Esses fatores indicam a capacidade de geração de caixa e se as companhias terão fôlego para remunerar acionistas no curto prazo ou se o potencial de dividendos mais robustos ficará para o longo prazo. O E-Investidor ouviu analistas e traz as perspectivas a seguir.
Na transmissão
Isa Energia (ISAE4)
As transmissoras de energia têm lugar cativo entre investidores por oferecerem receitas previsíveis no longo prazo. O modelo envolve transportar energia do ponto A ao ponto B mediante remuneração fixa, em contratos que costumam durar 30 anos. Historicamente vistas como vacas leiteiras de dividendos, hoje enfrentam questionamentos sobre endividamento e o volume de investimentos à frente.
Há analistas que avaliam que as ações do segmento estão caras, o que reduz o potencial de dividend yield (retorno em dividendos) para 2026.
Entre os nomes do setor, a Isa Energia se destaca por fundamentos mais sólidos, ainda que com retorno em dividendos menor. A companhia tem meta de distribuir 75% do lucro regulatório ao ano e não sinalizou mudança nessa política.
Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, aponta como foco no balanço do 4º trimestre o avanço da alavancagem, já indicado pela gestão e que pode superar 4 vezes dívida líquida sobre ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). “Contudo, um aumento de endividamento muito proeminente poderia frustrar o investidor”, comenta.
Apesar da tendência de alta da dívida, Oliveira ressalta a disciplina financeira da companhia, que busca equilibrar investimentos para preservar a receita a partir de 2028 com a remuneração ao acionista. “Como a Isa Energia tem uma política de remuneração clara, o endividamento não vai obrigatoriamente reduzir os proventos da empresa”, avalia.
Do lado positivo, a empresa pode manter indicadores de eficiência, como disponibilidade de linhas de transmissão e controle de custos.
Também está no radar o processo histórico do Sefaz-SP, ligado à Lei 4.819/58 sobre aposentadorias de funcionários admitidos até 1974. Antes o Estado arcava com 100% do benefício, hoje a Isa Energia paga 30%, com custo anual de R$ 200 milhões. O valor a receber somava R$ 2,7 bilhões, ou R$ 4,10 por ação, até o 3º trimestre de 2025.
Se resolvido, a companhia poderia reduzir gastos anuais em R$ 200 milhões, gerando até R$ 1,33 bilhão, ou R$ 2 por ação, em economias. Somados valor a receber e redução de custos, o impacto potencial chega a cerca de R$ 4 bilhões, ou R$ 6 por ação, ainda não precificados.
Para Oliveira, esses recursos fortaleceriam a estrutura financeira, com redução de alavancagem ou reforço de investimentos. Gabriel Duarte, analista da Ticker Research, afirma que uma surpresa positiva seria melhora no resultado operacional e financeiro com a energização de projetos greenfield, que passam a compor a receita.
A companhia trabalha para recompor a receita com o fim da RBSE, indenização que se encerra em 2028 e representa cerca de 33% da receita da transmissora, por meio de projetos greenfield, reforços e melhorias.
Mesmo com resiliência, os analistas divergem sobre o momento de entrada. Para Duarte, a ação segue adequada para gerar renda passiva, embora o capex (investimento) exija atenção. “Mas é uma empresa madura com foco em dividendos”, pontua.
Oliveira avalia que o tempo de compra passou e que o preço reduz o retorno em proventos, com dividend yield dificilmente acima de 4,90% neste ano. Já Duarte é mais otimista e espera dividendos de até 7%. “Tem grandes investidores que quando a Isa Energia se aproxima dos R$ 30 vendem o papel para realizar lucros e quando a ação volta próxima dos R$ 20 recompram novamente. Enquanto isso não acontece, ganham proventos”, comenta. O analista considera a estratégia arriscada.
Taesa (TAEE11)
Mesmo com endividamento menos confortável, a Taesa (TAEE11) ainda deve entregar solidez ao investidor e dividend yield mais elevado. Apesar do preço esticado, a companhia pode oferecer retorno em proventos de até 9% em 2026.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da MSX Invest, afirma que a empresa segue atrativa para o investidor conservador que busca de renda passiva. “É uma empresa mais cara, negociando próxima a 10 vezes dívida líquida o seu ebitda, não tem muito potencial de valorização da ação, mas o dividendo acaba compensando”, destaca.
Saravalle projeta ebitda de R$ 452 milhões no 4º trimestre de 2025 e lucro líquido regulatório de R$ 217 milhões, abaixo do registrado no 3ºTRI25.
