GPA (PCAR3) no 4T25: XP vê avanço em margens, mas Safra alerta para queima de caixa e risco financeiro
Para os especialistas, verdadeiro teste da companhia não está apenas nas vendas ou na margem bruta; confira a análise do balanço e impacto para as ações
Grupo Pão de Açúcar apresentou avanço de margens no trimestre, mas segue pressionado por prejuízo elevado e geração de caixa negativa. (Foto: Adobe Stock)
Entre margens em recuperação e caixa ainda sob pressão, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) entregou um balanço do quarto trimestre de 2025 (4T25) que dividiu as análises do mercado: enquanto a XP Investimentos vê avanços operacionais, o Safra reforça a preocupação com a queima de caixa – ambas as casas reforçam recomendação neutra para a ação PCAR3.
Além disso, as corretoras apontam que o verdadeiro teste da companhia não está apenas nas vendas ou na margem bruta, mas na capacidade de reequilibrar a estrutura de capital e dissipar dúvidas sobre sua continuidade operacional.
Na leitura da XP Investimentos, os números vieram “tímidos”, com pressão na receita, mas alguma evolução de margens. A casa tem recomendação neutra para a ação PCAR3, com preço-alvo de R$ 4,00. Veja aqui o balanço completo do GPA.
A receita líquida consolidada caiu 2% na comparação anual, refletindo o fechamento de lojas e a descontinuação do formato Aliados (operação GPA voltada à venda direta para pequenos varejistas), cujas vendas recuaram 62% no 4T25. Desconsiderando esse efeito, as vendas nas mesmas lojas (SSS, ou same-store sales, mede o desempenho apenas das lojas abertas há pelo menos 12 meses) cresceram 3%, mas desaceleraram na comparação trimestral, especialmente nas bandeiras Pão de Açúcar e Extra Mercado. A operação de proximidade (Minuto Pão de Açúcar) mostrou leve melhora.
Apesar da fraqueza da demanda e da inflação de alimentos mais contida, a margem bruta avançou 50 pontos-base na comparação anual, impulsionada por melhores negociações comerciais, menor ruptura de estoques e receitas de retail media (venda de espaços publicitários nos canais da própria rede).
A XP também destacou o controle de despesas gerais e administrativas (G&A), que caíram 21% ano a ano, sustentando expansão de 40 pontos-base na margem do lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado.
Ainda assim, o prejuízo líquido das operações continuadas somou R$ 523 milhões – ou R$ 175 milhões desconsiderando efeitos não recorrentes, como o impairment (reconhecimento de perda no valor de um ativo) de R$ 527 milhões relacionado à venda do fundo de investimento em créditos (FIC) do GPA – e o fluxo de caixa livre permaneceu negativo, pressionado por despesas financeiras elevadas.
O calcanhar de Aquiles do GPA: a estrutura do capital
O ponto mais sensível, na visão da XP, está na estrutura de capital. A companhia incluiu em suas demonstrações financeiras uma nota sobre “risco de continuidade operacional”, alertando para a necessidade de monitoramento de liquidez. O GPA encerrou o período com capital de girolíquido negativo em R$ 1,2 bilhão, influenciando por R$ 1,7 bilhão em debêntures com vencimento em 2026. “A nota adiciona incerteza relevante quanto à continuidade operacional da companhia”, afirma a XP.
Apesar disso, a casa reconhece avanços. A penetração do e-commerceatingiu 12,6% das vendas; as marcas próprias chegaram a 21,4% do total (+80 pontos-base ano a ano) e a companhia ganhou participação de mercado nos segmentos premium e de proximidade.
O descontentamento do Safra
O Banco Safra, por sua vez, classificou o papel como de “desempenho inferior ao mercado“, com o mesmo preço-alvo da XP. Para o banco, os resultados operacionais vieram em linha com as expectativas, mas a geração de caixa segue sendo o principal ponto de atenção.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado desconsiderando os efeitos contábeis na norma internacional de arrendamentos (ex-IFRS) somou R$ 280 milhões, com margem de 5,5%, estável na comparação anual. O Safra observa que o ganho de margem bruta foi neutralizado pelo crescimento fraco das vendas. O prejuízo líquido das operações continuadas ficou em R$ 175 milhões, menor que o registrado um ano antes, em parte devido a créditos fiscais de R$ 196 milhões.
Ainda assim, o banco reforça que o consumo de caixa continua elevado.
“Excluindo o impacto da venda de ativos e do recente aumento de capital, a queima de caixa teria sido de R$ 786 milhões nos últimos doze meses, o que é nossa principal preocupação em relação ao caso”, afirma o Safra.
Considerando esses eventos, a variação negativa da dívida líquida foi de R$ 686 milhões período.
Um resumo para o investidor com pressa: qual a recomendação final?
“O prejuízo elevado e a situação financeira exigem atenção. O varejo segue pressionado por margens mais apertadas, consumidor mais seletivo e concorrência forte”, explica Marcus Novais, CFP e sócio-fundador da Private Investimentos. Até que a empresa mostre sinais mais claros de recuperação operacional e melhoras consistente na geração de caixa, o especialista acredita que o mercado deve continuar cauteloso.
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As outras duas casas reconhecem avanços operacionais, especialmente na margem bruta e na disciplina de custos, mas divergem no tom da recomendação. A XP adota postura neutra, avaliando que o potencial de valorização está limitado diante dos riscos de execução da reestruturação e do ambiente competitivo mais acirrado, com redes regionais e especializadas ganhando espaço.
Já o Safra adota visão mais cautelosa, entendendo que a estrutura de capital ainda desequilibrada e a persistente queima de caixa justificam recomendação abaixo da média do mercado.
Para o investidor, a recomendação após o balanço do 4T25 é de que o foco passa a ser menos o desempenho operacional pontual e mais a capacidade do GPA (PCAR3) de reequilibrar sua estrutura financeira, alongar dívidas e voltar a gerar caixa de forma consistente nos próximos trimestres.