O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) proforma (veja mais detalhes abaixo) atingiu US$ 4,8 bilhões. Esse número superou tanto as estimativas de bancos quanto o consenso do mercado financeiro.
O JP Morgan classificou o resultado como positivo e afirmou esperar “reação favorável do mercado”. Para o banco, o grande destaque veio da divisão de Metais para Transição Energética, que inclui cobre e níquel. O Ebitda dessa unidade ficou muito acima do projetado, impulsionado por créditos maiores de subprodutos, especialmente cobre, níquel e ouro.
Isso significa que a Vale conseguiu extrair mais valor de operações que, nos últimos anos, eram vistas como secundárias frente ao minério de ferro. Além disso, a empresa entregou US$ 1,9 bilhão em fluxo de caixa livre no quarto trimestre de 2025 e reduziu a dívida líquida para US$ 11,2 bilhões, derrubando a alavancagem para 0,7 vez. Para o investidor, menor alavancagem reduz risco financeiro e melhora as perspectivas de dividendos.
O Banco Safra também destacou a forte geração de caixa e afirmou que o Ebitda ficou acima tanto da sua estimativa quanto do consenso dos analistas. O banco ponderou que já havia incorporado preços e volumes divulgados anteriormente, o que torna a surpresa operacional ainda mais relevante.
Cobre e níquel: o novo motor?
A XP Investimentos reforçou que o impulso veio principalmente da divisão de Metais Básicos. O cobre registrou forte expansão de Ebitda, sustentado por:
- Volumes maiores de produção e embarque;
- Preço realizado mais alto; e
- Receita adicional com ouro como subproduto.
No níquel, a companhia avançou em eficiência operacional, reduzindo custos e melhorando margens, mesmo em um ambiente global ainda desafiador para o metal.
Esse movimento chama atenção porque cobre e níquel estão diretamente ligados à transição energética (carros elétricos, redes de transmissão, baterias), o que abre uma avenida estrutural de demanda no longo prazo.
Ainda assim, a XP manteve recomendação neutra. Segundo a corretora, o momento operacional é positivo, mas o valuation (valor do ativo) já embute parte desse otimismo.
Minério de ferro: o verdadeiro centro da tese
Apesar do brilho dos metais básicos, as casas fizeram questão de lembrar que cerca de 80% do Ebitda consolidado da Vale ainda vem do minério de ferro.
A Genial Investimentos afirma que “ainda é uma história sobre minério de ferro”. Para a casa, o trimestre confirmou eficiência operacional, com custo C1 (despesas operacionais da mina ao porto) em linha com o guidance (projeções), mas o investidor não deve perder de vista o cenário estrutural da commodity.
O ponto central da Genial é macro. A oferta global de minério deve crescer entre 2026 e 2027, com novos projetos e expansões relevantes. Ao mesmo tempo, a demanda chinesa tende a desacelerar gradualmente ao longo da década.
Mesmo considerando o crescimento da Índia, que pode até se tornar importadora líquida relevante, a corretora avalia que o mercado pode permanecer em sobreoferta. Por isso, projeta preço médio de US$ 95 por tonelada em 2026, abaixo do patamar atual e do consenso.
O Banco Safra compartilha parte desse ceticismo com o minério, embora esteja mais otimista com cobre e níquel. Para o banco, a dinâmica de preços do minério de ferro ainda inspira cautela.
E o prejuízo bilionário?
A Vale reportou prejuízo líquido de US$ 3,8 bilhões no trimestre. Entretanto, o dado não alterou de forma significativa o tom das análises. As casas enfatizaram que o resultado negativo decorreu, principalmente, de impairments (baixa contábil de US$ 3,5 bilhões em ativos de níquel no Canadá) e efeitos fiscais sem impacto caixa. Na prática, o investidor que olha geração de caixa e alavancagem encontra uma companhia que reduziu dívida e sustentou fluxo robusto no trimestre.
No balanço do 4T25, divulgado na noite desta quinta-feira (12), a Vale também anunciou resultados proforma, para “aumentar a transparência e a comparabilidade”, pois exclui efeitos relacionados aos acidentes das barragens da região de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, impactos de Imposto de Renda (IR) e itens não recorrentes. Assim, a mineradora chegou ao lucro líquido proforma de US$ 1,5 bilhão no 4T25, crescimento de 68% ante igual período de 2024; e Ebitda proforma de US$ 4,8 bilhões, o que representa avanço anual de 17%.
Enrico Cozzolino, CEO e estrategista da Zermatt Partners, resumiu o sentimento ao afirmar que “o operacional veio forte”, com crescimento de receita e Ebitda sustentado por volumes maiores e preços melhores, especialmente em metais básicos. Para ele, o cumprimento do guidance reforça a narrativa de disciplina operacional e de capital, ainda que permaneçam riscos ligados à continuidade da demanda e aos preços do minério, além de ruídos eventuais relacionados a eventos passados.
A ação já precificou o bom momento?
Em 2026, as ações da mineradora já sobem mais de 24%, atingindo nesta quinta-feira a máxima histórica de R$ 91,62. Nos últimos 12 meses, a valorização do papel corresponde a mais de 83%. Como mostramos aqui, o ativo tem sido beneficiado pela entrada de fluxo estrangeiro na Bolsa de Valores brasileira, que se dirige sobretudo às blue chips – ações de maior liquidez e maior peso na composição do Ibovespa.
Para a Genial, parte importante do bom resultado já estava precificada. A casa avalia que o valuation hoje se aproxima mais do valor justo, com menos “desconto” embutido. A corretora determinou R$ 90,00 como o preço-alvo da ação.
A XP reconhece o momento positivo, apoiado por fluxo estrangeiro e valuation relativo atrativo frente a pares globais, mas também evita uma recomendação mais agressiva.
Já o JP Morgan, que precificou a ação em R$ 97,00, mantém visão construtiva e aposta em potencial de valorização adicional, sustentado por revisões positivas nas estimativas caso os preços das commodities permaneçam firmes.
O que o investidor deve observar agora?
Por agora, o acionista deve prestar atenção no preço do minério de ferro, que continua sendo o principal direcionador do lucro da companhia, no desempenho do cobre, que pode ganhar peso crescente na tese ao longo dos anos, na geração de caixa e dívida, e no valuation.
O resultado do 4T25 reforçou a eficiência operacional da Vale e mostrou força crescente nos metais ligados à transição energética. Mas, como lembram os analistas, o investidor que aporta em VALE3 continua, majoritariamente, comprando minério de ferro, e é essa commodity que seguirá ditando o ritmo das ações nos próximos trimestres.