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Investimentos

Gestoras de “special sits” avançam no Brasil e entregam retornos de até 40% ao ano

Em 2015 existiam cinco casas especializadas. Número saltou para 51 em 2025

Por Marília Almeida
Editado por Geovana Pagel

10/04/2026 | 5:30 Atualização: 10/04/2026 | 7:18

Special situations: cada vez mais gestoras vêm se especializando no segmento nos últimos cinco anos (Foto: Adobe Stock)
Special situations: cada vez mais gestoras vêm se especializando no segmento nos últimos cinco anos (Foto: Adobe Stock)

O número de gestoras que oferecem fundos de investimento com estratégia focada em eventos capazes de destravar valor, como reestruturações, fusões, recuperações judiciais, mudanças societárias ou distorções de preço, conhecidas como special situations, explodiu nos últimos dez anos, Enquanto em 2015 existiam apenas cinco gestoras especializadas, em 2025 esse número saltou para 51, totalizando cerca de R$ 13,4 bilhões disponíveis para investimento, segundo levantamento da 051 Capital.

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Entre as principais gestoras que atuam nesse mercado estão Prisma, Jive, Lumina, JGP, Quadra, Chimera e Starboard, entre outras. Além delas, as tesourarias de grandes instituições financeiras, como BTG, XP e Itaú, também desempenham um papel relevante nesse segmento.

Apesar do potencial de retornos diferenciados, essas estratégias envolvem riscos de crédito, liquidez e mercado. Os fundos costumam ter prazos longos e estrutura fechada, sem possibilidade de resgates antes do vencimento. “O investidor tem de entender que pode ficar 15 anos preso no fundo, mas o retorno pode ser de 25% ao ano. Muita gente topa fazer, mas opta também por colocar uma exposição menor à tese”, diz Flávio Aragão, sócio da 051 Capital.

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Contudo, apenas nos últimos três anos, há 20% mais dinheiro disponível para investir nessa classe do que antes — ou seja, a capacidade dos investidores de alocar recursos aumentou. Na prática, isso indica mais demanda por esses ativos

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Uma das razões para esse crescimento é o ambiente atual de juros elevados e maior seletividade bancária, pois essa classe de ativos funciona como uma alternativa para as empresas ao financiamento tradicional. Esse contexto resultou em recordes mensais de pedidos de recuperação judicial, que, para special situations, representa mais oportunidades. Joga também a favor do segmento a fraca performance de outras aplicações no período, já que consegue oferecer retornos anuais de dois dígitos, ainda que com maior risco.

A rentabilidade é um atrativo de special situations. Com base em relatórios, estimativas de mercado indicam retornos na faixa de 25% a 40% ao ano, a depender do nível de risco associado às operações.

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A origem dessas gestoras é similar, explica Aragão, da 051 Capital. Em geral, os empreendedores são ex-funcionários de tesourarias de grandes bancos, como BTG Pactual, Credit Suisse e Santander que montaram o negócio com recursos de clientes mais próximos no banco e gente de confiança das instituições. A partir do momento em que o time amadurece e a gestora não consegue oferecer um nível de remuneração de acordo, os funcionários também se tornam empreendedores e começam a multiplicar as casas especializadas.

Enquanto as primeiras casas têm uma atuação mais generalista, as boutiques de investimento mais recentes começam a se tornar especialistas em uma determinada tese, como mercado imobiliário ou ações judiciais. Geralmente, elas atuam no mercado de médio porte, ou seja, em negócios com valores abaixo de R$ 100 milhões, já que no caso de valores maiores os negócios são dominados por bancos, como o BTG.

Estratégias

Entre as estratégias de special situations, destacam-se o de ações judiciais (legal claims), que correspondem a direitos creditórios oriundos de ações judiciais ou litígios, cujo valor a parte vencedora espera receber ao término do processo. Esses direitos podem ser cedidos a terceiros, criando oportunidades tanto para empresas que buscam antecipar recursos quanto para investidores interessados em ativos com potencial de retorno elevado.

Na prática, essas operações ocorrem com deságio significativo, geralmente entre 50% e 60% do valor de face. O cedente recebe o valor de forma imediata, enquanto o adquirente passa a deter o direito de executar o crédito integralmente, assumindo os riscos relacionados à morosidade processual e ao prazo até a liquidação da execução. Para diminuir riscos, o fundo pode comprar riscos judiciais em estágios avançados, após realização de perícias com resultados positivos.

