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Criptomoedas

Bitcoin cai no susto — mas lidera depois: o que mostram as crises globais

Levantamento mostra que a criptomoeda costuma reagir pior no choque inicial, mas supera ouro e bolsas nos meses seguintes, levantando dúvidas sobre seu papel como proteção

Por Ana Ayub

10/04/2026 | 11:00 Atualização: 10/04/2026 | 16:10

Enquanto mercados tradicionais fecham, o Bitcoin negocia 24h e antecipa movimentos de crises globais. (Imagem: Adobe Stock)
Enquanto mercados tradicionais fecham, o Bitcoin negocia 24h e antecipa movimentos de crises globais. (Imagem: Adobe Stock)

Acontecimentos macroeconômicos, como a pandemia do Covid-19, anúncio das tarifas impostas por Donald Trump e o atual conflito entre EUA e Irã abalam os investidores e geram turbulências entre os mercados internacionais. Quando essas tensões geopolíticas surgem, os investidores buscam refúgio em ativos menos voláteis às condições mundiais, como é o caso do ouro e, para alguns, das criptomoedas.

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Para entender esse comportamento, o Mercado Bitcoin, plataforma de ativos digitais, analisou o desempenho da criptomoeda, do ouro e do S&P 500 (principal índice de ações norte-americano) nos primeiros 60 dias após grandes choques macroeconômicos e geopolíticos. O recorte permite observar o comportamento dos mercados após o arrefecimento do pânico inicial, quando os preços passam a refletir mais os fundamentos.

Nessas horas, investidores esperam que ativos de segurança reajam rapidamente ou pelo menos mantenham os valores estáveis. Se isso não ocorre, a sensação é de que a proteção falhou. Para Rony Szuster, Head de Research do Mercado Bitcoin, essa conclusão pode ser precipitada:

“É como assistir aos primeiros minutos de um filme e achar que já sabe como ele termina. Em momentos assim, investidores vendem posições para reduzir risco ou levantar caixa, e até ativos defensivos podem cair”, explica.

Bitcoin após choques globais

Segundo o levantamento do MB, os resultados mostraram que, no chamado Dia da Liberdade, em abril de 2025, quando o presidente dos EUA Donald Trump anunciou as tarifas contra diversos países, o Bitcoin registrou alta de 24% nos 60 dias seguintes, superando o ouro, que avançou 8%, e o S&P 500, com ganho de 4%.

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A reação da criptomoeda no início da pandemia de Covid-19 não foi diferente. Em março de 2020, o bitcoin também se destacou, com valorização de 21%, enquanto os demais ativos subiram no máximo 4% no período.

Segundo Szuster, a criptomoeda manteve constância nos padrões observados. O Bitcoin apresentou a melhor performance na maioria dos casos e registrou retorno positivo em todos, após 60 dias. Os dados, no entanto, refletem janelas específicas e não garantem repetição do padrão em novos choques. Além disso, no atual conflito entre Estados Unidos e Irã, mesmo antes de completar esse intervalo, o movimento já começa a se repetir, com a criptomoeda sendo o único ativo em alta até o momento.

“O levantamento reforça que o Bitcoin nem sempre sobe no momento em que a tensão começa. Mas, após o impacto inicial, o histórico do ativo indica uma resiliência maior do que muitos investidores esperam”, reforça Rony.

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Sebastian Serrano, CEO da Ripio, plataforma de criptoativos, concorda e explica que a criptomoeda não costuma liderar o movimento inicial em momentos de crise. De início, os investidores procuram liquidez e proteção em ativos tradicionais, como ações e títulos de renda fixa. À medida que o mercado digere o estresse e inicia uma nova alocação de capital, o Bitcoin tende a capturar esse fluxo com mais intensidade.

“Esse movimento ocorre em fases de reprecificação, quando o mercado deixa de reagir ao estresse inicial e volta a se posicionar. O capital migra para ativos com maior potencial de valorização e proteção contra a desvalorização monetária. E o Bitcoin se encaixa nesse contexto por sua escassez programada e independência de políticas monetárias”, afirma Sebastian.

Serrano ainda vai dizer que, por sua característica de liquidez ininterrupta, o Bitcoin é frequentemente visto como um indicador antecedente de crises globais. “Negociado 24 horas por dia, o preço do ativo absorve choques em tempo real, inclusive quando outros mercados estão fechados. Na prática, ele tende a cair antes, porque funciona como um canal contínuo de ajuste de preço, enquanto outros ativos ainda não refletiram completamente o mesmo nível de estresse.”

Bitcoin pode funcionar como proteção?

A resposta certa para essa pergunta vai depender principalmente de qual perfil o investidor mais se identifica. Afinal, o Bitcoin ainda se comporta como ativo de risco. Porém, a cripto pode cumprir um papel relevante na carteira ao capturar movimentos de reprecificação após eventos de estresse e ao oferecer exposição a um ativo escasso, global e independente de política monetária.

“Isso não significa que substitua ativos tradicionais de proteção no curto prazo. O seu papel é complementar, com maior eficácia ao longo do ciclo. Ele não reage primeiro, mas responde com força. Por isso, pode funcionar como um ativo de proteção em uma janela mais ampla dentro de um portfólio diversificado, com exposição proporcional ao perfil de risco e horizonte de investimento”, afirma Sebastian.

Rony Szuster reforça que o Bitcoin deve ser encarado como um investimento de longo prazo. “Apesar das oscilações em curtos espaços de tempo, o ativo foi o mais rentável da última década e, somente em 2024, acumulou valorização de 178%.”

No fim, mais do que um porto seguro imediato, o bitcoin se comporta como um ativo de ciclo — volátil no curto prazo, mas capaz de capturar com força os movimentos que vêm depois da crise.

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