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Colunista

O Pequeno Príncipe, a COP26, o nosso planeta e a natureza humana

Na busca por investimentos sustentáveis e com impacto socioambiental positivo, tenho aprendido a ver com o coração

Por Fernanda Camargo

26/11/2021 | 11:20 Atualização: 26/11/2021 | 11:20

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Se não agirmos agora, o planeta sobreviverá. Quem não irá sobreviver somos nós (Foto: Envato Elements)
Se não agirmos agora, o planeta sobreviverá. Quem não irá sobreviver somos nós (Foto: Envato Elements)

Esses dias fui assistir meu sobrinho, Guigo Farias (@fariasguigo) no papel do Pequeno Príncipe no Tom Brasil. Aliás, recomendo a todos. A peça foi criada pelo projeto Do Singular ao Plural (@singularaoplural) que busca realizar uma apresentação cênica musical com participação de várias pessoas da população em geral.

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“O Pequeno Príncipe” de Saint Exupéry, escrito em 1943, é considerado um livro infantil, mas é uma obra prima que reflete a vida a partir de coisas simples, mas ao mesmo tempo muito filosófica. A cada leitura o livro gera reflexões diferentes, depende da fase de vida e do nosso entendimento sobre nós mesmos.

No dia que fui assistir a peça, a COP26 já estava acontecendo. Eu já havia lido O Pequeno Príncipe inúmeras vezes, mas, dessa vez, conforme a peça se desenrolava, fui pensando na natureza humana e para onde estamos indo como humanidade.

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A COP26 é a maior e mais importante conferência sobre o clima do planeta. Em 1992, no Rio de Janeiro, as Nações Unidas organizaram um enorme evento, a Cúpula da Terra, quando foi adotada a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Neste tratado, as nações concordaram em “estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera” para prevenir uma interferência perigosa da atividade humana no sistema climático.

Durante as COPs foram negociadas várias adições ao tratado como o Protocolo de Quioto, de 1997, que definiu qual o limite de emissões que os países desenvolvidos deveriam alcançar até 2012 e o Acordo de Paris, adotado em 2015, que estabeleceu que todos os países do mundo aumentariam os esforços para limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima das temperaturas da era pré-industrial, e ampliar o financiamento em ação climática.

“O Pequeno Príncipe” é a história da experiência de um aviador que por causa de uma pane no motor de seu avião, fez um pouso emergencial no meio do deserto do Saara, na África. Depois de adormecer é acordado por um principezinho que lhe pede para desenhar um carneiro. Em oito dias de contato com a criança muitas coisas novas e antigas são reveladas ao aviador. Um pequeno menino, que veio de um pequeno planeta distante da terra, saiu em busca de conhecimento para entender e viver melhor com uma rosa que ele achava que era a única no mundo.

Durante a peça, fui refletindo sobre a natureza humana no contexto da COP26, e algumas frases do Pequeno Príncipe me trouxeram reflexões:

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“Todas as pessoas grandes já foram crianças, mas poucas entre elas se lembrem disso.” 

Fiquei pensando se “as pessoas grandes” que estavam se reunindo na COP26 estavam pensando nas crianças de hoje que viverão no mundo de 2050. Uma dessas crianças, Greta Thunberg, esteve lá e ficou decepcionada: “As pessoas no poder podem continuar a viver em sua bolha cheia de fantasias, com o crescimento eterno em um planeta finito e soluções tecnológicas que aparecerão de repente do nada e apagarão todas essas crises em um piscar de olhos. Tudo isso enquanto o mundo está literalmente em chamas e as pessoas que vivem na linha de frente continuam sofrendo o impacto da crise climática”, disse ela.

No livro, o primeiro desenho do Pequeno Príncipe era assim:

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Ele mostrou sua obra-prima às pessoas grandes e lhes perguntou se o desenho lhes dava medo. Elas responderam: “Por que um chapéu daria medo?” O desenho não representava um chapéu. Ele representava uma jiboia que digeria um elefante. Ele então desenhou o interior da jiboia, para que as pessoas grandes pudessem entender. Elas sempre precisam de explicações.