Diferentemente de ativos tradicionais, esses investimentos apresentam baixa correlação com a volatilidade macroeconômica, uma vez que seu desempenho está vinculado, principalmente, ao desfecho judicial e à atualização monetária conforme os índices definidos pelos tribunais.

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Leia mais: Verde vê Brasil ‘excepcionalmente bem’ em meio à guerra e volta a comprar Bolsa local

A Chimera Capital, que tem R$ 2,2 bilhões sob gestão, sendo que 20% já correspondem a investimentos de grandes bancos, atua em ações judiciais relacionadas ao INSS, causas trabalhistas e condomínio. “Na tese de condomínios a chance de não recebermos os créditos é muito baixa. Não à toa é a mais segura para investir e onde multifamily offices e bancos entraram”, diz Rafael Nogueira, diretor de crédito da gestora.

No início investidores questionaram como a gestora conseguiria fazer dinheiro com um judiciário moroso e que sofre com a judicialização, mas a gestora aponta que não financia disputas judiciais desde o começo, quando não sabe quem é juiz ou turma que irá analisar o processo. Com todas as informações, processos digitalizados e ferramentas de inteligência artificial, consegue analisar como o juíz ou turma decidiram no passado sobre o mesmo tema, e diluir riscos de uma decisão pouco acertada.

Além da legal claims, existe ainda o crédito estruturado que tem como foco empresas em recuperação judicial ou falência. O destaque são os financiamentos com altas garantias. Aragão argumenta que o crédito estruturado com garantias reais de 4 para 1 e retornos de CDI + 10 a 15%* é muitas vezes mais seguro do que o crédito high grade tradicional, que ele classifica como um “ato de fé” no balanço auditado. A gestora Vega atua na tese, na qual busca oferecer de retorno aos investidores a taxa CDI mais 9% ou 10%. “Tem muita empresa que tomou dívida quando a Selic com juros de 3% a 5% ao ano que agora a 15% fica impagável. Recebemos 250 casos por ano, mas fazemos três, porque demanda tempo e esforço. É desgastante”.

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Há ainda fundos que investem em distressed assets, que são empresas com bons fundamentos, mas em momento operacional ruim, ou em carteiras de crédito de bancos inadimplentes, adquiridas com forte desconto (entre 8% e 16% do valor de face), geralmente com garantias reais, como imóveis industriais. A Huma Capital, com cerca de R$ 2,4 bilhões sob gestão e parceria com a Oaktree Capital Management, tem aproveitado para adquirir ativos e dívidas com desconto, incluindo empresas em recuperação judicial, com retornos estimados em CDI +14%.

À medida que o segmento cresce e passa a oferecer mais ativos, aumenta o risco de excesso de alocação na classe, que pode reduzir retornos futuros. É aí que entra o trabalho da 051 Capital, que faz uma curadoria dos ativos existentes em um fundo feeder (que investe em outro fundo) ou fundo de fundos (FoF), ajudando o investidor profissional a diversificar carteiras. Esse feeder é distribuído em plataformas, como XP e BTG com aplicação mínima menor, que pode chegar a R$ 250 mil (geralmente o tíquete para investir na classe de ativos fica na casa dos milhões).

O segmento discute na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a ampliação do acesso à classe de ativos para investidores qualificados, com mais de R$ 1 milhão investido. “Ainda há muito desconhecimento. É um mercado relativamente novo”, afirma Aragão, da 051 Capital.

Leia mais: Vice-presidente do Bradesco vê guerra no Irã como principal risco e mantém visão de queda de juros no Brasil

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Em estratégias de crédito estressado e special situations, a marcação das cotas exige um perfil de investidor menos sensível à volatilidade de curto prazo. Isso porque ativos adquiridos com forte desconto, como uma dívida comprada por 10 que vale 100, podem levar tempo para refletir seu valor.

Nesse intervalo, o desempenho tende a ficar estável até que eventos como renegociações, decisões judiciais ou vendas destravem valor e gerem saltos relevantes. Por isso, gestores reforçam a comunicação com cotistas para reduzir surpresas, embora nem sempre seja possível prever o momento exato da reprecificação.

Por isso, gestores buscam reforçar a comunicação com os cotistas, explicando as estratégias em curso e os potenciais impactos futuros, numa tentativa de reduzir o fator surpresa, ainda que, nesse tipo de operação, nem sempre seja possível prever exatamente quando a reprecificação acontecerá.

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