros meses do ano. De acordo com a Economatica Brasil, 41 empresas abriram capital na B3 no período, 12 delas somente em julho. O número já é quase sete vezes maior do que a mediana observada nos últimos cinco anos, de apenas seis novas companhias em cada exercício.

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O fluxo positivo, entretanto, foi severamente brecado no segundo semestre. Em agosto, apenas quatro empresas seguiram os planos e se lançaram à Bolsa: Raizen (RAIZ4), Viveo (VVEO3), Oncoclínicas do Brasil (ONCO3) e Kora (KRSA3). De lá para cá, o positivismo deu lugar a uma série de desistências. No mês de setembro, a Vittia Fertlizantes (VITT3) foi a única estreante. Já em outubro, não foi registrada nenhuma oferta.

Até a última sexta-feira (5), a B3 contava com 45 IPOs realizados em 2021, contra 55 IPOs interrompidos por desistência, segundo dados da CVM. Há correlação entre o número de ofertas iniciais e a trajetória do Ibovespa. Entre janeiro e junho, o índice surfou um clima de otimismo e subiu 7%, chegando na máxima de 131,1 mil pontos.

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Com a deterioração das expectativas para a economia, o Ibovespa inverteu o sinal e caiu 17% nos últimos quatro meses, acelerando as perdas a partir de setembro. Atualmente, o índice está no patamar de 104, 8 mil pontos.

O principal impulsionador para a reviravolta na conjuntura foi o cenário doméstico. “Estamos com um mau humor muito grande no mercado por conta das sinalizações de Brasília, dessa sensação de que Paulo Guedes não se entende com a área social do governo. Isso trouxe números muito ruins”, afirma Mario Goulart, analista da O2Research.

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Criando problemas

Consolidados nas manifestações do dia 7 de setembro, os conflitos entre o presidente Jair Bolsonaro e o STF chacoalharam a Bolsa. No dia seguinte, o Ibovespa derreteu 3,78%. A desaceleração da China e escalada da inflação no Brasil, que já chega aos 6,9% (janeiro a setembro), também pesaram nas projeções. Contudo, foi a possibilidade do furo no teto de gastos, que deverá contar com a anuência do ministro da economia Paulo Guedes, que jogou o mercado no escuro.

O ‘Posto Ipiranga’ de Jair Bolsonaro chegou a pedir licença para ultrapassar o limite fiscal e, assim, viabilizar o novo Auxílio Brasil – substituto do Bolsa Família. Em sinal de desacordo ao drible na regra dos gastos, integrantes da equipe econômica deixaram seus cargos, como Bruno Funchal, secretário do Tesouro e Orçamento, e Jeferson Bittencourt, secretário do Tesouro Nacional.

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Agora, os investidores acompanham a votação em segundo turno da PEC dos precatórios, que muda a regra de cálculo do teto, adia o pagamento das dívidas judiciais do governo e poderá abrir um espaço fiscal de mais de R$ 90 bilhões para instituir o novo benefício social. “É mais que natural que diminua o apetite dos investidores. O que não apenas diminuiu a atratividade da Bolsa, mas também contaminou as expectativas e reduziu a estimativa de crescimento econômico para 2022”, ressalta Roberto Attuch, CEO da OHM Research.

De fato, o estresse adicional piorou substancialmente as perspectivas. Agora, a projeção é de que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) feche o ano em 9,17%, a Selic em 9,25% e o PIB de 4,94%, segundo o Boletim Focus. Há quatro semanas, a expectativa era de inflação a 8,51%, juros a 8,25% e crescimento econômico de 5,04%.

Para 2022, já existem instituições financeiras considerando a possibilidade de uma recessão. Com essas informações à mão, a aversão ao risco aumenta e o preço que o mercado aceita pagar pelas aspirantes à Bolsa diminui. “Se vai fazer IPO para pegar pouco dinheiro, a companhia acaba desistindo”, explica Goulart. “Eu soube de players que desistiram assim que receberam a previsão do preço da ação.”

