Especialistas discutem no SPIW os riscos da blockchain, stablecoins e tokenização no sistema financeiro. Executivos defendem avanço regulatório para proteger investidores. (Foto: Isabela Ortiz)
O mercado financeiro tradicional e o mundo cripto nem sempre foram sinônimo de amizade, mas em 2026, com o Pix alcançando 170 milhões de brasileiros e o Drex no aperfeiçoamento, diversos investidores acabam utilizando blockchain e redes de programação sem nem perceber. Essa mudança faz com que especialistas pressionem órgãos reguladores para desenvolver normas.
“Se estamos falando de responsabilização, é porque existe a possibilidade de prejudicar alguém. Então, a regulação é necessária, sim”, defendeu George Marcel Acuri, especialista do Bradesco. Executivos convidados discutiram os riscos que a mudança tecnológica pode trazer ao investidor no São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap.
Entre esta quarta-feira (13) e sexta (15), o evento reúne mais de 2 mil palestrantes convidados, como especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas da ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.
Mediado por Rodrigoh Henriques, diretor de inovação e estratégia da Fenasbac, o painel contou com os palestrantes Marcel Arcuri, do Bradesco; Gladstone Junior, analista de tecnologias emergentes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); e André Carneiro, CEO e diretor executivo do BBChain. O especialistas concordaram que, atualmente, a automação de um produto muda tudo e, por isso, “precisamos voltar ao básico”.
“Sempre soube que o cripto invadiria pagamentos, custódia de dinheiro e, se já estava presente nos investimentos, era natural que avançasse também para crédito e empréstimos”, disse Arcuri. Basicamente, os executivos afirmaram que é necessário entender que, se alguém está investindo em cripto, está deixando de investir em outra coisa. “O objetivo, então, é atualizar as carteiras dos bancos para ampliar o portfólio de ofertas ao cliente e não perder esse dinheiro. Precisamos atender todas as necessidades”, explicou o porta-voz do Bradesco.
Qual é o papel da regulação nas stablecoins?
Questionados sobre o papel da regulação, Carneiro provocou o público e os colegas para que repensassem a ilusão de que as coisas são realmente distribuídas. “Não podemos cair na ilusão das stablecoins como meio de pagamento neutro — isso também é controle monetário, e muita gente ainda não entendeu isso. Você pega o dinheiro que iria para financiamento imobiliário e coloca no bolso de uma empresa privada”, explica.
Além disso, é importante diferenciar o termo ‘redes’ do termo ‘protocolos’. Embora a descentralização das redes seja relevante, a dos protocolos tornou-se relevante também, porque são eles que operam as soluções financeiras. “E é preciso vigiar quem opera e quem toma decisões. Mas por que regular? Para evitar mentira, fraude e imperícia”, orientou Junior, do BNDES. A blockchain resolve muitos problemas internos, mas a conexão entre o ‘mundo de dentro’ e o ‘de fora’ ainda exige regulação.
“Alguém precisa definir o que é certo e errado e proteger as pessoas até delas mesmas”, enfatizou o analista do banco de fomento.
Além disso, os palestrantes entendem que distribuído e descentralizado não são exatamente a mesma coisa. “Também não acredito que quebrar os problemas em partes seja sempre o correto”, acrescentou Arcuri. A infraestrutura da blockchain é replicável. Quando se olha para essa infraestrutura, ela pode ser descentralizada ou centralizada — “e a grande questão é quem controla o protocolo em si.”
De acordo com o executivo do Bradesco, “existe o risco de se adiantar demais antes da regulação”. Se a propriedade do token garante direito sobre o ativo subjacente, isso depende da lei e do regulador. Gladstone complementou dizendo que além da descentralização, existe outra inovação que confunde as pessoas: a programabilidade.
“Ela aumenta muito a capacidade de inovação e permite criar novos produtos financeiros”, explicou. O especialista do BNDES afirmou que a blockchain é extremamente poderosa quando ultrapassa fronteiras legais e globais — “porque aí a regulação não alcança”.