A principal preocupação continua sendo a alavancagem, em patamar elevado e com tendência de alta. Segundo Oliveira, para transmissoras o ideal é não ultrapassar 4 vezes o ebitda, mas a Taesa passou boa parte de 2025 acima desse nível. “Isso poderia assustar o mercado, porque dá a impressão que a gestão da Taesa não cumpre com o prometido”, diz.
Por outro lado, a companhia precisa investir para renovar concessões que vencem a partir de 2030 e representam entre 30% e 50% da Receita Anual Permitida, o que tende a elevar a alavancagem.
Nas empresas híbridas
AXIA (AXIA3)
Entre as empresas híbridas do setor elétrico, que atuam em geração, transmissão, distribuição e comercialização, a Axia Energia (AXIA3), ex-Eletrobras, deve se destacar nesta temporada de balanços, segundo analistas.
O sócio do GuiaInvest, Sergio Biz, afirma que a companhia tende a repetir o desempenho do 3º trimestre de 2025, quando o ebitda ajustado ficou 14% acima do consenso, impulsionado por maior volume e melhor lucro bruto por MWh na geração.
Biz também projeta forte geração de caixa, apoiada por ganhos com trading e modulação de energia, além dos efeitos da reestruturação pós-privatização, com redução de custos e mais eficiência. “Um trimestre com ebitda acima das expectativas pode surpreender positivamente, reforçando a tese de que a Axia consegue capturar de forma recorrente oportunidades de preço de energia no mercado”, destaca.
Outra possível sinalização positiva seria maior clareza sobre a política de proventos. A companhia chegou a estudar pagamentos trimestrais, mas não houve novidades. Segundo Biz, há duas camadas de dividendos: o fluxo regular referente ao exercício de 2026 e os resgates de ações bonificadas PNC ligados à distribuição antecipada de 2025, com pagamentos previstos para os próximos anos.
Para 2026, Biz estima dividendos totais na Axia de R$ 11,4 bilhões, com dividend yield base de 7,5%. Outros analistas projetam dividendos de até 8,2%. “Mesmo com investimentos projetados para este ano da ordem de R$ 14 bilhões, o espaço para manter proventos relevantes segue amplo”, comenta. A alavancagem está em 2,1 vezes dívida líquida sobre ebitda até 3ºTRI25, abaixo do limite gerencial de 3 vezes. “A alavancagem pode caminhar para entre 3 e 4,25 vezes, mas ainda em um patamar confortável para dividendos”, diz.
Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, tem visão diferente e avalia que dividendos mais consistentes devem se consolidar a partir de 2027. “Por ora, o foco deve continuar na reprecificação e reorganização de ativos, além da desalavancagem gradual”, afirma.
Segundo Simão, a Axia deve seguir reposicionando o portfólio, com venda de ativos não estratégicos, foco 100% renovável e expansão em transmissão, o que amplia a receita. “Com planos de investimento relevantes até 2030, isso deve reduzir o potencial de dividendos da Axia no curto prazo, mas aumenta a previsibilidade de caixa no médio prazo”, destaca.
Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, espera receita impulsionada pelo preço spot de energia, já que a companhia está descontratada e tem maior exposição ao mercado livre do que ao regulado. “É um ponto positivo que vai trazer boas notícias, o preço spot deve ficar bem acima do que no último trimestre”, aponta.
Queiroz cita ainda os empréstimos compulsórios como possível surpresa positiva. A dívida caiu de R$ 26 bilhões para R$ 12 bilhões até dezembro. “Se tiver alguma negociação interessante, isso vai gerar um ajuste no balanço, traz melhorias, mas não tem impacto substancial no caixa. Provavelmente influencia no provisionamento”, observa.
Engie (EGIE3)
A Engie (EGIE3) pode ter novidade com a usina de Jirau, hoje na controladora francesa, ativo que elevaria a capacidade instalada em cerca de 10%, segundo Oliveira. “Provavelmente esse ativo passe a integrar o guarda-chuva da Engie Brasil, um valor ainda oculto para a ação, que confirmaria sua hegemonia como segunda maior geradora do país”, avalia.
A XP já estimou que a operação manteria a alavancagem praticamente estável e garantiria payout mínimo de 55% para dividendos.
A dívida líquida sobre ebitda está em 3,2 vezes até o 3ºTRI25, maior nível recente. “Se alavancagem ficar mais próxima de 4 vezes, seria uma surpresa negativa para a companhia”, diz Biz. Para ele, após investimentos intensos em 2024-2025, 2026 deve trazer maior equilíbrio entre dividendos e desalavancagem.
Quem vai desapontar
Quem pode desapontar é a Auren (AURE3). Analistas não esperam dividend yield acima de 4% em 2026. “Deve continuar com dívida estratosférica, ainda absorvendo a incorporação da AES Brasil e sem condições de trazer uma remuneração ao acionista no momento”, diz Oliveira.