O nível do Ibovespa se sustenta pela entrada de capital estrangeiro no Brasil. Os dados mais recentes da Bolsa de Valores revelam que os gringos já injetaram R$ 67,39 bilhões em 2026, superando com folga os R$ 25 bilhões de todo o ano de 2025.
Outro fator relevante é o comportamento dos juros. A expectativa de cortes no Brasil é vista como um gatilho para a Bolsa, em um movimento historicamente associado à valorização dos ativos. Levantamento do Itaú BBA com 107 investidores, realizado entre 23 e 29 de abril, apontou nota média de 7,0 em uma escala de 0 (pessimista) a 10 (otimista) – segundo nível mais alto da série histórica – e expectativa de Ibovespa acima de 210 mil pontos até o fim de 2026.
No curto prazo, porém, a análise aponta perda de tração. Segundo o banco, se o Ibovespa cair abaixo de 184.750 pontos, pode aprofundar a queda até 180.500 ou mesmo 175 mil pontos. Por outro lado, se voltar a fechar acima de 188.710 pontos, abre espaço para retomada da alta, com projeções entre 199.250 e 214 mil pontos.
É nesse cruzamento entre cenário global e dinâmica doméstica que o E-Investidor conversou com Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações (LatAm) do Itaú BBA. Veja os principais pontos da entrevista:
E-Investidor – Depois do rali recente, o Ibovespa ainda tem fôlego para superar outros mercados nos próximos meses?
Daniel Gewehr – Avaliamos que o Ibovespa apresenta condições para continuar exibindo desempenho superior ao de outros mercados, especialmente em um cenário de maior normalização do ambiente geopolítico global, que poderia restabelecer a dinâmica mais forte de fluxo estrangeiro observada em janeiro e fevereiro deste ano.
Quais são hoje os principais riscos para a Bolsa e o que pode mudar esse cenário?
Historicamente, mercados emergentes tendem a se beneficiar de ambientes pró-risco, sobretudo quando as taxas de juros nas economias desenvolvidas apresentam trajetória de queda. No caso das commodities, o Brasil se beneficiou no curto prazo da exposição ao petróleo. No entanto, avaliamos que uma eventual normalização dos preços não seria necessariamente negativa para o mercado acionário, uma vez que esse cenário poderia favorecer a rotação de fluxo para outros setores, especialmente aqueles mais ligados à economia doméstica.
Um ponto relevante de interseção entre fatores externos e política monetária local diz respeito ao impacto das expectativas de inflação global sobre a velocidade e magnitude do ciclo de cortes de juros, como observado na decisão mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom). Com a normalização do ambiente global e das expectativas inflacionárias, o mercado financeiro poderia passar a precificar níveis de juros mais baixos, potencialmente abaixo de 13%, o que tenderia a se refletir de forma positiva nos preços dos ativos de renda variável.
Com a volatilidade do petróleo intensificada pela guerra no Oriente Médio, qual é o impacto para a Bolsa brasileira no médio prazo?
Apesar de preços elevados de petróleo afetarem as expectativas de inflação global, o Brasil acaba se beneficiando na frente externa à medida que se tornou um exportador líquido da commodity nos últimos anos, o que contribui positivamente para a balança comercial. Há também impactos de curto prazo na arrecadação, favorecendo o resultado fiscal. No médio prazo, nosso entendimento é que o Brasil ainda oferece uma combinação atrativa de fatores.
Destacamos, em primeiro lugar, os valuations (valor do ativo) atrativos, com o mercado negociando empresas na Bolsa a cerca de 9,5 vezes a relação preço sobre lucro (P/L), abaixo da média histórica. Além disso, o ciclo de flexibilização monetária, ainda que com início mais cauteloso, segue com expectativa de cortes de juros. Esse movimento tende a apoiar a dinâmica de lucros corporativos em 2026 e 2027, período para o qual projetamos crescimento de resultados em patamar de dois dígitos.
Outro ponto relevante é a tendência global de diversificação de portfólio, com realocação de capital para empresas e mercados com maior exposição a ativos reais. Também vemos potencial de mudança no ciclo macroeconômico, o que pode contribuir para uma melhora gradual da trajetória da dívida pública.
Diante de juros ainda elevados e maior volatilidade, quais setores estão mais bem posicionados na Bolsa hoje?
Ao observarmos a dinâmica setorial, entendemos que empresas de maior liquidez, especialmente em setores domésticos, seguem mais bem posicionadas. Essa preferência se explica pela liquidez: em momentos de maior volatilidade, seja por fatores globais ou locais, ações mais líquidas incorporam com mais eficiência as mudanças nas expectativas dos investidores, além de permitirem maior flexibilidade na entrada e na saída de posições.
Mantemos preferência por setores domésticos, com destaque para empresas de infraestrutura e cíclicas de qualidade, que apresentam bom momento operacional, histórico consistente de geração de retorno e que, em alguma magnitude, são mais sensíveis à dinâmica de juros do que ao nível de atividade econômica, que tem mostrado sinais de desaceleração.
Em maior granularidade, destacamos o setor financeiro, bancos e empresas de mercado de capitais de qualidade, com modelos de negócio resilientes e boa capacidade de geração de resultados ao longo do ciclo. Dentro de infraestrutura, utilities (serviços básicos) elétricas com exposição a preços de energia e perfil de carrego atrativo, além do setor de saneamento. Por último, o setor imobiliário, com construtoras voltadas ao segmento de baixa renda com retornos e dividendos elevados e empresas de shopping centers com maior exposição à alta renda.