Ibovespa sobe, mas acende alerta: rali depende do petróleo e 60% das ações estão abaixo das médias históricas, diz Itaú BBA
Desde o início do conflito no Irã, o benchmark subiu 4,9%, sendo que 69,5% desse desempenho veio do setor de energia; sem Oil & Gas, ganho cairia a 1,5%
Rali do Ibovespa em 2026 é puxado por petróleo, enquanto maioria das ações ainda não acompanha a alta de forma consistente, aponta Itaú BBA (Foto: Adobe Stock)
O avanço recente do Ibovespa tem sido consistente nos números agregados — o índice atingiu os 199 mil pontos e registrou mais de 32 recordes apenas em 2026, configurando o melhor desempenho em dez anos —, mas desigual quando se olha por dentro da Bolsa.
O Itaú BBA define o cenário como “levemente positivo”, mas ressalta que a valorização “permaneceu altamente concentrada”, especialmente no setor de petróleo e gás, que concentrou fluxo estrangeiro, revisões de lucro e desempenho desde o início das tensões geopolíticas.
O rali do índice tem um motor dominante, o que acaba distorcendo a leitura geral do mercado. Segundo o banco, desde o início do conflito, o Ibovespa acumulou retorno de 4,9%, sendo que 69,5% desse desempenho veio do setor de energia. Sem Oil & Gas, o ganho do índice cairia para apenas 1,5%. A concentração também aparece na contribuição de pontos: energia respondeu por 6.407 pontos do índice, muito acima de qualquer outro setor.
Para ir além do índice cheio, o Itaú BBA utiliza o conceito de market breadth, que mede quão disseminada está a participação das ações na alta. “É uma forma de avaliar quantos papéis de fato estão subindo ou melhorando, em vez de poucos nomes carregarem o índice”, explica o relatório. A análise se divide em quatro frentes: valuation (valor do ativo), revisões de lucros, fluxo estrangeiro e momentum de preços (velocidade na variação de preços).
O ponto de atenção está nos fundamentos
Apesar de o lucro projetado do Ibovespa para 2026 ter sido revisado para cima em 9,8% nos últimos três meses, a amplitude dessas revisões é de apenas 42,9%, ou seja, menos da metade das empresas está revisando resultados para cima. Mais do que isso, ao excluir o setor de petróleo, essas revisões passam a ser negativas, em -1%, com praticamente a mesma amplitude (40,6%).
“Isso reforça a importância de olhar além dos números agregados”, destaca o banco.
Enquanto Oil & Gas apresenta revisões positivas de 56,6% no período e amplitude de 66,7%, diversos segmentos mostram revisões negativas, como saúde (-9,0%), shoppings (-12,2%) e consumo (-2,4%) . Mesmo setores com boa amplitude (como educação, com 71,4% das empresas revisando lucros para cima) não têm peso suficiente para puxar o índice como o petróleo.
Já no vetor de fluxo, o quadro é mais construtivo, mas ainda seletivo. A amplitude de entrada de capital estrangeiro atingiu 66% em abril e 62,3% no acumulado do ano, uma melhora relevante frente aos 48,9% observados em março . Ainda assim, os fluxos continuam concentrados em que Oil & Gas lidera com 89% de amplitude, seguido por shoppings(83%), bancos (75%) e utilities(71%). Em contraste, setores como financeiras não bancárias (11%), saúde (27%) e bens de capital (28,6%) seguem com baixa participação do investidor estrangeiro.
No campo técnico, o cenário é o mais forte e, ao mesmo tempo, um dos pontos de alerta. A amplitude de momentum de preços está em 77,9%, indicando que a maioria das ações está em tendência de alta, com médias de curto prazo acima das de longo prazo . Bancos e papel & celulose, por exemplo, já apresentam 100% de amplitude nesse critério, enquanto utilities chegam a 94,1%. Por outro lado, setores mais domésticos, como consumo (41,7%) e bens de capital (28,6%), ainda mostram fraqueza.
“O momentum segue forte, mas já se aproxima de níveis historicamente associados a sobrecompra (80%+)”, alerta o Itaú BBA .
Isso sugere que, apesar da força recente, o espaço para novas altas pode ficar mais limitado sem uma melhora nos fundamentos.
Valuation aparece como principal contraponto positivo
A amplitude está em 67,5%, indicando que cerca de dois terços das ações ainda negociam abaixo de suas médias históricas de 10 anos. Setores como saúde e papel & celulose têm 100% das empresas negociando com desconto, enquanto consumo, educação e bens de capital também exibem níveis elevados. A exceção é utilities, com apenas 23,5%.
“Apesar do rali, oportunidades atrativas de valuation permanecem”, afirma o banco, destacando que, em um ambiente global onde ativos negociam a prêmio, o Brasil pode ganhar atratividade relativa.
O diagnóstico final, no entanto, é de cautela. “O desempenho recente foi impulsionado principalmente por fluxos, e não por revisões disseminadas de lucros”, reforça o Itaú BBA . Com isso, o rali do índice segue dependente de poucos vetores, sobretudo o petróleo, e com uma base ainda estreita.
Mais do que acompanhar o Ibovespa, o investidor precisa olhar a dispersão interna da Bolsa. Com poucos setores sustentando a alta e os fundamentos não acompanhando de forma homogênea, a seleção de ações deixa de ser diferencial e passa a ser condição para navegar o atual ciclo.