A volatilidade do petróleo dá o tom nos mercados financeiros desde a eclosão da guerra entre EUA e Israel contra o Irã; dividendos das petroleiras podem ser impactados. (Imagem: Donatas Dabravolskas em Adobe Stock)
O petróleo tem enfrentado forte volatilidade nos últimos dias, com as cotações do barril chegando a encostar nos US$ 120 diante do fechamento do Estreito de Ormuz, rota principal de fornecimento da commodity em escala global, além das incertezas com a guerra no Oriente Médio. A grande questão é se o fluxo de alta do produto – cerca de 30% em 2026, para a casa dos atuais US$ 85 – ainda se sustenta e como isso deve impactar nos dividendos das petroleiras.
O mercado financeiro reagiu ao discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que a guerra contra o Irã poderia estar perto do fim, além da mobilização de países do G7 (grupo dos países mais industrializados do mundo), que planejam medidas para conter a alta do petróleo e o uso de reservas para evitar uma crise energética e problemas de abastecimento. Existe a possibilidade de uma proposta para liberação conjunta de até 400 milhões de barris por dia.
Para Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, o fator que sustenta o preço do petróleo brent acima de US$ 90 é plenamente geopolítico, mas carece de fundamentos no longo prazo. Diante disso, ele defende que no curto prazo o petróleo pode permanecer na faixa de US$ 100 enquanto persistem restrições de oferta ou riscos de disrupção em rotas estratégicas, como no Estreito de Ormuz.
Contudo, Arbetman defende que o preço estrutural da commodity, em um cenário de equilíbrio de mercado, está mais próximo dos US$ 70, considerando o crescimento de oferta fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+, extensão do maior cartel de petróleo do mundo e entidade que define os rumos do preço do produto), principalmente nos EUA, além de uma demanda global que avança de forma moderada.
Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, tem uma visão mais otimista para os preços de petróleo no curto e no médio prazo e considera que uma faixa entre US$ 70 e US$ 100 nos próximos meses é factível – acima do patamar em que o petróleo negociava antes da guerra no Oriente Médio.
Para ele, mesmo com uma solução temporária, os impactos do lado da oferta de petróleo perduram, com estruturas de armazenagem, transporte logístico e equipamentos de produção sendo afetados. “Temos uma oferta diminuindo de forma sensível no curto prazo. Mas quando normalizar, não volta rápido, porque algumas coisas foram desestruturadas. Para reconstruir uma base de armazenagem leva dois ou três anos, dependendo da complexidade”, exemplifica.
Queiroz cita ainda que as reservas não estão sendo renovadas na velocidade de incremento de consumo e, para o longo prazo, o processo de descobertas e de colocar novas estruturas em operação leva pelo menos oito anos. “Tudo isso contribui para que no curto e médio prazo o petróleo oscile entre US$ 70 e US$ 100, já um patamar entre US$ 90 e US$ 100 dependeria de novos fundamentos”, destaca.
Há ainda o impacto nos derivados de petróleo, que demoram mais tempo para normalizar. Segundo Gustavo Poladian, sócio e analista da Meraki Capital, o efeito nos preços pode ser mais prolongado, dado que muitas refinarias ficaram paradas e o tempo necessário para voltar a operar normalmente é longo.
Petroleiras podem pagar mais dividendos?
Petróleo acima de US$ 70 tem uma consequência direta na lucratividade das petroleiras. O principal efeito vem de uma geração de caixa forte nestas companhias. Contudo, Arbetman, da Ativa, faz a ressalva que o impacto nos dividendos pode não ser automático.
Segundo o analista, a capacidade dessa lucratividade se transformar em pagamento aos acionistas depende de vários fatores, entre eles a combinação entre preço do petróleo do tipo Brent, custo de extração das empresas, nível de investimentos em andamento e também a política de distribuição de lucro estabelecida por cada empresa.
“Companhias com ativos de baixo custo e investimento (capex) relativamente controlado conseguem converter mais rapidamente preços elevados de petróleo em fluxo de caixa livre e, consequentemente, em dividendos”, explica o analista.
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Por outro lado, Arbetman reforça que empresas que costumam dar prioridade a reinvestimento ao invés de geração de caixa podem não ter surpresas positivas para dividendos, mesmo com preços sólidos do petróleo.
Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, reforça esta teoria e acredita que o principal fator que influencia nos dividendos das petroleiras neste cenário vem da combinação de preço da commodity e custo de extração.
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Simão exemplifica que Petrobras (PETR3; PETR4) e Prio (PRIO3) operam com custo de extração e produção mais competitivos e estruturas operacionais mais consolidadas, o que amplia o ganho quando o petróleo Brent sobe. “Já empresas mais novas ou mais endividadas absorvem parte desse benefício para estabilização financeira e redução de alavancagem”, pondera.
