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Mercado

‘Potencial segunda onda de covid não cria um impacto adicional’, diz diretor da Gol

Mario Liao, diretor de finanças corporativas, explica as estratégias da companhia frente a pandemia do coronavírus

Por Jenne Andrade

27/11/2020 | 8:55 Atualização: 27/11/2020 | 10:26

Avião da Gol. Foto: Divulgação/GOL
Avião da Gol. Foto: Divulgação/GOL

O setor aéreo foi um dos principais impactados pela pandemia do coronavírus. Com restrição de circulação de pessoas, o segmento viu o número de voos domésticos e internacionais cair vertiginosamente no primeiro trimestre de 2019, junto com o faturamento das empresas.

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O mercado chegou a especular sobre qual seria o futuro das aéreas ao redor do mundo. Agora, cerca de sete meses depois do crash que o setor sofreu em abril por conta da pandemia do Covid-19, as notícias envolvendo os avanços da vacina tornaram o cenário um pouco mais animador. A Gol Linhas Aéreas Inteligentes, maior empresa do setor no mercado doméstico, espera chegar a 600 voos em dezembro – cerca de 70% do fluxo de 2019.

Segundo Mario Liao, diretor de finanças corporativas da Gol, a companhia é a que está melhor posicionada para a retomada pós-coronavírus. “Sempre fomos o principal competidor no mercado doméstico. Ou seja, o nosso modelo de negócios está voltado para o mercado brasileiro, o Brasil é a razão de existir da companhia”, explica.

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Para o E-Investidor, o executivo contou detalhes de como enxerga o momento que a empresa está passando e o que espera do futuro, face a uma eventual segunda onda de coronavírus e avanços da vacina para 2021.

E-Investidor – Como a Gol avalia os resultados desse terceiro trimestre?

Mario Liao – Esse foi um trimestre importante de retomada da demanda. Começamos a experimentar uma recuperação mais forte, que tem uma correlação com o achatamento da curva dos casos de Covid no Brasil. E também começa naturalmente nesses últimos meses do ano uma recuperação maior, porque tem os voos para final de ano, que classificamos como ‘alta temporada’.

E claro, essa retomada do 3º trimestre tem acontecido ainda muito no mercado de rotas de lazer. Então os voos que temos ofertado para essas rotas, principalmente no nordeste, tem performado bem, as taxas de ocupação tem sido altas. Acredito que é um pouco desses efeitos após 9 meses de pandemia, em que as pessoas tem a necessidade de retomar o turismo, voar com família. O mercado doméstico brasileiro tende a se sustentar, a ser um mercado que vai ter a performance até melhor comparativamente a outros países, por algumas questões: o Brasil, no mercado de aviação, é muito subpenetrado. Isso significa que, enquanto a Espanha tem cerca de 4 voos per capita, por aqui a média é 0,5 voo per capita.

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E tem outro ponto que é importante também. Ano passado nós tínhamos em torno de 120 milhões de passageiros na indústria. Desses, 98 milhões eram passageiros do mercado doméstico e outros 25 milhões eram do mercado internacional, ou seja, brasileiros que passavam suas férias em Miami, Orlando, Disney, Nova York, Cancún. Entretanto, o custo dessa viagem internacional aumentou. A taxa de câmbio no atual patamar deixa a experiência de viagem muito cara. Todos esses fatores fazem com que grande parte dessa parcela de mercado internacional de passageiros acabe migrando para o mercado doméstico, ou seja, prefira passar as férias no Brasil. Isso ajuda a sustentar esse volume de passageiros domésticos, principalmente nessa fase de entrada para alta temporada.

E-Investidor – Inclusive, a Gol manteve em outubro a liderança no mercado brasileiro de voos domésticos. Como conseguiram essa vantagem, mesmo na pandemia?

Liao – A Gol sempre foi o principal competidor no mercado doméstico, o nosso modelo de negócios está voltado para o mercado brasileiro, o Brasil é a razão de existir da companhia. Antes da pandemia, 85% do nosso faturamento vinha do mercado doméstico. Temos uma frota única destinada justamente a esse segmento.

Durante essa pandemia, a Gol expandiu seu marketshare de cerca de 37% para próximo de 40%. Então essa decisão tomada pela Gol, de foco no mercado doméstico, tem se mostrado acertada. A medida que a gente entra em 2021, com uma certa estabilização do lado econômico, já com notícias mais efetivas da vacina e com o mercado doméstico de lazer ainda bastante pujante, muito por conta do patamar de câmbio que não se espera voltar ao que era até dois anos atrás, isso tende deixar a Gol como competidor doméstico muito mais posicionado para essa retomada econômica.

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E-Investidor – Hoje vocês estão com quantos voos por dia?

Liao – A gente espera nesse período de novembro chegar em picos de 500 voos por dia, com uma média de 450 voos. Essa média representa cerca de 60% do que tínhamos ano passado. Esperamos chegar até dezembro perto de 70% do que era 2019, em um patamar de 570 a 600 voos em dezembro.