O processo de realização de uma abertura de capital envolve várias etapas. Uma das primeiras é o encontro com investidores institucionais, analistas, corretoras, gestores e potenciais interessados. O objetivo é gerar interesse e estimar elementos-chave da oferta, como o preço no qual o mercado está disposto a pagar pelo IPO.

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Em outras palavras, quanto pior o momento e as perspectivas econômicas, menos os investidores aceitarão pagar pela empresa. “Esse movimento indica que as companhias acreditam que os problemas que estamos tendo agora não irão se reverter rapidamente ou que esses problemas afetariam a precificação”, afirma Nícolas Merola, analista da Inversa Publicações.

Ele explica que o melhor momento para abrir capital foi quando a Bolsa estava perto dos 130 mil pontos. “Quando empresas da B3 estão muito descontadas (como agora), para as novatas se tornarem competitivas é necessário jogar os preços lá para baixo”, afirma. “Isso porque as listadas já possuem um histórico maior de resultados, uma vivência de listagem maior.”

Novatas em baixa

Mesmo as empresas que foram à Bolsa nos momentos de alta do mercado estão com dificuldades. Cerca de 74% dos IPOs concluídos em 2021 estão com retorno negativo no ano, segundo dados da Economatica. Em termos de rentabilidade, as piores performances ficaram com a Westwing, Mobly e Dotz, que acumularam quedas de 72,3%, 70,6% e 68,5% no ano, respectivamente.

Para Goulart, o resultado aquém do esperado também incentiva as empresas a desistirem do processo de IPO, pelo menos enquanto o cenário continuar nebuloso. Já Merola ressalta que esse panorama reforça a tese de ‘máxima cautela’ antes de entrar em qualquer oferta, principalmente falando de investidores pessoas físicas.

Quando uma oferta acontece, a assimetria de informações sobre as companhias é muito grande. Enquanto os fundadores possuem todos os dados disponíveis, os demais participantes têm acesso a um número bem limitado de indicadores. Essa situação se agrava quando a empresa em questão não é comparável com outras em Bolsa, ou seja, é a primeira do segmento a ser listada ou possui um negócio disruptivo.

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“Quando a empresa vem com propostas novas, é preciso determinar um novo nível de precificação. É nesse momento em que os fundadores conseguem desbravar preços altíssimos. O mercado tem dificuldade de precificar essas companhias, uma vez que não se tem comparáveis. Esse é o momento mais traiçoeiro para o investidor pessoa física entrar em um IPO”, afirma Merola.

Em 2021, a Inversa não recomendou a entrada em nenhum dos 45 IPOs realizados. A casa também havia antecipando a virada do cenário econômico desde o segundo trimestre deste ano. Para Merola, havia um clima positivo enquanto os riscos se acentuavam e as reformas necessárias ficavam travadas na pauta política.

O analista, que gere uma carteira de renda variável com algumas operações de curto prazo, afirma que carrega pelo menos 50% de caixa desde abril. “Sempre tive uma posição de caixa muito grande, já que estávamos vendo essa relação risco/retorno muito negativa para o Ibovespa. E foi a movimentação que aconteceu e fomos assertivos nesse posicionamento. Estamos tomando posições defensivas, dolarizadas, que se beneficiam com a desvalorização do real.”

Ano eleitoral

Em 2022, ocorrerá a 9ª eleição presidencial no Brasil desde a redemocratização. O clima de polarização entre apoiadores do atual presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve se acentuar, enquanto o mercado procura uma terceira via. Historicamente, em anos eleitorais, a Bolsa sofre com ainda mais volatilidade.

Nas últimas duas eleições, de 2014 e 2018, o número de IPOs na Bolsa derreteu quase 80% em relação aos anos imediatamente anteriores (2013 e 2017). “As próprias empresas costumam evitar esses momentos para listarem suas ações, com medo tanto da volatilidade de curto prazo, quanto do valuation que será aceito pelo mercado”, afirma Merola, da Inversa.

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Os especialistas acreditam que o ano que vem será mais fraco para os IPOs. A maior parte das listagens deve ser feita na segunda metade de 2022, quando o ambiente político estiver melhor definido e o mercado tiver uma previsibilidade mais clara sobre o futuro.

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