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Mercado

Ibovespa ensaia recuperação, mas termina abril com queda de 1,70%

Saiba o que impactou o índice no mês e o que esperar para maio

Por Jenne Andrade

30/04/2024 | 17:30 Atualização: 30/04/2024 | 18:37

Juros mais altos nos EUA e problemas fiscais no Brasil pressionaram a Bolsa e o câmbio (Foto: Envato Elements)
Juros mais altos nos EUA e problemas fiscais no Brasil pressionaram a Bolsa e o câmbio (Foto: Envato Elements)

O Ibovespa encerra mais um mês no vermelho, com uma desvalorização de 1,70%, aos 125.924,19 pontos. Entre 1 e 9 de abril, o principal índice de ações da Bolsa brasileira até ensaiou uma recuperação e subiu 1,39% no período, para 129,8 mil pontos – o maior patamar desde fevereiro. Entretanto, a divulgação dos dados de inflação dos EUA azedou o humor dos investidores e fez o índice descer a ladeira.

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No dia 10 de abril, o indicador norte-americano de inflação CPI (Consumer Price Index ou Índice de Preços ao Consumidor, em português) mostrou uma aceleração de 0,4% dos preços em março, acima das expectativas de mercado, de 0,3%. Esse dado alimentou ainda mais as dúvidas sobre o esperado início dos cortes de juros nos EUA.

Atualmente, os EUA mantêm as taxas de juros dos fed funds (fundos federais) entre 5,25% e 5,5% ao ano, nível mais alto em mais de duas décadas. Vale lembrar que essa taxa serve de referência para a renda fixa americana: ou seja, os rendimentos dos ativos conservadores da maior economia do mundo estão no ápice em pelo menos 20 anos.

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Essa dinâmica desaquece a renda variável dos demais mercados, em especial os emergentes, já que os investidores estrangeiros tendem a tirar dinheiro de ativos de risco para realocar esse capital no Tesouro dos EUA. Somente entre 1 e 26 de abril, dado mais recente, os gringos sacaram R$ 10,6 bilhões da B3. No acumulado do ano, o fluxo de investimento estrangeiro está negativo em R$ 32,5 bilhões.

Para melhorar esse cenário, o início do corte de juros nos EUA é fundamental, mas para isso a inflação americana precisa dar sinais de desaceleração. O que ainda não aconteceu.

“Na esteira do CPI, vários membros do Comitê de Política Monetária americano (FOMC) sinalizaram que os juros não vão cair rápido nos Estados Unidos”, diz Rogério Mori, economista do grupo Davos. Após a divulgação da inflação acima do esperado, os analistas de mercado precisaram rever suas projeções. “As apostas eram para que o primeiro corte de juros nos EUA acontecesse em maio. Agora, já migraram para setembro ou talvez até no ano que vem”, diz Mori.

A tempestade perfeita

As perspectivas de juros altos por mais tempo nos EUA fortaleceram o dólar contra o real – a moeda americana acumula alta de 3,5% em relação à nacional em abril – e ofuscou até mesmo o dado brasileiro de inflação, divulgado na mesma data em que o CPI americano. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,16% em março, um recuo de 0,67 ponto percentual em relação a fevereiro.

“O cenário no exterior continua desvalorizando as moedas dos países emergentes, na medida em que o risco de juros mais altos aumenta o fluxo de recursos para os países desenvolvidos”, ressalta Carlos Magno, analista de investimentos da Unicred.

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Entretanto, não foi apenas a situação da economia norte-americana que impactou o real no mês. O acirramento dos conflitos no Oriente Médio, após um ataque do Irã contra Israel no dia 13 de abril, aceleraram a busca por proteção em ativos como dólar. De acordo com levantamento feito pela Economatica, empresa do grupo TC, a moeda foi o melhor investimento do mês.

“A questão Irã-Israel mexeu com os mercados e trouxe revisões das projeções de juros ao redor do mundo, principalmente na economia americana”, diz Pedro Marinho Coutinho, especialista em mercado de capitais e sócio da The Hill Capital.

