“Recuperação em W pode virar um M”, alerta presidente do Banco do Brasil (BBAS3) sobre impacto da guerra
Tarciana Medeiros detalha plano da estatal e promete banco “agressivo” na cobrança de inadimplentes; BB realiza encontro com investidores e imprensa nesta quinta-feira (23)
Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil (BBAS3), durante coletiva fechada para a imprensa. (Foto: Nilton Fukuda)
A presidente do Banco do Brasil (BBAS3), Tarciana Medeiros, detalhou as perspectivas para 2026 em um contexto marcado por guerras, incertezas macroeconômicas, pressão sobre a inadimplência (especialmente no agronegócio) e um ambiente político sensível. Embora haja debate no mercado entre uma recuperação em “U” ou “W” do banco, a leitura interna tende para um cenário mais volátil e que pode impactar fortemente o planejamento: “Se a guerra [no Oriente Médio] prolongar, o W pode virar um M”, disse.
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Por fim, a presidente abordou o formato da recuperação esperada para o banco – e, por extensão, para o próprio ciclo de crédito. “Observando os últimos ciclos, a gente infere que será em W”, afirmou. Isso implica um percurso com “altos e baixos”, refletindo a heterogeneidade da economia e da produtividade entre regiões e setores. Ela disse, entretanto, que enquanto o resultado pode seguir esse padrão mais irregular, a qualidade dos ativos tende a uma recuperação mais linear.
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Durante um evento exclusivo para acionistas e imprensa, o BB Day 26, a executiva evitou antecipar leituras mais detalhadas antes da divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26), prevista para maio, mas reiterou o compromisso com o guidance já apresentado ao mercado financeiro.
Medeiros afirmou que o banco estatal saiu de R$ 800 milhões por trimestre em provisões do agronegócio de 2014 a 2024, para R$ 8 bilhões em 2025. Ela ainda fez uma analogia ao dizer que o banco é uma “startup de 217 anos”, ou seja, enquanto busca se modernizar, o Banco do Brasil carrega a solidez de dois séculos de história.
Nesse cenário, a executiva reforça que o banco seguirá atuando no crédito rural, uma de suas principais frentes. “O Banco do Brasil trabalha com concessão de crédito do agro há mais de 60 anos e a gente vai continuar com crédito do agro dentro do perfil de guidance (projeção) que a gente declarou ao mercado para 2026”, afirmou.
Segundo ela, a atuação do BB será “muito calcada na qualidade do crédito”, com atenção especial à recuperação da adimplência dos produtores. A instituição, que hoje possui cerca de R$ 400 bilhões em carteira no segmento, enfrenta uma deterioração relevante após níveis historicamente baixos de inadimplência até 2024.
A estratégia, portanto, passa por uma mudança de foco, para um cenário de menor volume e mais qualidade. A presidente destaca que o banco está “muito concentrado em retomar a qualidade dessa carteira”, com ênfase em mitigadores de risco e retorno ajustado ao risco.
“O foco nosso em 2026 é crescimento com qualidade”, disse.
Esse direcionamento também se reflete no guidance, que prevê resultados dentro de uma banda entre -2% e +2%, sempre respeitando o risco das operações: “A gente vai continuar concedendo crédito obedecendo o retorno ajustado ao risco”.
Tecnologia e IA no controle do risco do BB
No curto prazo, o desempenho ainda deve refletir esse período de transição. O primeiro semestre de 2026, segundo a executiva, segue dentro do esperado, mas ainda como parte de um ajuste iniciado no ciclo 2025-2026. “É um semestre ainda de ajuste dentro do ciclo, que acaba em junho”, explicou. A expectativa é de um segundo semestre com dinâmica diferente, embora o guidance para o ano esteja mantido desde a divulgação dos resultados do fim de 2025. Parte relevante desse ajuste passa pela atuação mais firme na cobrança de créditos problemáticos.
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A presidente foi direta ao afirmar que o banco intensificou esse processo. “Nós estamos sendo agressivos na cobrança, precisamos ser agressivos na cobrança”.
O objetivo é reduzir o custo de crédito, que ficou em torno de 6,2% em 2025, para uma faixa entre 5,2% e 5,8%. Para isso, o banco também vem incorporando tecnologia e inteligência artificial (IA) aos seus processos. “Estamos ajustando as nossas esteiras, embarcando inteligência artificial para que a gente seja cada vez mais assertivo nesse processo”, acrescentou.
BB (BBAS3) vai priorizar qualidade do crédito em 2026 após salto nas provisões do agro, diz Tarciana Medeiros, presidente do BB durante o BB Day (Foto: William Seixas/Banco do Brasil)
Outro ponto abordado foi a gestão de capital e medidas pontuais discutidas no mercado, como o possível adiamento de instrumentos relacionados a dívida (como o IHCD). Segundo Tarciana, esse tipo de iniciativa está na estratégia do banco, mas tem peso limitado. Trata-se de “um processo diligente dentro da nossa gestão de capital”, classificado por ela como “bem residual dentro da nossa estratégia”.
Na frente operacional, a executiva também comentou a estratégia de presença física e digital do banco. Ela rejeitou a ideia de que fechamento de agências seja um vetor relevante de redução de custos daqui para frente. “A gente vai continuar presente onde, como e quando o cliente precisar de nós”, afirmou.
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Segundo ela, a discussão entre físico e digital perde relevância diante de um modelo mais flexível, que se adapta à demanda local. O banco desenvolveu, nos últimos anos, estruturas para monitorar produtividade e uso dos canais, chegando a 2026 com um modelo que permite transformar a rede de forma orgânica, equilibrando presença física e digital conforme necessário.
Presidente do BB nega conversas sobre o BRB
Sobre eventuais movimentos de mercado envolvendo o BRB, a presidente foi enfática ao negar qualquer conversa. “O Banco do Brasil não foi procurado para tratar sobre o tema BRB”, disse, acrescentando que não houve sequer análise interna sobre possível aquisição de carteira ou participação em soluções de mercado. Apesar disso, ponderou que, como banco comercial, a instituição avalia oportunidades quando elas surgem — o que não ocorreu nesse caso.