Com juros elevados, Tesouro Direto mantém retornos atrativos, mas volatilidade da curva exige atenção do investidor (Foto: Adobe Stock)
O Tesouro Direto tem ganhado atratividade em meio ao ciclo de juros elevados, com a Selic na casa de 14,75%. Nesse cenário, o retorno ajustado ao risco segue interessante para investidores de renda fixa. Títulos atrelados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) se destacam como uma alternativa consistente para proteção contra a inflação no longo prazo, especialmente em um ambiente de incertezas e conflitos geopolíticos no radar. Hoje (24), o Tesouro IPCA+ paga uma taxa de 7,63%.
Em períodos de maior imprevisibilidade – por fatores domésticos ou externos -, ativos pós-fixados tendem a oferecer mais previsibilidade, já que acompanham a taxa básica de juros. Por isso, faz sentido priorizar estratégias mais conservadoras no curto prazo, com foco em papéis como o Tesouro Selic.
Por outro lado, para investidores com maior tolerância ao risco dentro da renda fixa e horizonte de investimento mais longo, os títulos indexados à inflação seguem cumprindo papel relevante na preservação do poder de compra. Como explica Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, “os títulos atrelados ao IPCA são alternativa robusta de proteção contra a inflação no longo prazo, especialmente em um cenário de taxas reais ainda elevadas”.
Tesouro Selic
No caso do Tesouro Selic, a taxa adicional permanece baixa, em torno de 0,0453% ao ano no papel com vencimento em 2028, o que indica pouca volatilidade e manutenção do perfil conservador desse título. O preço unitário gira próximo de R$ 18,2 mil, com aplicação mínima na casa de R$ 182,89, mantendo-se como principal alternativa para reserva de liquidez e proteção contra oscilações de mercado.
Já os títulos Tesouro IPCA+ (sem juros semestrais) seguem oferecendo prêmios expressivos. O papel com vencimento em 2029 paga cerca de IPCA + 7,63%, enquanto os mais longos, como 2040 e 2050, oferecem taxas de 7,04% e 6,89%, respectivamente.
A inclinação da curva, com taxas mais altas nos prazos intermediários, sugere um prêmio maior concentrado no médio prazo, refletindo expectativas de inflação e juros ainda elevados no horizonte mais próximo, com alguma acomodação no longo prazo.
No segmento de IPCA+ com juros semestrais, o título com vencimento em 2035 apresenta taxa de IPCA + 7,48%, também em patamar elevado. Esse tipo de papel continua sendo mais indicado para investidores que buscam fluxo de renda periódica, embora com maior sensibilidade à marcação a mercado.
Tesouro Renda+
Os produtos voltados a objetivos específicos, como o Tesouro Renda+ (aposentadoria), mostram uma curva longa relativamente estável, com taxas que partem de IPCA + 7,15% em 2049 e vão caindo gradualmente até cerca de 6,93% nos vencimentos mais longos, como 2084. Esse comportamento indica uma ancoragem das expectativas de inflaçãono longo prazo, ainda que em níveis elevados de juros reais.
Tesouro Educa+
Da mesma forma, o Tesouro Educa+ apresenta taxas reais bastante atrativas, principalmente nos vencimentos mais curtos, como 2030 (IPCA + 7,95%) e 2031 (IPCA + 7,71%). Ao longo da curva, há uma leve queda nas taxas até cerca de IPCA + 6,96% em 2046, reforçando o mesmo padrão observado nos demais títulos: prêmios mais altos no curto e médio prazo.
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O quadro atual do Tesouro Direto mostra juros reais ainda elevados, curva levemente inclinada e oportunidades mais interessantes nos prazos intermediários, enquanto o Tesouro Selic segue como instrumento de estabilidade.
Tesouro Direto suspendeu suas negociações, o que aconteceu?
Quando há movimentos bruscos nas taxas, especialmente após eventos como leilões do Tesouro Nacional, como o de ontem (23), o sistema pode ser temporariamente interrompido para evitar distorções nas negociações.
Nesta quinta-feira, o Tesouro disponibilizou 21 milhões de títulos prefixados, que foram absorvidos em sua totalidade pelo mercado. Das 16 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) vendidas, 10 milhões vencem em julho de 2029. Não por acaso, este foi o vértice nominal que mais subiu na curva a termo, tendo alcançado 13,575% em seu pico na sessão.
Logo depois, os juros futuros negociados na B3 exibiram uma sessão de forte elevação, especialmente no miolo da curva a termo, cujos vencimentos chegaram a saltar mais de 20 pontos-base. No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,982% no ajuste de quarta para 14,14%. O DI para janeiro de 2029 saltou a 13,575%, vindo de 13,267% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,36% no ajuste precedente para 13,625%.
Essa movimentação toda fez com que o mercado de títulos públicos fosse suspenso pela tarde.
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Murad, explica que esse tipo de episódio não ocorre de forma isolada, mas está inserido em um cenário mais amplo de incertezas macroeconômicas.
Segundo ele, “a suspensão das negociações do Tesouro Direto reflete a volatilidade que tomou conta do mercado, com as taxas de juros reagindo fortemente após os leilões do Tesouro Nacional”.
Qualquer mudança na percepção sobre os próximos passos do Banco Central, especialmente em relação à trajetória da Selic, pode provocar ajustes rápidos e intensos nas curvas de juros.
Recado do Tesouro Nacional para os investidores
O Tesouro Nacional deixa o recado que em caso de suspensão, os investidores do programa podem realizar agendamentos para investimentos e resgates (na plataforma do programa) que serão liquidados com os preços e taxas disponibilizados na reabertura do mercado.
Os preços e as taxas dos títulos do Tesouro Direto são atualizados pelo menos três vezes ao dia, com o objetivo de refletir as negociações ao longo do dia no mercado secundário de títulos públicos federais.