Além disso, no cenário interno, as questões fiscais também pesaram sobre o câmbio e fizeram as expectativas dos juros futuros subirem. No dia 15 de abril, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou as mudanças nas metas fiscais estabelecidas no arcabouço fiscal no ano passado. Antes, o objetivo era zerar o déficit este ano e buscar um superávit de 0,5% em 2025. Agora, o governo trabalha com um possível déficit de 0,25% para 2024 e zerar o décit no ano que vem.

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“A alteração da expectativa do governo em relação ao resultado primário gerou ceticismo dos investidores”, afirma Magno. “A preocupação em relação ao descontrole das contas públicas e percepção de aumento de risco devido ao cenário inflacionário norte-americano, influenciou os preços dos ativos, valorizando o dólar, derrubando as bolsas e aumentando os juros futuros".

Essa "tempestade perfeita" fez os rendimentos do Tesouro Direto dispararem para níveis históricos.

O título público atrelado à inflação, chamado de Tesouro IPCA+, por exemplo, viu seu rendimento real chegar a mais de 6% ao ano. Este patamar geralmente é atingido somente em tempos de crise econômica, como mostramos nesta reportagem.

Agora, a percepção é de que os cortes esperados pelo Banco Central brasileiro na taxa básica de juros Selic devem diminuir gradualmente. “Uma queda nos juros, sem diligência, pode resultar na saída de dólares do Brasil. Consequentemente, em um aumento do valor do dólar em relação ao real, gerando uma inflação maior no futuro”, diz Gustavo Faria, gestor de recursos com certificação CGA do Grupo Fractal.

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Já entre os destaques corporativos, está a recuperação extrajudicial das Casas Bahia (BHIA3), anunciada no último domingo (28), além do pagamento de 50% dos dividendos extraordinários da Petrobras (PETR4). Em março, a petroleira havia anunciado que represaria este capital.

De olho nos dados em maio

Para maio, os investidores continuarão de olho nos dados econômicos e sinalizações dadas pelas autoridades monetárias. Já nesta quarta-feira (1), ocorre a reunião do Comitê de Política Monetária do Federal Reserve (Fed, banco central americano), o FOMC, para definição do patamar de juros nos EUA.

“Segundo as projeções de mercado, é improvável que o presidente da instituição, Jerome Powell, alivie as preocupações dos investidores em meio aos dados de inflação elevados e sinais de força na maior economia do mundo", afirma a Ágora Investimentos, em relatório.

Na próxima quarta (8), o Banco Central do Brasil deve decidir sobre o corte de juros no país. Apesar de a instituição ter sinalizado mais um corte de 0,5 ponto percentual, parte dos analistas espera uma diminuição mais conservadora. “O corte de 0,25 ponto percentual é algo que está no jogo”, afirma Mori.

Paulo Luives, especialista da Valor Investimentos, ressalta que em maio a temporada de resultados do 1º trimestre deve “esquentar”. “Muitas empresas irão divulgar resultados”, diz. “Há uma expectativa de melhora nos balanços das empresas ligadas ao mercado doméstico, já refletindo um pouco a queda das taxas de juros no Brasil”, afirma. No dia 9 de maio, sai o resultado de players ligados ao mercado doméstico, como Magazine Luiza (MGLU3) e Gol (GOLL4).

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Alexandre Pletes, chefe de renda variável da Faz Capital, chama a atenção para cases específicos que devem seguir no radar, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3). Na semana passada, a petroleira aprovou o pagamento de 50% dos dividendos extraordinários, após o governo afirmar que iria represar esses repasses. Já a Vale sofre com a queda dos preços do minério, na esteira de uma atividade menor na China, seu principal mercado.

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“Quanto ao Ibov, a expectativa é de que o índice se mantenha em um patamar acima dos 125 mil pontos”, afirma Plates.

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