Esse desapontamento não decorre apenas do surgimento inesperado da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, em dezembro, mas, sobretudo, da percepção de que o senador vem ganhando tração e se consolidando no debate eleitoral, impulsionado pelas pesquisas.
Sob a ótica do campo da direita, entendo que caso o governador Tarcísio venha, de fato, apoiar Flávio, ele agregaria ao projeto uma imagem de maior equilíbrio e menor radicalização, atributos que ainda faltam ao núcleo mais identificado com o bolsonarismo.
De forma mais ampla, considero que Tarcísio é visto como um nome capaz de conferir um “verniz de centro” à candidatura, justamente num eleitorado que hoje representa cerca de 37% do total e que, mais uma vez, tende a exercer papel decisivo na eleição presidencial de 2026.
Nesse desenho, a presença do governador de São Paulo também funcionaria como um polo de atração para partidos como Progressistas e União Brasil, que tenderiam a se aproximar da candidatura bolsonarista, reforçando o campo da centro-direita.
Esse movimento, por consequência, reduziria de maneira relevante o espaço para uma terceira via, hoje articulada pelo PSD e por sua tríade de pré-candidatos: Ratinho Jr., Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.
Como na política nada é tão linear como se imagina, nos bastidores de algumas casas do mercado financeiro, um debate tem aparecido cada vez mais frequente: qual é, afinal, a real vantagem para Tarcísio em apoiar uma candidatura presidencial de Flávio?
O cálculo por trás dessa pergunta é maquiavélico e bastante pragmático.
Num cenário de vitória de Lula em 2026, abre-se desde já a discussão sobre a sucessão presidencial em 2030. Daqui a quatro anos, Tarcísio provavelmente estaria encerrando um segundo mandato como governador de São Paulo e plenamente disponível para disputar o Planalto.
Já em um cenário de vitória de Flávio, a janela natural para Tarcísio só se abriria em 2034, uma vez que o novo presidente, muito provavelmente, buscaria a reeleição em 2030.
Oito anos, na vida de qualquer pessoa, já representam um intervalo relevante. Na política, são praticamente uma eternidade.
Força política, capital simbólico e capacidade de articulação hoje não são, necessariamente, ativos garantidos ao longo de tanto tempo.
Esse dilema tem alimentado um debate interessante, e ainda inconclusivo, entre gestores, analistas e estrategistas do sistema financeiro. Já me deparei com argumentos consistentes, nos dois lados da mesa.
Mas, diante do cenário Flávio–Tarcísio, a pergunta segue aberta: se esse arranjo se confirmar, qual seria a sua aposta?