À medida que os negócios entram nesta lista, a Bram vai reduzindo a posição de seus fundos. Por isso, neste cenário, Rodela acredita que o investidor que gosta da classe de ativos deve preferir uma gestão profissional. Até mesmo a asset está tendo um trabalho maior para ficar de fora de problemas, como inadimplência ou atraso de pagamentos, que vêm acontecendo com grandes empresas pelo menos nos últimos três anos no País.
Além de ter aumentado sua equipe de analistas de crédito privado, que soma 23 pessoas, a Bram vem preferindo investir em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) a optar por títulos com baixa qualidade de crédito em seus fundos dedicados a eles. “Se está difícil para grandes empresas, imagina para as de menor porte, mais comuns neste segmento”, conta a executiva. A Bram também está reciclando a carteira de empresas high grade (ativos de menor risco, mas com baixo retorno) ao buscar originar novas operações.
Na visão da executiva, essa situação deve continuar enquanto a taxa básica de juros estiver em um patamar alto. “Prevemos que a Selic encerre o ano a 12%. Quanto mais tempo os juros ficarem altos, mais estrangulada a empresa fica”.
Rodela é uma exceção na indústria de fundos de investimento, que tem apenas 8% de mulheres do total de profissionais certificados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). São 640 mulheres com certificação CGA, contra mais de 7,3 mil homens. É a última fronteira na qual as mulheres devem avançar no mercado financeiro, já que nos níveis de especialista já somam mais de 40% dos profissionais.
Veja abaixo a entrevista completa do E-Investidor com a CIO da Bram, Ana Rodela.
E-Investidor – O crédito privado vem exigindo maior cautela, dado problemas com dívidas vistos em empresas de alta qualidade, como CSN (CSNA3) e Raízen (RAIZ4). A situação vem piorando?
Ana Rodela – Estamos há três anos acompanhando eventos relevantes no mercado de títulos com baixo risco de crédito (high grade). Havia um consenso de que ‘nunca acontecia nada’ neste mercado: nem inadimplência (default) nem adiamento de pagamento, que não deixa de ser uma forma de default. Não teve nada do tamanho de uma Americanas (AMER3), que provocou uma grande crise no mercado em 2023, mas os casos, somados, representam volumes importantes.
Ajudou a não ter um problema maior o fato de que a indústria de crédito privado cresceu tanto que por mais que essas empresas têm um montante de dívida relevante no mercado o impacto não foi tão relevante.
Portanto, na nossa visão, não piorou: já são três anos nos quais nossos fundos tiveram um desempenho de destaque porque fomos mais seletivos.
Como conseguiram driblar os casos de atraso de pagamento e default?
Temos um portfólio bastante sensível à qualidade de crédito. Quando os casos eclodiram, já não tínhamos títulos dos casos mais recentes no setor de siderurgia e energia, bem como ao setor de resíduos ambientais.
Nosso acompanhamento de crédito é muito próximo. O fato de termos uma equipe grande, que aumentamos recentemente, tem ajudado bastante. Temos analistas de crédito divididos por setor: são 23 pessoas.
O que aconteceu para as empresas ficarem estranguladas dessa forma?
Em uma virada de ciclo de juros, a empresa pode ser pega no contrapé caso esteja realizando um investimento contando com um determinado valor de sua dívida. Especialmente se a Selic sobe rápido, que foi o que aconteceu.
Mas não são apenas os juros altos que geram problemas. Ele só complica mais um cenário que já existia.
Houve casos nos quais havia falta de governança e outros nos quais a empresa realiza um investimento alto que não dá o retorno esperado. E tem ainda empresas que já estão endividadas há bastante tempo. Geralmente, ela publica balanços bons, emitem dívida e muitos analistas esquecem a forma como são administradas, que é uma questão de tempo até que tenham um balanço ruim novamente.
Como se previnem contra problemas no crédito privado?
Fazemos principalmente uma análise fundamentalista básica. Olhamos no detalhe se a empresa está gerando caixa ou não. Nos livramos de problemas recentes porque a companhia não gerava caixa há mais de seis meses e não tinha perspectivas de gerar. Então, resolvemos zerar a nossa posição.
