Juros compostos vs ‘tigrinho’: educação financeira e bets disputam o futuro dos jovens brasileiros
Iniciativas para instruir as novas gerações em como lidar com dinheiro avançam nas escolas, mas enfrentam uma indústria que transforma risco em entretenimento e afeta renda, comportamento e saúde mental
Com R$ 240 bilhões movimentados em 2024, apostas online disputam espaço com educação financeira entre jovens no Brasil. (Imagem: carballo em Adobe Stock)
Uma disputa está em curso no Brasil e, há algum tempo, já não pode ser chamada de silenciosa. De um lado, a pedagogia paciente dos juros compostos, da disciplina e do tempo. De outro, as bets, com tigrinhos barulhentos e multicoloridos abocanhando, pouco a pouco, o orçamento das famílias. Entre a educação financeira e as apostas, a briga pela atenção de uma geração de jovens que pode definir o futuro deles – e de todo o País.
O avanço das betsfoge ao universo do comportamento. Ele reorganiza prioridades e altera a percepção de risco. O Banco Central (BC) monitora o fenômeno de perto. Em 2024, os brasileiros movimentaram cerca de R$ 240 bilhões em plataformas de apostas, com fluxos mensais entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões. No mesmo período, cerca de23 milhões de pessoas participaram desse mercado, segundo dados apresentados ao Senado.
As plataformas, por outro lado, sustentam que a maioria dos clientes aposta com fins recreativos e com valores baixos, embora reconheçam a necessidade de mecanismos de proteção do usuário. Além disso, alegam que problemas advém de sites clandestinos (veja outros argumentos do setor mais abaixo).
A disputa entre educação financeira e apostas não acontece em igualdade de condições. Iniciativas como a Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (OLITEF), do Tesouro Direto em parceria com a B3, tentam antecipar o contato dos jovens com conceitos como inflação, planejamento e risco. Já as bets operam com lógica de retenção, estímulos visuais constantes e promessa de recompensa imediata.
“Existe uma disputa muito clara pela atenção do jovem”, resume o professor Evandro Mello, CEO e fundador da Multiplicando Sonhos. “A aposta trabalha com o ganho imediato. A educação financeira trabalha com disciplina e longo prazo.”
Na prática, porém, os efeitos da educação financeira começam a aparecer cedo. Entre os participantes da olimpíada, não é raro ver mudanças concretas de comportamento. A estudante Helena Fiorentin, de 16 anos, de uma área rural de Pitanga (PR), conta que passou a enxergar o dinheiro de outra forma após a experiência. “A gente começa a entender que precisa guardar mais dinheiro e usar de forma mais consciente. Evitar gastar com coisas supérfluas e ter uma reserva para emergências”, diz.
Em casa, o aprendizado transbordou. A irmã, Eloísa Fiorentin, de 19 anos, afirma que as discussões sobre investimento se intensificaram após o contato com o tema. “A gente começou a falar mais sobre isso e até a discutir melhor as decisões financeiras da família.”
Embora muitas plataformas de jogo, como a lei exige, se apresentem como entretenimento, para uma parcela relevante dos usuários a aposta se fantasia de estratégia financeira. “Grande parte está buscando renda extra”, afirma Mello. “E muitas vezes com um dinheiro que já faz falta no fim do mês.”
O diagnóstico encontra reforço na leitura do economista Alexandre Bertoncello, PhD em Economia. Para ele, o impacto ultrapassa o indivíduo e atinge o tecido econômico. “As apostas reduzem a renda familiar porque substituem consumo essencial por um gasto de alto risco, normalmente com retorno negativo”, afirma. “É um mecanismo cruel de transferência de renda das famílias, principalmente as mais vulneráveis, para plataformas muito eficientes em capturar comportamento impulsivo.”
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 76% das famílias brasileiras convivem hoje com algum tipo de dívida.
O custo invisível
Aposta naturaliza retorno do acaso e mistifica prejuízos, preparando terreno para decisões ruins. “Eleacha que está investindo, mas não está”, diz Mello. “E pior, não entende de fato o que é ganhar e o que é perder.”
Segundo o estudo “O impacto das bets na educação superior”, realizado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula devido a gastos com apostas. Isso representa quase 1 milhão de pessoas fora do ensino superior. Esta reportagem do Estadão mostra um jovem de 27 anos que relatou ter abandonado seis faculdades e perdido o emprego em razão do vício em apostas online.
“Além de perder hoje, ela treina o cérebro para tomar decisões financeiras ruins no amanhã.” Afirma Bertoncello.
A resposta das bets
Com o avanço das apostas no debate público, o setor passou a reagir de forma mais estruturada às críticas.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) argumenta que parte relevante dos problemas associados ao jogo ocorre fora do ambiente regulado. Um estudo da LCA Consultoria Econômica aponta que plataformas clandestinas ainda respondem por cerca de 51% do mercado brasileiro, operando sem mecanismos de identificação ou controle.
Nesse contexto, a regulamentação recente é apresentada, pelo instituto, como um divisor. As casas autorizadas, identificadas pelo domínio “.bet.br”, são obrigadas a validar CPF, utilizar reconhecimento facial e oferecer ferramentas como limites de aposta e autoexclusão.
A aposta, sustenta o IBJR, deve ser entendida como entretenimento pago, não como fonte de renda.
Já a Associação Brasileira de Fantasy Sports (ABFS) avalia que o crescimento recente reflete, em grande medida, a migração de uma atividade antes dispersa e informal para um ambiente regulado. Com isso, o setor ganhou visibilidade, capacidade de monitoramento e exigência de identificação dos usuários, inclusive entre o público jovem adulto.
