Rebalanceamento. Uma palavra grande e desengonçada que esconde uma das estratégias mais eficientes do mundo dos investimentos. Também, infelizmente, uma das mais subestimadas. E ela tem tudo a ver com o momento de mercado que vivemos agora.
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Rebalanceamento. Uma palavra grande e desengonçada que esconde uma das estratégias mais eficientes do mundo dos investimentos. Também, infelizmente, uma das mais subestimadas. E ela tem tudo a ver com o momento de mercado que vivemos agora.
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“O rebalanceamento é o suprassumo do comportamento racional”, nos ensinou David Swensen. Essa foi uma das lições mais poderosas que ele nos deixou como legado, parte do seu “Yale Model“, que serve de referência a investidores sofisticados no mundo todo.
Colocar essa estratégia em prática exige um passo anterior, também ensinado por Swensen: devemos investir com base em uma alocação estrutural. Ou seja, precisamos definir previamente o porcentual que teremos em cada tipo de investimento. E segui-lo com consistência.
Esse tipo de portfólio é o oposto da colcha de retalhos que vejo a maior parte dos investidores montar. Com frequência as carteiras são um amontoado de indicações desordenadas (e conflitadas) de assessores e gerentes, ideias próprias sem fundamento sólido e sugestões trocadas na mesa de bar.
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Um dos grandes problemas dessa carteira é que nunca se sabe exatamente o que fazer quando alguma parte dela tem retornos negativos. Porque a verdade é que nem quem investiu tem muita confiança no que está ali. As regras ficam mais claras e fáceis de seguir quando se define previamente um porcentual para cada tipo de investimento.
Um exemplo: eu gosto de ter 30% em Bolsa de forma estrutural. E faço isso por meio de fundos de ações de diferentes perfis selecionados com base em uma rigorosa análise qualitativa e quantitativa – assim como Swensen, a propósito.
O intuito de ter um porcentual bem definido fica claro nos momentos em que o mercado financeiro balança. Porque a regra é clara: o nosso objetivo como investidores é sempre fazer as fatias voltarem à alocação estrutural. Se 30% viraram 25%, eu devo investir mais em fundos de ações. Isso é o rebalanceamento.
Na prática, essa é uma forma sistemática de fazer aquilo que todo investidor sabe que deveria fazer, mas raramente consegue: comprar barato e vender caro. Os fluxos de dinheiro mostram que o comportamento mais comum é exatamente o oposto.
O porcentual funciona como uma força gravitacional e não nos deixa pensar muito. Até porque, Swensen também ensina, investidores sérios não fazem “market timing“, ou seja, não tentam acertar exatamente o momento de entrar em um mercado.
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A alocação estrutural entra no lugar das perguntas para as quais ninguém tem uma resposta crível: “Será que é hora de comprar Bolsa?”, “É um bom momento para comprar dólar?”, “Faz sentido investir em crédito agora?”.
Quando se tem uma alocação estrutural bem construída, a resposta é matemática.
Se você se comprometeu a ter 30% da sua carteira em ações e 7,5% em dólar, colocou o plano em prática e a volatilidade te levou a 27,5% em ações e 10% em dólar, é hora de comprar mais Bolsa e vender moeda norte-americana.
Não seria viável uma pessoa física fazer esse rebalanceamento todos os dias – pelo tempo e pelo peso tributário de se movimentar demais. Quanto mais tempo você fica sem resgatar de investimentos, menos imposto costuma pagar. Por isso, costumo recomendar que se faça o rebalanceamento ao menos a cada seis meses, sempre que entrar dinheiro novo e em momentos de forte volatilidade.
A arte da alocação estrutural, somada ao rebalanceamento, fará com que em momentos de pânico de mercado você aumente a posição em ativos que já tinha e ficaram mais baratos. E, em períodos de euforia, reduza a alocação no que caminha para ficar caro demais.
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Swensen costuma lembrar que essa é uma poderosa ferramenta de controle de risco. Ela nos protege das bolhas, quando investidores tomados pela ganância concentram cada vez mais patrimônio no que está subindo. Como o mercado é cíclico, uma hora ou outra essa estratégia pode acabar levando a ruína.
Por sua vez, em momentos de estresse agudo, em que os resgates assumem contornos de irracionalidade, o rebalanceamento nos permite reduzir o preço médio de compra dos ativos da carteira.
Para fazer isso, é claro, é necessário ter o horizonte certo para cada ativo. Recomendo, por exemplo, uma carteira de fundos de ações bem selecionados para um horizonte de pelo menos cinco anos e uma de fundos multimercados para pelo menos três.
Quando se investe mais em um ativo de risco em meio ao caos, para recompor o porcentual desejado, é preciso ter em vista que não se sabe quando a recuperação vem. É necessário ter fôlego para aguentar a volatilidade que não tem dia para acabar.
Já vi algumas vezes, entretanto, ela vir com velocidade – assim que o caos total do primeiro momento dá lugar a algum nível de racionalidade. Aconteceu na pandemia, por exemplo. Em março de 2020, quando compreendemos o impacto que o Covid-19 teria sobre nossas vidas, o mercado financeiro despencou.
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Quem fez o rebalanceamento naquele momento, de olho no porcentual definido originalmente, comprou ativos de risco muito baratos. E viu uma recuperação veloz nos meses que se seguiram, alimentada pelas políticas monetárias expansionistas dos bancos centrais. As tabelas de retorno de bons fundos de ações mostram essa trajetória de forma clara.
Isso aconteceu também com a guerra do Irã. Março foi um mês pesado para investimentos de risco. Especialmente muitos fundos de ações e multimercados sofreram perdas relevantes. Quem, em meio ao pânico, teve a disciplina de recompor seus porcentuais, já colheu muitos frutos em abril.
Enquanto alguns ainda se concentravam no noticiário pesado, bons fundos de ações e multimercados subiram entre 2% e 8% no último mês, ante um CDI perto de 1%. Ou seja, o dinheiro investido no pior momento de março colheu rapidamente muitos frutos.
A recuperação pode não ter se dado ao completo ainda, seja qual for o fundo investido, até porque a incerteza permanece nos mercados, mas o preço médio do que se tem em carteira foi reduzido. Esse é o poder do rebalanceamento. Se ele for feito de forma consistente ao longo do tempo, tem um impacto relevante tanto no potencial de retorno quanto no controle de risco do portfólio.
Quando não há dinheiro novo para investir, ativos de proteção da carteira, como fundo cambial e de ouro, também contribuem com o rebalanceamento. Isso porque costumam ter forte alta em momentos de estresse e têm resgate rápido. Nesse caso, pode ser vantajoso retirar o excesso dessas fatias para investir nas que encolheram.
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Sem uma alocação estrutural bem definida e o compromisso com o rebalanceamento, é muito difícil seguir a fórmula tão citada de comprar barato e vender caro. Isso porque viemos de fábrica prontos para vender no pânico e comprar na euforia.
Precisamos de um método para domar nossa irracionalidade. Ele existe, basta colocar em prática.
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