Temos uma lista de empresas que percebemos que o resultado não está de acordo com o que esperávamos, seja por questões macroeconômicas ou porque estão em um momento delicado. À medida que ela entra nesta lista, vamos reduzindo a nossa posição. Afinal, não posso estar confortável com uma posição bilionária em um negócio que piorou. A lista está aumentando: o caixa das empresas está ficando apertado.
Estamos em um mercado no qual todo mundo está captando muito. Então, me custa reduzir exposição a essas empresas. Mas temos essa disciplina e prefiro trabalhar mais para achar opções boas com taxa interessante, que não são necessariamente as que vêm ao mercado. Nós provocamos bancos e empresas a realizarem emissões: buscamos originar o crédito. Dessa forma, conseguimos reciclar e trazer diversidade à carteira.
Imagino que a cautela é ainda maior no mercado de títulos de baixa qualidade de crédito (high yield). Como estão driblando problemas neste segmento?
Temos fundos high yield no qual estamos optando por operações estruturadas e via FIDCs para fugir do risco de empresas menores. Se até para as grandes a situação está difícil, imagina para elas. Então, fazemos call mensais com originadores de FIDCs, pois são bem difíceis de acompanhar: não se trata apenas de puxar dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Mesmo diante de todos esses alertas, vale a pena continuar a apostar no crédito privado em 2026?
O crédito privado ainda é a classe que mais capta na Bram e no mercado. Enquanto o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) continuar alto, a classe de ativos vai continuar a ser destaque.
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã jogou um balde de água fria em perspectivas para inflação e juros. A gestora revisou suas posições?
Há a possibilidade de a guerra ser um fator inflacionário por conta de seu impacto na cadeia de petróleo e todos os derivados, o que traz uma incerteza adicional. O fechamento do estreito de Ormuz nunca tinha acontecido. Temos a percepção de que é uma situação que precisa ser resolvida em poucos dias.
O mercado estava com um cenário muito positivo para o Brasil e os EUA. Apontava que as taxas de juros iam cair e que ambas as economias não estavam em uma situação delicada. Afinal, a inflação estava razoavelmente contida, ainda que acima da meta, e a economia desacelerava, mas não drasticamente.
Mas de repente essa situação é gerada e não sabemos o quanto a guerra pode escalar e impacto que pode ter. Pegou todo mundo no contrapé. Estamos atentos e realizamos ajustes marginais em nossas posições relacionadas a commodities, que já vínhamos reduzindo um pouco. Passamos a ter um pouco mais de cautela.
Quais são as barreiras que impedem a mulher de ampliar sua participação na indústria de fundos?
Primeiro, é necessário ponderar a origem de muitas das gestoras de recursos do País. Muitas casas que cuidam especialmente de fundos multimercados e de renda fixa foram montadas por grupos de executivos que trabalham na Tesouraria de grandes bancos em uma época na qual esse ambiente ainda era muito masculino. Em áreas como crédito e renda variável, a presença de mulheres já é maior.
Além disso, existem hoje lideranças que vieram de um momento do mercado financeiro menos diverso e resistem a mudar, o que trava a evolução de gênero no segmento. Muitos têm a percepção de que a mulher não é tomadora de risco, o que seria algo que poderia interferir no seu desempenho à frente dos fundos. Eu mesma já ouvi isso de um chefe meu.
Outro fator que pesa bastante são as indicações, muito relevantes no segmento. São cargos matemáticos e muito técnicos. Dificilmente você consegue medir isso em uma entrevista. Então, depende de proximidade e confiança. Como homens tendem a se aproximar de outros homens, e são em maior número, as vagas acabam sendo preenchidas por homens.
Hoje, exijo que funcionários tragam currículos de mulheres para vagas abertas aqui e não apenas de homens. Pelo menos tem de ser proporcional ao número de mulheres no mercado. O que não pode é ser zero. Se não há essa provocação, a situação não muda.