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Mercado

Ibovespa chega aos 100 mil pontos e sobe 57% na crise. E agora?

Reabertura da economia e arrefecimento de crises institucionais colaboraram para retomada do principal índice da B3, avaliam especialistas

Vista de painel do índice Ibovespa, principal indicador da bolsa de valores paulista, a B3, que superou a marca de 100 mil pontos, nesta terça-feira (19). Investidores aguardam a tramitação da proposta da reforma da Previdência. 19/03/2019
Banco lista cinco ações que devem estar nas apostas do investidor para o ano que vem. Foto: Renato Cerqueira/Futura Press
  • O principal índice da bolsa brasileira cresceu 57% desde que caiu para os 63.570 mil pontos em 23 de março, menor patamar em 2020.
  • O Ibovespa serve com um termômetro para medir como estão sendo negociados os principais papéis listados na bolsa. Na cesta dos 73 ativos que compõe o índice, destaca-se os do Bradesco (BBDC4), Itaú Unibanco (ITUB4), Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3)
  • É consenso entre analistas ouvidos pelo E-investidor que o crescimento do principal índice da Bovespa se sedimenta mesmo na lenta porém gradual tentativa de retomada da Economia. Com o cenário econômico a caminho da estabilidade, cresce também a confiança entre os investidores

O Ibovespa rompeu a barreira dos 100 mil pontos nesta sexta-feira (10), pondo em continuidade o ritmo de recuperação da B3 após os impactos causados pela pandemia de coronavírus. Ao encerrar a semana em 100.031,83 pontos, o principal índice da bolsa brasileira cresceu 57,4% desde que caiu para os 63.570 mil pontos em 23 de março, menor patamar em 2020. Especialistas avaliam que o momento é favorável para o mercado acionário e que a retomada de níveis pré-covid, por volta dos 120 mil pontos, é questão de tempo.

O Ibovespa serve com um termômetro para medir como estão sendo negociados os principais papéis listados na bolsa. Na cesta de 75 ações que compõe o índice, destacam-se Bradesco (BBDC4), Itaú Unibanco (ITUB4), Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3).

O analista de research da Ágora Investimentos, Ricardo França, explica que, como o índice é composto por diversos papéis, é preciso olhar para cada um individualmente, já que performam de maneiras de diferentes e podem inclusive estar desalinhados com o próprio índice.

“Hoje o Ibovespa tem uma composição muito dependente do setor financeiro, dos bancos, e das grandes blue chips, como Petrobras e Vale. Se o setor financeiro teve um dia de uma performance muito forte, ele acaba puxando o Ibovespa para cima, mas não necessariamente outros papéis vão ter um desempenho de mesma intensidade”, diz o especialista.

Para França, a ultrapassagem dessa barreira não gera grandes repercussões para os investimentos, do ponto de vista de análise, mas tem uma importante carga simbólica no atual contexto de crise.

“O investidor não deve se pautar apenas por essa informação, mas é uma marca expressiva, ainda mais com o momento que a gente está vivendo”, afirma.

Segundo o especialista, a recuperação foi mais rápida do que o previsto, muito em função dos dados econômicos que, em geral, têm surpreendido positivamente para a retomada. Porém, para ele, a marca dos 100 mil pontos em si “acaba sendo muito mais simbólica do que propriamente para uma análise”.

O que faz o Ibovespa crescer?

O começo da semana trouxe ânimo ao mercado brasileiro, puxado principalmente pela alta histórica na bolsa da China. Mas é consenso entre analistas ouvidos pelo E-investidor que o crescimento do principal índice da Bovespa se sedimenta mesmo na lenta porém gradual tentativa de retomada da Economia. Com o cenário econômico a caminho da estabilidade, cresce também a confiança entre os investidores.

Para Rodrigo Moliterno, sócio Veedha Investimentos, o rompimento dessa barreira mostra que o mercado continua em uma tendência de recuperação, impulsionado pela reabertura e pela maior liquidez com a injeção de Bancos Centrais para reavivar as economias. “O nível de taxa de juros bastante baixo também acaba sendo um outro atrativo para o mercado acionário”, lembra o especialista.

Para este processo de recuperação da confiança na bolsa, o economista Álvaro Villa, da Messem Investimentos, avalia que o País conseguiu dissipar os principais riscos de uma possível “quebra”: a desinformação sobre covid-19 e a crise institucional.

