Banco do Brasil no 1T26 hoje: veja o que pode destravar preço de BBAS3 na crise no agro
Analistas ainda esperam provisões elevadas, inadimplência em níveis desconfortáveis e ROE baixo; veja o que esperar dos resultados que saem nesta quarta-feira (13)
Mercado acompanha evolução da inadimplência rural e capacidade do Banco do Brasil de recuperar rentabilidade após forte deterioração do crédito. (Foto: Adobe Stock)
O Banco do Brasil (BBAS3) chega à primeira temporada de balanços do ano (1T26) ainda assombrado pelos problemas do passado recente. O investidor quer entender se o pior da deterioração do crédito, especialmente no agronegócio, já ficou para trás. Embora haja sinais de estabilização após um 2025 marcado por provisões recordes, analistas ainda enxergam pressão sobre inadimplência, rentabilidade e capacidade de recuperação dos resultados ao longo deste ano.
Para Pedro Leduc, analista de bancos do Itaú BBA, ainda não há elementos suficientes para falar em inflexão já no primeiro trimestre de 2026. Segundo ele, as provisões devem permanecer em níveis elevados pelo menos ao longo da primeira metade do ano.
“As provisões devem permanecer no patamar do quarto trimestre de 2025, na casa dos R$ 17 bilhões por período, ainda no 1T26 e no 2T26, com recuo gradual apenas no segundo semestre“, afirma.
O diagnóstico parte, sobretudo, da dinâmica do agronegócio, principal foco de preocupação dos investidores desde o ano passado. Embora os dados de produção e produtividade da safra sigam saudáveis, o problema está na situação financeira do produtor rural, hoje mais pressionado por margens apertadas, queda no preço das commodities e juros ainda elevados.
Inadimplência pode avançar em 2026
Leduc destaca que os recebimentos da carteira agro do BB se concentram justamente no segundo e no terceiro trimestres, o que pode fazer com que os atrasos e a inadimplência avancem ainda mais no próximos meses.
André Matos, CEO da MA7 Negócios, avalia que o quarto trimestre de 2025 pode até ter representado o momento mais agudo da deterioração, mas ainda é cedo para decretar normalização do custo de crédito.
“No 4T25, as provisões para créditos de liquidação duvidosa chegaram a R$ 19,036 bilhões, alta de 87% na comparação anual. Isso mostra que o ajuste foi profundo, mas ainda não significa estabilização automática do custo de crédito”, afirma.
De acordo com Matos, o mercado financeiro continuará acompanhando de perto indicadores como inadimplência acima de 90 dias no agro, volume de renegociações e preços de soja, milho e boi, além da capacidade dos produtores de recompor caixa. Na visão dele, a virada só ficará mais clara quando houver queda consistente dos calotes por mais de um trimestre consecutivo.
BB é o principal underweight
Guerra no Irã pode impactar também a distribuição de dividendos do Banco do Brasil (BBAS3), caso piore o risco do agro devido à crise nos fertilizantes em meio à guerra no Oriente Médio. Foto: AdobeStock (Imagem: AlfRibeiro em Adobe Stock)
O JPMorgan também identificou esse ceticismo entre investidores locais após reuniões recentes com cerca de 35 gestores em São Paulo e no Rio de Janeiro. No relatório, o banco afirma que o Banco do Brasil segue como o principal “underweight“ (papel com desempenho inferior) do setor financeiro brasileiro. Segundo o JPMorgan, as discussões mais negativas giram em torno da piora das expectativas para 2026 e 2027, da possibilidade de novas revisões de guidance (projeções) e da baixa visibilidade sobre a trajetória de melhora da estatal.
“Acreditamos que isso [revisão do guidance] seja improvável para 1T26, embora um trimestre fraco possa antecipar o debate sobre a revisão das projeções para o segundo trimestre de 2026″, afirma o banco norte-americano, lembrando que o BB revisou suas projeções diversas vezes em 2025 – um processo que abalou a confiança dos investidores.
