Após uma sucessão de 11 dias em alta, as perdas desta quarta-feira não foram maiores porque algumas ações de peso no índice conseguiram escapar à correção, notadamente Vale (VALE3 +0,16%) e Itaú (ITUB4 +1,10%) e, em menor grau, Gerdau (GGBR4 +0,93%) e Bradesco PN (BBDC4, +0,10%). Com o petróleo em leve alta no fim da sessão em Londres e Nova York, Petrobras fechou em baixa de 1,94% na ON e de 2,07% na PN, tendo se mantido no campo negativo ao longo do dia. No setor financeiro, o de maior peso no Ibovespa, destaque para queda de 3,86% em Banco do Brasil (BBSA3).
Nesse cenário de indefinição geopolítica, o dólar perdeu força no exterior. Após rondar a estabilidade ao longo da tarde, o dólar à vista encerrou a sessão desta quarta-feira, 15, cotado a R$ 4,9922 (-0,03%). Na ausência de sinais concretos de avanços na tentativa de acordo sobre o conflito no Oriente Médio, houve apetite bem limitado por divisas emergentes.
Com o recuo de hoje, o dólar emendou seis pregões consecutivos de queda em relação ao real, voltando a níveis vistos no fim de março de 2024. A moeda acumula baixa de 3,60% em abril.
Em Nova York, os índices das bolsas encerraram com sinais distintos e altas moderadas, à espera de confirmação sobre a retomada das conversas entre Washington e Teerã. O S&P e o Nasdaq renovaram recordes intradiários e de fechamento. O impulso para Wall Street veio da redução da aposta em estouro da suposta bolha de inteligência artificial. A aposta em estouro caiu para 17% na plataforma de previsões Polymarket.
O Dow Jones encerrou em baixa de 0,15%, aos 48.463,72 pontos. O S&P 500 subiu 0,8%, aos 7.022,95 pontos, derrubando o recorde anterior de 6.978,60 de 27 de janeiro. Na máxima intradiária, o índice foi aos 7.026,24 pontos. O Nasdaq ganhou 1,59%, aos 24.016,02 pontos. No topo, o índice atingiu nível intradiário de 24.026,56 pontos.
Sem novidades sobre a guerra, o petróleo fechou estável. O WTI para maio negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex) encerrou com leve alta de 0,01%, a US$ 91,29 o barril. Já o Brent para junho, negociado na Intercontinental Exchange (ICE), avançou 0,15% (US$ 0,14), a US$ 94,93 o barril.
“Com a trégua anunciada na semana passada, houve certo alivio nas cotações do petróleo, hoje a cerca de US$ 95 no Brent, a referência global, acarretando uma desvalorização do dólar perante a cesta de moedas de referência, e levando também a moeda brasileira a uma apreciação, hoje ainda a R$ 4,99, com pequeno ajuste na sessão, de -0,03%”, observa João Oliveira, head da mesa de operações do Banco Moneycorp. Ele acrescenta que tal movimento adiciona fluxo de capital estrangeiro na Bolsa, tendo em vista também os juros reais no Brasil, ainda na casa de 9% ao ano, o que também contribui para a valorização do real.
O pregão repercutiu ainda uma agenda carregada tanto no Brasil quanto no cenário internacional, com destaque para o Livro Bege do Federal Reserve, falas de dirigentes de importantes bancos centrais durante as reuniões de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Washington. Participam desses eventos nomes como Christine Lagarde, do Banco Central Europeu (BCE), Andrew Bailey, do Banco da Inglaterra, e Nilton David, diretor de Política Monetária do Banco Central do Brasil.
O Livro Bege do Federal Reserve (Fed) de março, publicado nesta quarta-feira, apontou que a atividade econômica aumentou de forma leve a moderada na maioria dos distritos dos EUA, mas as regiões em que a economia ficou estável ou encolheu passaram de cinco para dois, em relação ao relatório de março. “De modo geral, a atividade econômica aumentou em ritmo leve a modesto em oito dos doze distritos do Federal Reserve, enquanto dois distritos relataram pouca mudança e dois apontaram quedas leves a moderadas”, diz o documento.