Em relação à doença que já matou mais de 1,6 milhão de pessoas no mundo, Villa explica que o pânico que levou a uma queda no índice se deveu principalmente à falta de informações. Contudo, ele avalia que mesmo as pequenas e iniciais descobertas sobre contágio, prevenção e até tratamento, com testes realizados para se chegar em uma vacina eficaz, iluminam o universo de incertezas entre os investidores.

No âmbito político-econômico, o especialista considera que o Brasil conseguiu um bom desempenho frente a outros países. “Não estou atribuindo essa conquista ao Governo, necessariamente, mas o Brasil, no geral, tem administrado bem a crise. A gente tem conseguido aprovar vários pacotes de estímulo, realocar os instrumentos financeiros para poder disponibilizar liquidez no mercado e evitar uma quebradeira.”

Além disso, o economista da Messem ressalta também a redução do risco de uma crise institucional com o recuo do presidente Jair Bolsonaro em suas investidas contra os demais poderes, como governos municipais e estaduais, Congresso Federal e até o Supremo Tribunal Federal (STF).

“O Bolsonaro chegou a levantar uma bandeira branca porque viu que estava perdendo. E a gente conseguiu aprovar medidas muito relevantes, como o marco legal do saneamento básico, um investimento de quase R$ 1 trilhão em dez anos”, afirma.

O que isso muda para quem está na bolsa?

Os especialistas lembram que quem entrou na bolsa quando ela estava desacreditada, conseguiu comprar papéis por um bom preço. Com a recuperação, já seria possível observar alguns ganhos. “Com certeza quem entrou nos últimos três meses comprou a bolsa a patamares de preços mais baixos e já está com alguma rentabilidade boa no período”, diz França, da Ágora.

Neste caso de quem alcançou algum resultado positivo em sua carteira, é importante fazer algum tipo de proteção, recomenda Moliterno, da Veedha. “Por se tratar de renda variável, e a gente ainda estar com todo este cenário de covid-19, se vem uma segunda onda mais forte ou não, é recomendável que as pessoas façam algum tipo de proteção para não perder o que já ganhou, o famoso ‘hedge’. Porque se o mercado cair (de novo), ele está bem protegido e não perde. Se continuar subindo, ótimo, ele continua ganhando.”

É um bom momento para entrar na bolsa?

A entrada neste momento divide opiniões entre os especialistas. França continua vendo a bolsa a um preço atrativo, principalmente para os investidores que estão buscando horizontes de retorno de médio e longo prazo.

“As avaliações de curto prazo da bolsa são mais complexas porque a gente fica dependendo muito do noticiário, da evolução de novos casos de covid-19, desse processo de reabertura das economias. Isso traz volatilidade para a bolsa”, avalia.

Para Rodrigo, não é recomendável entrar na renda variável nestes momentos de rompimento de marca. E se for, que seja com cuidado, fazendo uma análise conjuntural. “Às vezes, o índice não rompe de uma vez. Ele rompe, acaba voltando, rompe de novo. Então é recomendável ter certa cautela para entrar na bolsa agora”.

Ibovespa pode voltar a cair?

Por se tratar de renda variável, a chance de crescimento ou queda do valor das ações existe sempre. E no atual cenário de crise mundial, marcado por inúmeras incertezas, os riscos são maiores para uma possível queda do que para mais crescimento, na leitura dos especialistas.

“O aumento de casos de covid-19 continuam pairando por aí. Há o recuo (da reabertura econômica) na Europa, nos Estados Unidos, e, consequentemente, a gente está tendo uma recuada aqui também”, afirma Moliterno, da Veedha.

França lembra ainda que é necessário continuar monitorando o processo de reabertura, bem como dos indicadores econômicos. “Entramos agora em um momento em que as empresas começam a publicar os seus resultados para o segundo trimestre. É um período muito importante para avaliar novas condições.”

Para Álvaro Villa, da Messem, um crescimento além do patamar dos 100 mil pontos depende de agendas positivas, que, segundo ele, não estão no radar até o momento. O economista cita que um exemplo de ânimo para o mercado seria a concretização de alguma privatização.

“Hoje eu não vejo nenhuma agenda relevante para trazer esse impulso. O marco regulatório (do saneamento básico) já foi aprovado, os estímulos também. O governo já recuou (dos embates institucionais), e a bolsa lá fora já andou. Daqui para frente, eu começo a ver que tem muito mais risco de alguma coisa dar errado do que coisas novas darem certo”, alerta.

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