Segundo a leitura da entidade, o aumento do número de usuários não implica, necessariamente, maior incidência de comportamento compulsivo. A maioria dos apostadores, afirma a associação, utiliza as plataformas de forma recreativa e com valores baixos, ainda que reconheça a existência de grupos mais vulneráveis e a necessidade de mecanismos de proteção.
O outro lado do balcão
Educação financeira é chave para transformar planos em realidade. (Foto: Adobe Stock)
É nesse ambiente disputado que iniciativas como a OLITEF ganham tração. Em 2025, a olimpíada reuniu mais de 1,7 milhão de estudantes, um salto de 220% em relação ao ano anterior, e projeta alcançar 5 milhões de alunos nas próximas edições.
Segundo Felipe Paiva, diretor de relacionamentos da B3, o conteúdo precisava “ganhar aplicação prática”. A competição transforma conceitos abstratos em situações concretas e estimula engajamento de alunos, professores e diretores. As escolas premiadas, duas por Estado mais o Distrito Federal, recebem kits de tecnologia ou melhoria de infraestrutura avaliados em R$ 100 mil.
Paiva conta que o próprio prêmio acaba mobilizando melhorias e menciona uma escola que foi reformada e pintada novamente graças à visibilidade conquistada com a prova. “Você vê como algo aparentemente pequeno vai gerando impacto maior, influenciando a escola, a comunidade e até a cidade”, ele conclui.
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O projeto também preza pela continuidade. Muitos estudantes participam ano após ano, estabelecendo uma jornada progressiva de aprendizado financeiro. “Quem fez no sexto ano volta no sétimo, depois no oitavo”, explica Paiva.
Alunos que têm acesso a produtos financeiros como contas simuladas ou aplicações práticas em programas como o Pé-de-Meia passam a acompanhar rendimento, entender variações e correlacionar decisões a resultados concretos.
Além dos reflexos sociais e comunitários, em 2025, 10 mil estudantes receberam R$ 400 aplicados em títulos públicos do Tesouro Direto, na modalidade Tesouro Selic. No total, foram distribuídos R$ 4 milhões.
‘Alfabetização financeira reversa’ amplia alcance da educação
Os efeitos vão além da sala de aula. Em dois anos, a OLITEF saltou de 546 mil participantes para mais de 1,7 milhão, alcançando cerca de metade dos municípios brasileiros. A presença é majoritariamente pública — cerca de 90% das escolas inscritas —, o que indica capilaridade justamente onde o acesso à educação financeira historicamente foi mais limitado.
Nas escolas premiadas, os recursos de cerca de R$ 100 mil por unidade têm sido convertidos em laboratórios de informática, robótica e ciências, alterando a infraestrutura e ampliando o acesso dos alunos a tecnologias antes inexistentes.
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Há também um efeito menos visível, mas não menos relevante: a mudança de comportamento. Ao entrar em contato com conceitos como juros, inflação e planejamento, estudantes passam a influenciar decisões dentro de casa, em um processo que especialistas chamam de “alfabetização financeira reversa”, quando o conhecimento aprendido na escola reorganiza a dinâmica financeira da família.
Educação que muda o ritmo
Entre os participantes, histórias ajudam a traduzir esse impacto de forma mais tangível. É o caso de Luiz Felipe Martins da Silva, de 17 anos, estudante de Cruzeiro do Sul, no Acre. Ao descobrir que havia conquistado uma das melhores notas da OLITEF, a reação foi imediata, mas o significado foi além do resultado acadêmico. “Foi algo inexplicável. Uma felicidade muito grande. Eu estava passando por um momento difícil, tinha sido diagnosticado com depressão, e essa notícia acabou me ajudando muito no processo de recuperação”, conta.
A premiação trouxe não só reconhecimento, mas também experiências inéditas. Foi a primeira vez que Luiz saiu do seu Estado. “Vir para São Paulo foi algo completamente diferente. Outro ritmo, outra realidade. Isso abre a cabeça da gente”, diz.
Mais do que a viagem, o contato com uma estrutura que ele descreve como “um nível de vida que dá vontade de alcançar” funcionou como gatilho de ambição. “Dá aquele sentimento de que você quer chegar lá. Que, com esforço, é possível. A educação financeira também mostra esse caminho.”
Na prática, essa mudança já começou a aparecer. Luiz passou a aplicar conceitos aprendidos na olimpíada no próprio dia a dia. Ele conta que conseguiu investir em um novo teclado musical e já planeja a compra do próximo. “Tudo com organização”, ressalta.
O prêmio de R$ 400 em títulos públicos, oferecido a parte dos participantes, entra nessa lógica como primeiro passo concreto. “Quero investir esse dinheiro. Também tenho planos de dar aula de música, então penso em usar parte para estruturar isso. É um investimento que pode me dar retorno.”
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A experiência também trouxe um novo papel dentro da comunidade. “Já recebo mensagens de colegas dizendo que se inspiram em mim. Isso vira uma responsabilidade. Quero ser um exemplo positivo.”
Muito além da competição financeira, a disputa pela atenção dos jovens revela como as novas gerações compreendem o dinheiro. De um lado, a educação financeira constrói, de forma lenta e cumulativa, uma população capaz de avaliar riscos e valorizar o tempo antes de tomar decisões. De outro, as apostas avançam com tecnologia, influencers e estímulos psicológicos, moldando comportamento antes que o jovem perceba plenamente o que significa ganhar ou perder.