Operadores pontuam que investidores aguardam novos gatilhos para ampliar posições na moeda brasileira, sobretudo após o dólar ter furado o piso de R$ 5,00, acumulando baixa de 3,60% em abril.
O recuo do Ibovespa, em aparente realização de lucros, também sugere uma moderação pontual do apetite estrangeiro por ativos locais. Na abertura do pregão, o dólar até esboçou um movimento de alta mais firme, ultrapassando o nível dos R$ 5,00, ao registrar máxima a R$ 5,0024. Mas o ímpeto comprador se desfez após a primeira hora de negociações.
A divisa passou o resto da sessão trabalhando na casa de R$ 4,99, depois de mínima a R$ 4,9850. Com o recuo de 0,03% de hoje, o dólar emendou seis pregões consecutivos de queda em relação ao real, voltando a níveis vistos no fim de março de 2024.
O sócio da Valor Investimentos Gustavo Trotta ressalta que o dólar também apresentou oscilações modestas no exterior, em especial na comparação com divisas fortes, o que mostra uma postura mais cautelosa por parte dos investidores.
“O mercado está tentando entender quais serão os próximos desdobramentos no Oriente Médio”, afirma Trotta. Referência do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY andou de lado na maior parte do dia e apresentava ligeiro recuo no fim da tarde, pouco acima dos 98,000 pontos.
À tarde, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, negou informação de que os Estados Unidos teriam ao Irã solicitado uma extensão do cessar-fogo. Ela afirmou que a próxima rodada de negociações deve ocorrer em Islamabad, com o Paquistão atuando como “único mediador”.
Ontem à noite, Donald Trump disse que a guerra contra o Irã “está muito perto do fim” e que Teerã “quer muito favor um acordo”. Já Israel descartou hoje a possibilidade de um cessar-fogo com o Líbano e reforçou que continuará a atacar a base do Hezbollah, grupo xiita ligado ao Irã.
À tarde, o Banco Central informou que o fluxo cambial total foi negativo em US$ 1,303 bilhão na primeira semana de abril (de 6 a 10), com saídas líquidas de US$ 1,066 bilhão pelo canal financeiro. No mês, até o dia 10, o saldo foi negativo em US$ 750 milhões, com retiradas líquidas de US$ 678 milhões do lado financeiro. Esses números contrastam com o relato de operadores de aumento de entrada de recursos de investidores não residentes para ativos domésticos.
O economista Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, destaca que a apreciação do real entre os dias 3 e 10 de abril – período de fluxo negativo – esteve alinhada ao comportamento global do dólar, com o DXY recuando de 100,03 pontos para 98,65 pontos. “O peso mexicano e o rand sul-africano, moedas pares, apreciaram um pouco mais com o real. Em outras palavras, a apreciação do real foi alinhada com a trajetória de outras moedas emergentes”.
Possibilidade de acordo ainda sustenta otimismo entre investidores
A possibilidade de um acordo tem sustentado o otimismo dos investidores nos últimos dias. Na terça, o câmbio encerrou com leve queda de 0,06%, a R$ 4,9938 – novamente no menor valor de fechamento desde 27 de março de 2024.
O movimento, porém, tende a perder força diante da ausência de novos acenos em relação a um acordo definitivo de paz. “Os investidores seguem otimistas com a possibilidade de uma solução diplomática entre Estados Unidos e Irã, o que poderia encerrar o conflito entre os países e permitir a reabertura do Estreito de Ormuz. No entanto, ainda há muitas incertezas, e nada está garantido nesse sentido”, diz Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.
Em paralelo, o mercado avalia os efeitos da guerra na economia. Nos Estados Unidos, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou que um conflito prolongado reduziria as chances de corte de juros nos Estados Unidos ainda este ano. “A tendência é de maior pressão inflacionária, impulsionada pelo aumento dos custos de energia — como petróleo, combustíveis e eletricidade, especialmente em países dependentes de combustíveis fósseis”, acrescentou Mattos.
O Livro Bege do Federal Reserve, divulgado na tarde de hoje, também entrou no radar dos investidores. O documento, que reúne as atuais condições econômicas em cada um dos 12 distritos do Fed nos EUA, mostrou que a atividade econômica do país teve aumento em “ritmo leve a moderado” em oito de doze distritos americanos.
De acordo com o relatório, a atividade manufatureira subiu “leve ou moderadamente” na maioria dos distritos. Em meio à guerra no Oriente Médio, os custos de energia e combustível subiram “acentuadamente” em todos os distritos. Com isso, houve pressão de custos de insumos de forma generalizada.
No Brasil, os investidores acompanham os dados de vendas no varejo, a pesquisa Genial/Quaest sobre intenção de voto e avaliação do governo, além de uma reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o anúncio de medidas econômicas voltadas à sustentação do crescimento no setor habitacional.
Com informações do Broadcast