Um dos pontos destacados por Pedro Leduc, do Itaú BBA, é que a inadimplência em pessoa física e empresas também vem crescendo acima da média do sistema financeiro. Na avaliação dele, isso reflete uma decisão específica do BB de ampliar sua exposição às carteiras reestruturadas, na contramão dos bancos privados. “Como o quadro financeiro desses clientes não evoluiu como se esperava, essas carteiras renegociadas começam agora a vencer sem o devido pagamento”, explica o analista.
Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, entende que, apesar dessa “contaminação” da inadimplência para além do agro, existe na expansão do consignado e do crédito do trabalhador uma tentativa clara de diversificação da carteira. “O banco vem realocando foco para segmentos de melhor spread [diferença entre o custo que o banco tem para captar dinheiro e a taxa que cobra ao emprestar aos clientes] e menor risco relativo, como alta renda e consignado privado”, diz.
Essa mudança de mix é vista pelo mercado como um dos principais testes estratégicos do BB em 2026. A dúvida, segundo Matos, é se o banco estatal conseguirá migrar para linhas mais seguras sem apenas trocar o risco de lugar. “Se acelerar crédito ao consumo para recuperar margem rapidamente, o risco muda de endereço. Sai parcialmente do agro e passa para a pessoa física”, explica.
Rentabilidade também tem seu holofote
O retorno sobre o patrimônio (ROE) do BB caiu para 12% no 4T25, abaixo de rivais privados como Itaú (ITUB3; ITUB4) e Santander (SANB11), e segue pressionado pelo elevado custo de crédito. Na avaliação do Itaú BBA, o atual valuation (valor do ativo) do banco reflete justamente essa deterioração de retorno. Hoje, o BB negocia próximo de 0,7 vez o valor patrimonial (P/VP), patamar considerado coerente com um ROE ao redor de 10%, abaixo do custo de capital estimado pelo mercado.
Publicidade
“Para que o múltiplo se reaproxime de 1 vez P/VP, o BB precisaria elevar seu nível de retorno, o que passa, necessariamente, por superar esta fase de provisões mais elevadas”, afirma Leduc. O JPMorgan também avalia que o mercado ainda vê pouca sensibilidade para uma recuperação consistente. Embora o banco norte-americano projete quase 50% de recuperação dos lucros em 2027, muitos investidores seguem trabalhando com a possibilidade de mais um ano difícil.
“Nosso cenário base hoje prevê uma recuperação de lucros de quase 50% em 2027, com ROE retornando a cerca de 15%; no entanto, a maioria dos investidores está trabalhando com outro ano de 2027 desafiador”, destaca o JPMorgan.
Mesmo em um cenário de possível queda da Selic ao longo dos próximos meses, analistas afirmam que o alívio para o Banco do Brasil tende a ser gradual. Isso porque grande parte da carteira rural possui taxas reguladas e menor sensibilidade ao ciclo de juros.
“A queda de juros tende a ajudar o Banco do Brasil no médio prazo, mas o efeito não é linear”, explica André Matos. “Existe, sim, risco de compressão antes de uma melhora mais clara”, acrescenta.
Para Uarian, a estrutura de funding (como o banco capta recursos para financiar suas operações de crédito) do BB fortemente baseada em poupança oferece alguma proteção, mas a rigidez do crédito rural limita a velocidade de recuperação das margens. “O banco pode ver compressão temporária até que o mix de crédito se ajuste e o volume em produtos de maior spread compense”, afirma.
O consenso dos analistas
Assim, o consenso entre analistas é que o primeiro trimestre deve funcionar mais como um teste de transição do que como um gatilho imediato de reprecificação das ações.
“O 1T26 tende a ser de transição, com resultados ainda apertados e ROE baixo, servindo mais como teste de resiliência do que gatilho de re-rating [reavaliação do valor da ação pelo mercado]”, resume Uarian.
Por enquanto, os investidores parecem dispostos a esperar mais evidências de estabilização da inadimplência, redução consistente das provisões e recuperação estrutural da rentabilidade antes de voltar a atribuir ao Banco do Brasil múltiplos mais próximos dos grandes pares privados.