Quando falamos com as crianças, elas entendem rapidamente que não faz sentido sujar nossos rios, destruir nossas florestas ou poluir o ar que respiramos. Mas quando falamos sobre a crise climática com “as pessoas grandes” e explicamos que o problema não é somente ambiental, mas sim social. Algo que parece óbvio, mas não é.

É preciso explicar que se o planeta vai sofrer inúmeros desastres climáticos, se o nível da água do mar está subindo, teremos um planeta menor, mais quente e com mais gente. Para onde vai toda essa gente? Como vamos acolher? Teremos milhões de refugiados. Como explicou Fabio Alperovitch, “Se não agirmos agora, o planeta não sobreviverá no futuro”. Errado. O planeta sobreviverá. Quem não irá sobreviver somos nós: quando se trata do “planeta”, leva-se a uma impessoalidade e deixa de ser um problema nosso.

“As pessoas grandes estão sempre ocupadas”

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As pessoas tendem a não se preocupar com o futuro longínquo. Estão ocupadas demais com o curto prazo. Mas se não começarmos a tratar da crise climática agora, a vida na Terra em 2100 sofrerá grandes mudanças. Será que as “pessoas grandes” pararam para pensar que seus filhos ainda estarão vivos?

“Não és para mim senão um menininho muito parecido a cem mil menininhos. E não preciso de ti. Tampouco precisas de mim. Sou apenas para ti uma raposa semelhante a cem mil raposas. Mas, se me cativares, vamos precisar um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei para ti único no mundo.” 

Acostumamos a viver com a desigualdade. A maioria das “pessoas grandes” segue sua vida e não se sente responsável por aqueles com menos condições (com exceção do período da pandemia). Sempre escutamos que é problema do governo. E assim, os vulneráveis se tornam invisíveis. Será que não é claro que estamos todos conectados? Não é obvio que a miséria traz violência, insegurança, doenças etc.?

“A gente se sente só no deserto – diz o pequeno príncipe para a serpente. E esta responde: Entre os homens também”. Precisamos “cativar” um ao outro. Precisamos de mais compaixão, precisamos sair do deserto. Talvez a pandemia tenha ajudado um pouco neste sentido. Foi o período com o maior volume de doações da história.

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Em uma das cenas, o Pequeno Príncipe encontra o acendedor de lampiões.

Quando abordou o planeta, saudou respeitosamente o acendedor:

–  Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião?

–  É o regulamento – respondeu o acendedor. Bom dia !

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–  O que é regulamento? Perguntou o principezinho.

–  É apagar meu lampião. Boa noite. E tornou a acender.

– Mas porque acabas de acendê-lo de novo?

–  É o regulamento – respondeu o acendedor.

–  Eu não o compreendo – disse o principezinho

–  Não é para compreender – disse o acendedor. Regulamento é regulamento. Bom dia. E apagou o lampião.

Muitas vezes estamos tão condicionados a realizar as mesmas ações que não percebemos as mudanças que nos cercam. Os encontros da COP vêm acontecendo há quase 30 anos, mas muito pouco mudou. Continuamos vivendo da extração de recursos do planeta como se tudo fosse infinito.

Em uma outra cena, o pequeno príncipe pergunta ao manobrista ferroviário: “Para qual estação essas pessoas vão depois daqui? O manobrista: “Não sei… Nem o maquinista sabe”.⁠” Ninguém nunca está satisfeito no lugar onde se encontra. Somente as crianças sabem o que procuram…” 

Nunca me esqueço de um texto escrito por Alfredo Sfeir Younis, economista chileno e líder espiritual, onde ele descrevia o capitalismo como um trem lotado de gente. Dentro dos vagões as pessoas estavam em uma festa e do lado de fora, milhões de pessoas queriam entrar e participar da festa, mas ninguém sabia para onde o trem estava indo, se havia um muro ou um abismo a frente.

“Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem os elogios.”

Depois de muitos discursos elaborados, de aplausos e sorrisos, os líderes dos Estados Unidos, China, Índia e Austrália não assinaram a promessa de eliminar energia vinda da queima de carvão. A queima do carvão é uma das fontes mais poluentes do mundo e responde por 37% da produção mundial de energia. Todos sabemos que a economia precisa de energia, que milhões de pessoas dependem dela. O compromisso fala de investir em fontes alternativas, fontes renováveis e ter um plano para transição. Isso custa caro e obviamente pode ter um custo político no curto prazo.

O pequeno príncipe se encontra com o geógrafo. Ao ser interpelado sobre do que se trata ser um geógrafo, o velho senhor responde-lhe que é “um sábio que sabe onde ficam os mares, os rios, as cidades, as montanhas e os desertos”. E o menino pergunta: Por que as flores não estão nos livros de geografia? Este responde: As flores são efêmeras.

Nós também somos. Nós vamos passar. O planeta vai se regenerar, nós não.

“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante…”

Há alguns dias estive em Curitiba e fui fazer um passeio em uma floresta nativa que fica dentro de uma propriedade. O passeio foi especial pois o senhor José, hoje com 74 anos, cuida dessa floresta há mais de 50 anos. Ele sabe o nome de cada árvore, cada flor, cada fruto. Ele as trata como família. Entende o quanto a floresta deu para ele. E nós? Entendemos?

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

No final COP26 se encerrou com o Pacto de Glasgow, um documento assinado pelos países que deixou a desejar em termos de ambição. Apesar de não ter dado garantias quanto ao cumprimento do limite de aquecimento global em 1,5°C, pelo menos, teve o papel de mantê-lo vivo. Além do compromisso oficial, foram assinados uma série de compromissos independentes que podem contribuir para a redução de emissões e limitar as mudanças climáticas.

O Brasil assumiu um novo compromisso na COP26 de mitigar 50% de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) até 2030, usando como linha de base o ano de 2005 e como referência o Quarto Inventário Nacional de Emissões. Este compromisso é igual ao assumido pelo Brasil em 2015, mas maior do que o compromisso assumido na NDC (a Contribuição Nacionalmente Determinada, como são chamadas as metas e compromissos voluntários assumidos por cada país dentro do Acordo de Paris) anunciada em dezembro de 2020.

A Regulação do Artigo 6 do Acordo de Paris foi muito positiva para o Brasil. O texto foi elaborado pelo Brasil e sua articulação foi feita em conjunto com o Japão. O Artigo 6 cria o mercado regulado de carbono e o Brasil pode ser um dos maiores exportadores de crédito de carbono, principalmente devido ao tamanho de nossas Florestas Nativas.

Segundo entrevista da Capital Reset com Plinio Ribeiro, da Biofílica, quando fazemos a conta dos compromissos de net zero das empresas no mundo todo e do potencial de geração de créditos de carbono, estamos falando de um mercado que pode ficar entre US$ 30 bilhões e US$ 50 bilhões em 2030. O Brasil tem todas as condições de ter pelo menos 20% desse mercado. Seriam US$ 6 bilhões, com o câmbio atual, seriam R$ 30 bilhões. O orçamento inteiro do Ministério do Meio Ambiente não passa de R$ 500 milhões.

Nos últimos tempos, já começamos a ver o interesse por investimentos em bioeconomia, em reflorestamento, em soluções baseadas na natureza em tecnologia verde, entre outras. Também temos visto uma revolução na tecnologia ligada a educação e a saúde.

Sou otimista. Acredito que estamos evoluindo. Como diz o Pequeno Príncipe: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Na busca por investimentos sustentáveis e com impacto socioambiental positivo, tenho aprendido a ver com o coração.

 

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