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Educação Financeira

Como gastar menos e se planejar para a vida pós carnaval; veja o que dizem os especialistas

Com gastos concentrados, preços acima da inflação e risco no uso do crédito, especialistas defendem planejamento para evitar aperto financeiro após o feriado

Por Isabela Ortiz

16/02/2026 | 5:30 Atualização: 18/02/2026 | 8:15

Folia, viagens e encontros elevam os gastos no carnaval e exigem atenção redobrada ao orçamento. (Foto: Adobe Stock)
Folia, viagens e encontros elevam os gastos no carnaval e exigem atenção redobrada ao orçamento. (Foto: Adobe Stock)

O Carnaval começa oficialmente entre os dias 14 e 17 de fevereiro, de sábado a terça-feira, e promete movimentar não só as ruas e os blocos, mas também o orçamento dos brasileiros. Em meio a festas, viagens, encontros com amigos e família, o desafio é curtir a folia sem transformar alguns dias de diversão em meses de aperto financeiro.

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Não por acaso, o período coincide com um dos momentos mais pressionados do calendário financeiro, quando se acumulam despesas como Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), material escolar, matrículas e reajustes de contratos. Uma pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, realizada em 2025, mostra que 77% dos brasileiros percebem aumento dos gastos durante o carnaval e que mais da metade já se endividou em função de despesas sazonais do verão. Nesse contexto, especialistas reforçam que planejamento e definição de limites são tão importantes quanto escolher a fantasia.

Para a planejadora financeira Clay Gonçalves, CFP pela Planejar, o principal erro é deixar as decisões financeiras para o calor do momento.

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“Para evitar surpresas com a fatura do cartão de crédito, o mais importante é definir as regras de gastos antes dos dias de festa. Não espere consciência com as finanças: nestas comemorações as pessoas saem do estado de alerta do dia a dia, pois estão em situações de relaxamento”, afirma. Segundo ela, combinar o jogo antes, consigo mesmo ou com a família, é essencial, mas não basta.

“É necessário planejar com folga e criar mecanismos que garantam o cumprimento dos limites”, orienta.

Entre essas estratégias, Gonçalves sugere trocar o cartão de crédito pelo dinheiro em espécie. A ideia é simples: definir um montante total para o carnaval, dividir esse valor pelos dias de folia e levar apenas a quantia destinada a cada dia.

“Levar dinheiro em espécie garante que você utilizará o orçamento predefinido e evita os recorrentes golpes com cartão que ocorrem nesse período”, explica. Para quem optar por essa alternativa, ela recomenda cuidados extras, como o uso de doleiras, além de bloquear pagamentos por aproximação e priorizar o uso de senha, o que aumenta a atenção no momento da compra.

Os riscos não se limitam aos excessos individuais. Em ambientes de aglomeração, golpes e fraudes se tornam mais comuns. Por isso, outra recomendação é de combinar previamente, em grupos de amigos ou família, quem será o “pagador do dia”. “Essa pessoa deve ficar mais atenta, quase como o motorista da rodada”, diz Gonçalves. Já no caso de viagens em família, a orientação é de pesquisar preços, combinar previamente boa parte do roteiro e reservar uma “gordurinha” no planejamento para imprevistos e escolhas fora do script.

Se não houve planejamento prévio ou recursos destinados à folia, a especialista alerta para o perigo do famoso “já que”. “Evitar o descontrole passa por procurar uma programação mais enxuta e até diminuir o limite do cartão de crédito. Outra estratégia é retirar o limite da conta corrente, já que esse é um crédito caro”, afirma.

O carnaval nunca foi tão caro

O alerta dos planejadores ganha ainda mais peso quando se observa o comportamento dos preços. Um estudo da Rico mostra que a chamada “cesta carnavalesca”, composta por produtos e serviços típicos do período, acumulou alta de 79,07% em 10 anos, bem acima da variação de 64,77% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no mesmo intervalo.

