O movimento do dólar ao longo do mês foi ditado principalmente pelo cenário externo, com picos de tensão geopolítica e mudanças nas expectativas para os juros americanos. Foi esse pano de fundo que marcou a virada do câmbio em março, depois de encerrar fevereiro em queda de 2,16%.
No início do mês, o dólar ainda refletia o ambiente mais favorável ao real visto em fevereiro e chegou a testar a mínima de R$ 5,12. A inflexão veio na sequência, com a escalada do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos, que elevou a aversão ao risco e impulsionou a moeda americana.
O episódio mais dramático do mês aconteceu no começo de março, quando o dólar disparou quase 2% em um único dia, chegando a bater R$ 5,34 na máxima intradia.
O gatilho foi uma declaração de autoridades da Guarda Revolucionária Iraniana ameaçando bloquear navios no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. O petróleo ultrapassou a barreira dos US$ 100 o barril, e o mercado reagiu com aversão ao risco e migração para ativos mais seguros, com o dólar entre eles.
Segundo Ítalo Teles, especialista em investimentos e sócio-fundador do Grupo Nexco, o encarecimento da energia foi o elo que conectou o conflito à dinâmica cambial. “Como energia é um insumo básico para praticamente toda a economia, seu encarecimento tende a pressionar preços em diversos setores”, diz.
Isso, conforme ele, reforçou a percepção de que os juros nos Estados Unidos devem permanecer elevados por mais tempo. “E esse foi, possivelmente, o fator mais relevante: a comunicação do Federal Reserve sinalizando cautela em relação ao início de cortes de juros. Juros altos nos EUA tornam os investimentos no país mais atrativos, aumentando a demanda por dólar e pressionando moedas de países emergentes, como o real”, explica.
O movimento do dólar em março não foi exclusivo do Brasil. O Índice do Dólar (DXY), que mede o desempenho da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas globais, oscilou ao redor dos 100 pontos durante o mês, respondendo diretamente ao noticiário geopolítico e às sinalizações do Fed.
O Brasil segurou o tranco
Ainda que março tenha sido de alta do dólar, o real teve um desempenho relativamente melhor do que outras moedas de países emergentes, avaliam os especialistas. Um dos motivos foi a atuação do Banco Central, que interveio vendendo US$ 2 bilhões em operações de linha, mecanismo pelo qual o BC vende dólares com compromisso de recompra, para garantir liquidez e reduzir a volatilidade.
Outro elemento que segurou uma alta mais forte, segundo os analistas, foi o fluxo externo positivo para o Brasil. Com o petróleo em alta, o país, exportador relevante da commodity, se beneficiou de um saldo comercial mais favorável, o que trouxe mais dólares para o mercado interno.
Março também teve os chamados fatores técnicos, que afetam a cotação do dólar sem necessariamente refletir mudanças nos fundamentos econômicos. A disputa pela Ptax de fim de mês e as rolagens de contratos na Bolsa brasileira (B3) geraram oscilações pontuais ao longo do período. O mês também teve ruído político interno. O Brasil atravessou eventos institucionais e regionais relevantes em março – como a crise do Banco Master e a liquidação do Entrepay, Acqio e Octa, mas, sem crise fiscal ou ruptura institucional, o efeito sobre o câmbio acabou sendo limitado.
O que esperar do dólar em abril
Conforme Lucas Cavalcante, especialista em investimentos e fundador da Gus Consultoria Financeira, abril tende a ser um mês em que o dólar vai continuar mais sensível ao noticiário. O mercado entrou nesse período com três variáveis dominantes, lembra ele: guerra, petróleo e expectativa de juros, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. “Não vejo um cenário de estabilidade completa no curto prazo. O mais provável é um dólar ainda reagindo de forma rápida a qualquer mudança de percepção, principalmente vinda do cenário externo”, afirma Cavalcante.
Ao mesmo tempo, o especialista avalia que não parece um ambiente de descontrole cambial. Isso porque o Brasil ainda carrega juros reais elevados, e o Banco Central sinalizou uma postura mais cautelosa. Na prática, esses dois fatores funcionam como um colchão contra movimentos mais bruscos do dólar.
O que vai definir o comportamento da moeda em abril é o equilíbrio entre duas forças que puxam em direções opostas. Quando o medo toma conta dos mercados, os investidores vendem ativos de risco, como moedas de países emergentes, e correm para o dólar. Se esse clima de cautela persistir, o DXY e os juros dos títulos do Tesouro americano tendem a subir, o que pesa sobre o real. A contrapartida vem dos fundamentos brasileiros: o país exporta petróleo, colhe os frutos de um saldo comercial mais favorável e ainda conta com uma taxa de juros que segue atraente para o capital estrangeiro.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, diz que o pior cenário para o real seria um prolongamento relevante do conflito acompanhado de uma forte alta do petróleo, combinando desaceleração global e pressão inflacionária, o que os economistas chamam de estagflação. Mas, se o conflito encontrar um encaminhamento mais claro, ele afirma que o cenário muda. “Esse seria, provavelmente, o melhor cenário para o Brasil: uma economia global menos afetada, commodities ainda em níveis elevados e manutenção de um fluxo externo favorável, dando suporte ao real”, diz Shahini.
O especialista também aponta que, se o prêmio de risco geopolítico começar a se dissipar, o real pode voltar a testar mínimas recentes, com os níveis próximos de R$ 5,12 observados em 27 de fevereiro. “Nesse caso, o movimento encontraria suporte na melhora do saldo comercial, alavancado por preços mais altos de commodities, em termos de trocas mais favoráveis e na manutenção de uma política monetária ainda restritiva”, afirma.
Guerra, mercado e o que pode acontecer
Para Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas, o comportamento do dólar em períodos de tensão segue uma lógica bastante clara. “Em momentos de tensão ou conflito, os investidores buscam segurança, e o dólar tende a subir. Se o cenário piorar, a moeda pode ganhar ainda mais força”, afirma. Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, chama atenção para uma dinâmica menos óbvia: o mercado nem sempre reage ao que acontece de fato, mas ao que os investidores acreditam que vai acontecer.
Mesmo que a guerra no Irã se encerre, se os agentes financeiros entenderem que as consequências se prolongarão, o dólar pode continuar subindo. Da mesma forma, se o conflito continuar, mas o mercado avaliar que ele não afeta mais tanto a cadeia global de energia, a moeda americana pode recuar. “Não há perspectiva de uma disparada ainda maior do dólar nesse momento, mas, quando se trata de guerras em países e regiões importantes, caso do Irã e do Oriente Médio agora, tudo pode acontecer”, diz Ferreira.
O consenso entre os especialistas é de que abril será um mês de dólar volátil, mas dentro de uma faixa controlada – desde que o conflito não escale de forma abrupta. A faixa entre R$ 5,12 e R$ 5,30 parece ser o intervalo mais provável de atuação da moeda, dependendo de como o noticiário externo evoluir semana a semana.