Por aqui, os investidores acompanham os dados de vendas no varejo, a pesquisa Genial/Quaest sobre intenção de voto e avaliação do governo, além de uma reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o anúncio de medidas econômicas voltadas à sustentação do crescimento no setor habitacional.
Bolsas internacionais: cautela predomina
No cenário internacional, os mercados fecharam com cautela. O petróleo teve leve alta, enquanto as Bolsas mostraram sinais opostos, à espera de uma segunda rodada de negociações entre Estados Unidos e Irã, prevista para ocorrer no Paquistão ainda nesta semana.
Ao mesmo tempo, há informações de que os EUA enviarão, nos próximos dias, milhares de soldados ao Oriente Médio, aumentando a pressão sobre Teerã para a assinatura de um acordo que encerre o conflito. O presidente americano, Donald Trump, afirmou recentemente que os preços da gasolina estarão muito menores até as eleições de meio de mandato.
Já o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, alertou que um eventual choque na oferta de petróleo não será resolvido apenas com a reabertura do Estreito de Ormuz.
Em paralelo, o presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou que um conflito prolongado reduziria as chances de corte de juros nos Estados Unidos ainda este ano. Além disso, o governo Trump deve começar a aceitar, a partir de 20 de abril, pedidos de reembolso de tarifas arrecadadas, que somam cerca de US$ 127 bilhões.
As Bolsas da Europa fecharam majoritariamente em baixa nesta quarta-feira (15), pressionadas sobretudo pelo tombo do setor de luxo, que penalizou o francês CAC 40, após balanços fracos e ainda sob cautela em torno da guerra entre EUA e Irã. A perspectiva de retomada de negociações ajudou a limitar perdas em alguns momentos, em meio à oscilação do petróleo, mas não foi suficiente para sustentar ganhos.
Em Londres, o FTSE 100 fechou em queda de 0,47%, a 10.559,58 pontos. Em Frankfurt, o DAX subiu 0,18%, a 24.087,42 pontos. Em Paris, o CAC 40 perdeu 0,64%, a 8.274,57 pontos. Em Milão, o FTSE MIB recuou 0,04%, a 48.155,82 pontos. Em Madri, o Ibex 35 caiu 0,55%, a 18.185,80 pontos. Em Lisboa, o PSI 20 perdeu 0,18%, a 9.345,36 pontos. As cotações são preliminares.
O que influenciou o Ibovespa hoje
No Brasil, o menor apetite ao risco no exterior influenciou os ativos locais. O mercado também monitorou os dados de vendas no varejo de fevereiro, especialmente após a pesquisa de serviços vir abaixo do esperado. A expectativa é de avanço tanto no conceito restrito quanto no ampliado, o que poderia limitar as apostas de cortes de juros já em abril, atualmente projetados em 25 pontos-base.
Luise Coutinho, head de produtos e alocação de HCI Advisors, destaca um fator da agenda doméstica, pela manhã, que contribui para a percepção de que os juros têm espaço ainda limitado para uma queda mais vigorosa no País, o que afeta diretamente a demanda do investidor por ativos de renda variável – mas, por outro lado, mantém o apetite estrangeiro vivo, parte dele canalizado para a Bolsa, em razão do carry trade favorável a alocações no Brasil como opção entre os emergentes. Ela enfatiza a forte leitura do IGP-10 em abril, em alta de 2,94%, após uma deflação de 0,24% em março. “O grande vilão foi o IPA (Índice de Preços ao Produtor, um dos componentes do IGP-10), impulsionado pelas matérias-primas brutas, o que sinaliza pressões inflacionárias no varejo e reforça a perspectiva de juros altos por mais tempo” no País, diz Luise.
No campo político, o governo enviou ao Congresso um projeto de lei que propõe o fim da escala de trabalho 6×1, em regime de urgência constitucional, cuja íntegra deve ser divulgada hoje. Segundo o presidente Lula, a proposta “devolve tempo aos trabalhadores e trabalhadoras”. Já o presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que cabe à Casa decidir o melhor momento para analisar o texto.
Os investidores digeriram ainda a pesquisa Genial/Quaest, mostrando que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ultrapassou pela primeira vez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e lidera as intenções de voto no segundo turno da disputa presidencial.
Fonte: Broadcast, Dow Jones Newswires e FactSet