Moody’s diz que data centers na América Latina destravam expansão bilionária; entenda
Demanda impulsionada por IA e nuvem cresce rapidamente, mas acesso a capital e entraves regulatórios ainda freiam avanço da infraestrutura digital na região
Infraestrutura de data centers cresce na América Latina, com Brasil liderando investimentos, mas setor ainda enfrenta desafios de financiamento e energia. (Foto: Adobe Stock)
A expansão dos data centers (instalações físicas que abrigam servidores) na América Latina, segundo a Moody’s, pode destravar uma nova onda bilionária de aportes na região. O motor desse movimento vem da combinação entre computação em nuvem e inteligência artificial, que vem acelerando a transformação digital e exigindo infraestrutura cada vez mais robusta. Basicamente, não falta cliente, falta dinheiro estruturado para sustentar o crescimento.
De acordo com a agência, “as estruturas financeiras estão evoluindo para financiar a expansão da capacidade de data centers na América Latina (AL)”, justamente porque a demanda deixou de ser o problema. Hoje, o gargalo está no acesso a capital e ambiente regulatório.
A carga instalada de tecnologia da informação (TI) na região chegou a cerca de 1,4 gigawatt (GW) no fim de 2025, com aproximadamente 1GW adicional em construção, concentrado principalmente em projetos de colocation (terceirização de data center). Ainda assim, o avanço poderia ser mais rápido se o financiamento fosse mais acessível.
A própria Moody’s reconhece que “é difícil obter financiamento bancário para um novo desenvolvedor de data center, especialmente no início da vida”.
Isso ajuda a explicar por que o setor depende fortemente de patrocinadores globais e investidores institucionais para sair do papel, um traço que diferencia a AL de mercados mais maduros, como os Estados Unidos.
Brasil no centro do jogo
Dentro desse contexto, o Brasil concentra mais de 60% da capacidade instalada e dos investimentos em data centers da América Latina, consolidando-se como principal hub regional. México e Chile aparecem na sequência, enquanto mercado como Colômbia e Peru ainda avançam a partir de bases menores.
O País reúne escala de mercado, demanda corporativa relevando e um mercado de capitais mais desenvolvido, especialmente no segmento de debêntures, que tem sido essencial para financiar projetos de infraestrutura digital.
Ainda assim, o crescimento exige aportes massivos. Grandes campus de data centers (especialmente voltados para IA e hiperescala) demandam investimentos elevados em terrenos, energia e contratos de longo prazo.
“O acesso a um financiamento flexível e viável economicamente é um fato decisivo para que os projetos prossigam ou sejam paralisados”, destaca a Moody’s.
Mudança no modelo de financiamento
Tradicionalmente baseado em capital próprio, o modelo começa a incorporar mais dívida, principalmente após a assinatura de contratos de longo prazo com grandes clientes, como provedores de nuvem.
Segundo a agência, “os operadores de data centers usam mais dívida durante os estágios iniciais de desenvolvimento”, mas essa alavancagem se torna mais viável quando há previsibilidade de receita. Contratos com hiperescaladores funcionam como âncora, reduzindo riscos e permitindo estruturas financeiras mais sofisticadas.
No Brasil, esse movimento ganha força com o uso de debêntures em moeda local, que oferecem uma base de investidores ampla e incentivos fiscais. Ainda assim, essas emissões costumam vir acompanhadas de restrições, como limites de alavancagem, que podem frear a expansão mais agressiva.
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Ao mesmo tempo, operações recentes indicam maior sofisticação. Estruturas híbridas, combinando dívida internacional e captação local, além de emissões verdes e vinculadas a metas ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), mostram que o mercado começa a diversificar suas fontes de financiamento.
O que ainda trava setor
Apesar do potencial, o setor de data centers na América Latina ainda enfrenta obstáculos. Um deles é a dependência de poucos grandes clientes globais, o que aumenta o risco de concentração. Caso esses contratos não sejam renovados, o impacto no fluxo de caixa pode ser significativo. Além disso, há desafios estruturais típicos da região: risco cambial (com receitas em dólar e custos em moeda local), complexidade na construção e dificuldades para garantir fornecimento estável de energia e água.
A Moody’s explica esse quadro ao afirmar que “vários riscos afetam a qualidade do perfil de crédito dos projetos”, incluindo desde atrasos em licenciamento até custos elevados de infraestrutura.
O boom dos data centers na região não depende mais de mercado consumidor, mas de engenharia financeira. Mesmo largando na frente, 0 Brasil ainda precisa resolver seus próprios gargalos para sustentar a liderança.