Dividendos extraordinários
Mesmo com petróleo ainda em patamar elevado, dividendos extraordinários das petroleiras parecem menos prováveis neste momento, avalia Arbetman. “Dividendos mais robustos dependeriam de patamares elevados do Brent por um tempo prolongado, contudo muitas empresas do setor estão em fase de investimentos”, cita o analista da Ativa.
Petroleiras com maior capacidade de pagar dividendos
Investidores monitoram escalada da guerra no Irã, que pressiona petróleo, fortalece o dólar e aumenta a volatilidade nos mercados globais. (Foto: Adobe Stock)
Analistas consultados pelo E-Investidor já têm mapeadas algumas favoritas para dividendos robustos, caso o petróleo consiga manter um patamar superior a US$ 70.
Petrobras (PETR4)
Para Gustavo Poladian, da Meraki Capital, no caso da Petrobras, o petróleo Brent na casa dos US$ 70 possibilita que a estatal iguale a sua geração de caixa com o dividendo já estabelecido na sua política de remuneração. “Ou seja, a companhia não se alavanca para pagar proventos”, diz. Desta forma, o analista enxerga que se o petróleo se mantiver muito acima de US$ 70 haveria até espaço para a retomada de uma discussão sobre dividendos extraordinários.
Com petróleo no patamar de US$ 70, Poladian projeta um dividend yield (retorno de dividendos) de 9% para Petrobras. Acima deste preço de petróleo, os proventos poderiam alcançar um retorno de 11%, o que também facilitaria a redução de endividamento da companhia.
Arbetman também considera que a Petrobras segue com maior potencial estrutural de dividendos por conta do baixo custo de extração do pré-sal e elevada geração de caixa. Apesar disso, o analista tem uma recomendação neutra para a empresa, com preço-alvo de R$ 40 até o final de 2026.
Queiroz, da L4 Capital, enxerga que os dividendos da Petrobras fiquem em torno de 12% de dividend yield, já considerando o risco político de o governo usar a empresa estatal para segurar o preço dos combustíveis ou ter um avanço nos recursos para investimentos.
Já Simão considera que em um ambiente de petróleo acima de US$ 70, Petrobras e Prio conseguem capturar melhor esses ganhos por terem operações mais maduras e custos de extração competitivos. Para estas petroleiras, a projeção do analista do Hub do Investidor é de dividendos de 10% respectivamente, recomendando comprar PETR4 até R$ 44 e PRIO3 até R$ 64.
Prio e Petroreconcavo
Os analistas têm uma visão bastante otimista para Prio, que segundo Poladian deve divulgar uma nova política de dividendosnos próximos meses.
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Considerando o patamar de petróleo Brent em US$ 70 em 2026 e US$ 65 em 2027 e com a companhia mantendo uma alavancagem de 1 vez a relação dívida líquida sobre lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) até final de 2027, Poladian acredita que a Prio tenha capacidade de entregar um dividend yield de 20% até o final de 2026, com distribuições entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões, já levando em conta recompra de ações e os dividendos.
“Mas se o Brent subir para US$ 80 na média de 2026, o dividend yield a Prio poderia chegar a 30%”, destaca.
Queiroz tem uma projeção mais conservadora para Prio, mas ainda acima da média de proventos da Bolsa de Valores brasileira, com dividend yield entre 8% e 9%. “Empresa tem poucos projetos em andamento, baixo investimento, mas ainda umadívida elevada pelas aquisições. Se conseguir desalavancar, seria possível esperar um excedente de proventos”, avalia.
Já para Petrorecôncavo (RECV3), Arbetman avalia que a companhia pode oferecer dividendos relativamente atrativos, apoiados em ativos maduros com necessidade menor de investimento incremental. Queiroz reforça que a dívida da companhia está muito controlada e que a exploração de Mandacaru pode trazer bons resultados.
“No nível atual de petróleo, o dividendo da Recôncavo pode beirar entre 17% e 20% de dividend yield”, avalia Queiroz. Para Simão, do Hub do Investidor, a perspectiva é mais conservadora, dividend yield de 7% em 2026, com preço indicado de compra de até R$ 12.
Brava
A petroleira Brava (BRAV3) divide opiniões. Mas o consenso entre analistas é que a companhia deve focar em reduzir seu endividamento em 2026, abrindo espaço para dividendos interessantes apenas em 2027. “Com o Brent em US$ 70, a Brava poderia gerar um fluxo de caixa livre de 35% em 2027 e parte disso ser revertido em dividendo”, destaca Poladian.
Além disso, tem o fator de contratos com hedge (proteção), o que trava o potencial de alta diante do aumento dos preços da commodity, reduzindo os ganhos. Para Simão, por exemplo, o dividend yield de Brava não deve superar os 2% em 2026.