Nossa expectativa de retomada do internacional é lá para o final do primeiro para o segundo trimestre do ano que vem.

E-Investidor – O que esperar para 2021?

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Liao – Quando a gente olha para 2021 também esperamos um crescimento econômico – um cenário bem diferente de outros países, como os EUA e nações europeias, que provavelmente vão entrar em uma recessão estrutural muito mais longa. Então, a companhia entendeu que nossa posição dominante nos grandes aeroportos comerciais irá fazer com que a gente experimente essa recuperação econômica antes que os demais players.

Resumindo, passada essa crise, a Gol sairá muito mais forte e bem posicionada, dentro do mercado que vai ficar mais consolidado, que é o doméstico. Dois anos atrás, o segmento de aviação era dominado por quatro competidores, inclusive a Avianca Brasil, que entrou com pedido de falência. Então a gente tem atualmente um mercado de três competidores. Mesmo que a quantidade de passageiros não fique no mesmo patamar que 2019, ele também será dividido em um mercado mais concentrado nesses três players.

E-Investidor – Em relação a uma eventual segunda onda de coronavírus no Brasil, como vocês estão se preparando?

Liao – Em setembro houve um marco bastante simbólico que foi o feriado da independência, quando a Gol atingiu, pela primeira vez na pandemia, em torno de 55 mil passageiros, sendo que a média anterior era perto de 100 mil por dia. Então foi o primeiro momento que a gente passou a marca de 50% de retomada. Nessa época, quando houve a retomada, ainda estávamos experimentando um nível de 700 a 800 mortos por dia, um patamar muito alto.

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Então não enxergamos uma retração nos volumes de venda e no comportamento do passageiro de turismo, principalmente. Porque a primeira onda teve um impacto muito grande no passageiro coorporativo, e aqui não estou falando dos microempreendedores, estes ainda estão voando porque precisam voar, dado que a aviação é um serviço essencial em um país continental, estou falando dos funcionários e executivos de grandes corporações.

Eu diria que essa potencial segunda onda não cria um impacto adicional nos passageiros corporativos, porque já estamos em uma base zero, eles não retomaram. E os passageiros de lazer, eu entendo que se em um nível da pandemia mais alto já vínhamos vendo uma recuperação na vontade desses clientes em voar, com a proximidade da alta temporada, a gente não tem visto nenhuma tendência diferente em relação a isso.

E-Investidor – Quais foram os maiores desafios da Gol nessa crise?

Liao – Em abril o mercado teve uma queda de 93% do lado da capacidade e quantidade de vôos. É um número que impactou não somente o volume da operação, mas também toda a parte relacionada a números, fluxo de caixa, custo, receita, porque você sai de uma base de 800 voos diários, para 50 voos diários em abril.

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Nosso grande desafio, diante de uma queda muito significativa no lado do faturamento, foi encontrar formas de reduzir os custos para que pudéssemos manter a operação o mais equilibrada possível. Então, para desacelerar essa queima de caixa, que iria acontecer, passamos a olhar para a parte de folha de pagamentos. Aqui foi um destaque perante nossos competidores, já que a Gol manteve o maior número de colaboradores. Entramos com medidas de negociações junto com sindicatos e, no meio do ano, fechamos um acordo de longo prazo. Ou seja, reduzimos as jornadas de trabalho para 50%, diminuindo, portanto, a saída de pagamentos em torno de 50%.

A Gol entrou com negociação com os leasores (arrendadores de aeronaves), para que a gente pudesse também reduzir o volume de pagamentos. Isso foi um pedaço do que foi feito. O outro pedaço também foi negociação de postergação de pagamentos com fornecedores, que são nossos parceiros de longa data. Tudo isso fez com que que tivéssemos uma queda acima de 50% na saída de caixa desses arrendamentos.

Esses fatores fizeram com que a empresa permanecesse durante esses 9 meses de pandemia sem ter que acessar mercado externo para fazer uma captação ou o mercado doméstico, para emitir papéis. Conseguimos manter a liquidez em um patamar sustentável para continuar operando a companhia.

E-Investidor – Um levantamento da Bloomberg inclui a Gol entre as 08 companhias aéreas próximas à falência/recuperação judicial. É ou já foi um risco a se considerar?

Liao – Essa lista usa uma metodologia numérica, eu respeito, mas estatísticas e números não representam a forma como a companhia conduz a gestão nessa crise. A Gol é uma empresa cujo o corpo de gestão, administradores e executivos, são aqueles que provavelmente tem o maior nível de experiência de enfrentamentos de crise na aviação. Atuamos nessa crise de forma diferente. A Gol não buscou acessar alternativas legais de proteção, porque justamente acreditamos na capacidade de gestão dessa organização. Então, usar números, metodologias numéricas, para determinar probabilidade de risco não representa exatamente a realidade.

 

 

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