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Colunista

Entenda a crise entre Rússia e Ucrânia e seus efeitos para o mercado

O conflito histórico entre os países se intensifica e pode afetar o preço do petróleo

Por Thiago de Aragão

22/12/2021 | 8:14 Atualização: 24/02/2022 | 9:11

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Presidente da Rússia, Putin, em encontro com forças armadas do país. Foto: Mikhail Metzel, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Presidente da Rússia, Putin, em encontro com forças armadas do país. Foto: Mikhail Metzel, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

Os laços entre Rússia, Belarus e Ucrânia existem desde antes da criação da União Soviética. Esses países sempre compuseram a chamada “aliança eslava”, onde as relações e as similaridades fizeram que se enxergassem como parte de um mesmo conceito étnico, histórico e político.

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No início dos anos 90, com o fim da União Soviética, algumas negociações foram pensadas como forma de integrar Belarus e Ucrânia à Rússia. No entanto, o caos que reinava em cada um desses países, por conta da transição democrática, freou tais planos. A Ucrânia sempre se sentiu abandonada por Moscou durante os anos soviéticos.

Dois fatos importantes são alegados aqui como causadores desse sentimento: a péssima gestão durante o acidente de Chernobyl e a insignificante ajuda prestada após a Segunda Guerra Mundial, no auge da crise de fome que varreu o país.

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Mesmo independentes, Belarus e Ucrânia se mantiveram na esfera de influência direta da Rússia, agindo quase como colônias. O estopim em relação à Ucrânia ocorreu em 2013, quando um enorme movimento contra o controle político russo começou a direcionar no sentido da União Europeia. Para a Rússia, isso era absolutamente inaceitável sob todos os pontos de vista. Um dos reflexos provocados por essa “ousadia” ucraniana, foi a invasão de 2014 que surrupiou a Crimeia e manteve o extremo leste do país “mais ou menos” ocupado.

A velocidade com a qual a situação belicosa entre a Rússia e a Ucrânia está se desenvolvendo é tão rápida que, utilizando meios não especializados, mal conseguimos acompanhar. Estamos no estágio onde aproximadamente 100 mil soldados russos estão posicionados na fronteira com a Ucrânia. A expectativa de Washington, mais precisamente do Pentágono e da Casa Branca, é de que 175 mil homens deverão estar a postos aí até o fim de janeiro de 2022.

Essa expectativa se sustenta sobre mais alguns fatores que são observados por Washington. Acreditam que ainda faltam elementos críticos para que a Rússia dê o passo inicial em direção ao território ucraniano.

De acordo com a inteligência coletada (principalmente via satélite), os russos ainda precisam turbinar o aspecto logístico da operação para a chegada de equipamentos que facilitem o transporte na neve, levando munições e equipamentos, bem como acertar os bancos de sangue. Quanto a esse último item, há quem diga que a capacidade de instalação de hospitais de campanha ainda está aquém do necessário.

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Naturalmente, toda a expectativa se baseia no “ideal” e não no básico. A ausência desses elementos não representa, de forma alguma, a impossibilidade de que uma invasão ocorra imediatamente. Alguns especialistas argumentam que o passo inicial da invasão pode ser dado sem eles.

Em relação a bancos de sangue e hospitais de campanha, em tese os russos poderiam ir utilizando aqueles já em território ucraniano baseando-se no avanço das tropas. Ironicamente, a questão climática pode vir a ser a mais complexa, pois dependendo do volume de neve, os tanques russos viriam a ter dificuldades na agilidade e na velocidade colocadas. Além disso, o acréscimo no volume das tropas poderia ocorrer gradativamente à medida que os russos fossem ingressando no território ucraniano.

Por outro lado, não podemos esquecer que existe um exército ucraniano bem mais treinado e armado do que aquele que viu a Crimeia sumir em um piscar de olhos em 2014. O exército ucraniano é o terceiro maior exército da Europa, atrás apenas do russo e do francês.

Armamentos foram adquiridos dos EUA e de diversos países da União Europeia. Mesmo assim, considera-se que ainda não são páreo para repelir uma invasão russa. No entanto, caso os ucranianos consigam esticar o combate o máximo possível (o que seria, humanitariamente trágico), isso poderia exaurir o ímpeto russo, abafando as vozes de generais convictos de que a superioridade de Moscou levaria a uma rápida conquista de território.

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A tendência seria que, conforme os russos avançassem, os EUA e outros países europeus abasteceriam os ucranianos com mais armas e equipamentos capazes de resistir, mas não de vencer.

A razão principal por trás é o acordo de Minsk firmado após a invasão da Crimeia. Os russos não admitem qualquer processo que possa levar a Ucrânia a se juntar a União Europeia ou à OTAN. Isso faria com que os russos tratassem a movimentação da Ucrânia como uma grave ameaça à sua segurança nacional.

Em janeiro, os EUA tentarão outra rodada de conversas com os russos, visando um meio termo em relação às demandas. Para quem já colocou mais de 100 mil homens na fronteira, as propostas americanas deverão ser muito boas para que Putin aceite retirar tropas e encarar a opinião pública russa. Para os russos, a demanda é relativamente simples: blindar a Ucrânia para qualquer investida da União Europeia e da OTAN. Já para os EUA, isso representaria um enfraquecimento da sua postura histórica e da própria OTAN. Por outro lado, pode prevenir uma tragédia humanitária.

O elo fraco dessas negociações fica justamente com a União Europeia, mais precisamente com a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Os europeus não conseguem ter uma visão uníssona por conta da mencionada dependência do gás e petróleo russo.

Riscos

A diferença dos impactos de uma invasão também deve ser levada em consideração. Para a Polônia, o risco está bem em sua fronteira, enquanto para Holanda e Portugal, a análise de riscos é completamente diferente. Os EUA estudam sanções extremamente fortes, como, por exemplo, agir sobre todo o sistema financeiro russo. Isso teria um impacto explosivo não só no custo da energia fóssil no mundo pois poderia levar o namoro entre Rússia e China para um casamento bem mais sólido.

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Infelizmente, no mundo atual, só existe um estrategista político de alto nível entre os líderes globais e seu nome é Vladimir Putin. Putin sabe, como ninguém, contra-atacar com armas que não são convencionais: ciberataques, disseminação de fake news, manipulação na Opep, uso de proxies para desestabilizar terceiros etc.

Um aumento substancial no preço do petróleo é o que podemos esperar assim que o primeiro soldado russo inicie o avanço dentro do território ucraniano. Esse tipo de ação acabaria trazendo consequências para todos os cantos do mundo: o preço da gasolina aumentaria tanto na longínqua Anápolis, em Goiás, como em Feira de Santana, na Bahia. Tudo está interconectado.

Muitos outros elementos críticos estão na mesa. Entre eles a crise de migração que um confronto como esse geraria e como a União Europeia responderia. Outro aspecto altamente importante seria a reação da própria União Europeia.

A dependência que os europeus têm do gás russo é tamanha, que as sanções desenhadas pelo governo americano contra os russos, no caso de uma invasão, não encontram uma aceitação tão fácil dos governos europeus. Estes buscam uma forma de punir sem irritar os russos, uma estratégia altamente contraditória. Caso a resposta da UE seja frágil, os EUA terão uma dificuldade ainda maior de impedir o avanço da máquina russa.

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