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“De maneira simplificada, isso significa que os principais itens consumidos durante o carnaval subiram perto de 14% a mais do que a inflação média do país nos últimos 10 anos”, explica Maria Giulia Figueiredo, analista de research da Rico e responsável pelo levantamento.

O estudo analisou gastos como bebidas, maquiagem, bijuterias, serviços de beleza e transporte. Mesmo em horizontes mais curtos, a pressão permanece: em seis anos, a cesta carnavalesca subiu 48,97%, contra 39,15% do IPCA.

“Ou seja, a folia tem encarecido acima da inflação nos últimos anos”, destaca Figueiredo.

Os números mostram que o impacto no bolso vem da soma de vários reajustes concentrados no período. Bebidas alcoólicas estão entre os principais vilões. Nos últimos 10 anos, a cerveja acumulou alta de 58,18%, enquanto outras bebidas alcoólicas subiram 80,76%. Segundo o estudo, o encarecimento de insumos como malte e alumínio, além da valorização do dólar, ajudou a pressionar os preços. Itens ligados ao visual também pesam: bijuterias subiram 61,76% em 10 anos, e artigos de maquiagem, 35,16%, refletindo custos maiores de produção e insumos importados.

Serviços e viagens completam o cenário. Cabeleireiro e barbeiro tiveram inflação acumulada de 42,62% em seis anos, enquanto passagens aéreas subiram 74,23% em 10 anos. “Fatores como demanda concentrada, preço dos combustíveis, câmbio e ajustes na oferta explicam essas variações”, aponta o levantamento. Para a analista, para quem quer curtir a folia sem comprometer o orçamento, “vale a pena planejar os gastos com antecedência, buscar promoções e considerar alternativas mais econômicas.”

Cuidado com o crédito!

Além da pressão dos preços, o uso do crédito exige atenção redobrada. Para Ivan Vianna, planejador financeiro CFP pela Planejar, o problema costuma aparecer depois da Quarta-Feira de Cinzas. “O ano só começa depois do carnaval. E as dívidas dão as caras depois, também”, afirma.

Ele lembra que viajar, sair para comer e reunir amigos faz parte do prazer do feriado, mas o desequilíbrio vem quando a fatura chega. Entre as estratégias que fazem diferença estão definir um teto de gastos antes mesmo de escolher os programas, pagar a fatura integral do cartão sempre que possível e evitar parcelamentos aparentemente inofensivos.

“Os juros do rotativo estão entre os mais altos do mercado e transformam um feriado barato em um problema financeiro duradouro”, alerta.

Vianna também recomenda manter controle em tempo real, anotando gastos no celular ou usando o aplicativo do banco, além de desconfiar de promoções por impulso. Reservar parte do limite para emergências e priorizar programas de baixo custo, como passeios ao ar livre, blocos gratuitos e refeições divididas com amigos, ajuda a reduzir a conta sem abrir mão do lazer.

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Na mesma linha, a educadora financeira Daiane Alves, da Neon, reforça que o risco maior não está no gasto pontual, mas na falta de controle. “O carnaval é um período em que as pessoas tendem a flexibilizar mais o orçamento. O problema é quando isso acontece sem planejamento, porque o impacto não aparece só em fevereiro, mas se estende pelos meses seguintes, muitas vezes na forma de dívidas“, diz. Segundo ela, um erro comum é tratar o limite do cartão como renda disponível. “Quando o limite vira complemento do salário, a pessoa está comprometendo um dinheiro que ainda não recebeu”, explica.

Alves destaca que organização não significa abrir mão da diversão. Planejar é escolher como e quanto gastar, buscando alternativas compatíveis com a realidade financeira.

Folia e responsabilidade podem, e devem, andar juntas. Com limites definidos, planejamento e escolhas conscientes, dá para curtir o carnaval agora sem pagar a conta por muitos meses depois.

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