Especialista diz que previdência corporativa se enquadra dentro de um pilar de bem-estar financeiro: ela não só ajuda o funcionário a se planejar melhor para o futuro, como também dá ferramentas e suporte financeiro para ele fazer isso. (Imagem: djile em Adobe Stock)
Os dados mais recentes da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) mostram que os CPFs únicos em planos de previdência privada corporativa atingiram a marca de 2,36 milhões em dezembro de 2025. Isso representa apenas cerca de 6% do total de pessoas com carteira assinada no setor privado brasileiro, que já somam 39,35 milhões. A aplicação pode ser vantajosa quando a contrapartida ganha protagonismo, mas outras condições são necessárias para uma boa decisão de investimento.
Tiago Calçada, diretor da área de investimentos da consultoria Mercer, afirma que as seguradoras têm tentado reposicionar seus fundos e sua forma de comunicação para se adaptar às demandas das novas gerações. Ele observa que os novos profissionais buscam experiências diversas, como trabalhar no exterior, estudar ou fazer pausas na carreira, e nem sempre estão dispostos a permanecer décadas na mesma organização.
As próprias companhias têm repensado o seu pacote de benefícios. Em 2025, uma pesquisa da Mercer com 1.007 empresas responsáveis por cerca de 5 milhões de empregados mostrou que 53% já ofereciam previdência privada corporativa. Entre as que ainda não tinham o benefício, 49% planejavam adotá-lo em até três anos.
Para Calçada, a previdência corporativa se enquadra dentro de um pilar de bem-estar financeiro. “Quando a empresa oferece o plano, ela não está só ajudando o funcionário a se planejar melhor para o futuro, como também está dando ferramentas e suporte financeiro para ele fazer isso”, afirma.
No Brasil, plataformas como a Onze e a Stay vêm ganhando espaço ao conectar empresas a planos mais aderentes à sua realidade. Além disso, oferecem aos funcionários acesso às informações sobre os valores investidos e a possibilidade de realizar resgates de forma rápida, sem depender de processos burocráticos.
Tsai Chi-yu, CEO da Stay, afirma ser necessário desmistificar alguns conceitos sobre o tema. “A previdência ainda é muito associada à ideia de que ela só faz sentido para quem já tem um grande patrimônio ou trabalha em empresas de maior porte. Isso acaba criando uma percepção errada”, diz.
Segundo ele, o colaborador também não pode mais normalizar planos de previdência burocráticos ou com baixo rendimento. “O produto não precisa ser desse jeito.”
Como funcionam os planos corporativos?
A previdência corporativa se divide em duas modalidades: os planos averbados e os instituídos. No primeiro caso, não existe aporte por parte da companhia. Já no segundo, o empregador faz aportes junto com o funcionário, mecanismo que recebe o nome de matchou contrapartida.
O porcentual do match pode ser definido pela organização, mas, em geral, as empresas colocam R$ 1 a cada R$ 1 investido pelo colaborador, o que gera um retorno de 100% ao mês, fora o rendimento do fundo.
Mas há limites nesse modelo. Uma possibilidade é atrelar o match a um percentual do salário. Funciona assim: se o teto for de 5%, um funcionário que ganha R$ 10 mil e contribui com R$ 500 por mês (5% do salário) recebe R$ 500 da empresa. A partir daí, mesmo que aumente sua contribuição, o aporte da companhia não acompanha e permanece limitado aos R$ 500 mensais.
Há também o vesting, regra que determina qual parcela das contribuições feitas pela empresa o colaborador pode levar ao deixar o emprego. Em geral, quanto maior a permanência na empresa, maior o percentual, até atingir um prazo mínimo que garante acesso integral ao valor investido pela companhia.
O vesting pode determinar, por exemplo, que uma pessoa com três anos na empresa terá direito a 40% do valor aportado pela companhia, enquanto um funcionário com mais de sete anos de casa receberá o valor total.
Ana Paula Netto, consultora financeira da Onze, destaca que, antes de aderir a qualquer plano, o colaborador precisa ficar atento a essas condições, assim como ao perfil dos investimentos disponíveis. “Há desde fundos mais conservadores, com menor volatilidade, até fundos mais agressivos, com maior volatilidade“, alerta.
Quando vale a pena aderir à previdência corporativa?
Previdência corporativa pode ser vantajosa, mas tem diferentes detalhes que precisam ser considerados pelo colaborador. Foto: Adobe Stock
Além da contrapartida da empresa, que representa um “ganho adicional”, a previdência corporativa cria um hábito de poupança consistente, já que o desconto ocorre na folha de pagamento. Também favorece a construção de patrimônio para a aposentadoria e, em geral, oferece taxas mais baixas do que planos individuais, além de permitir aportes mínimos menores.
Henrique Colombo, head de corporate da AVIN, afirma que o produto tende a ser mais vantajoso quando há uma contrapartida relevante da empresa e o colaborador tem visão de longo prazo. Planos na modalidade Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) também podem trazer benefício fiscal, com a possibilidade de dedução de até 12% da renda tributável na declaração do Imposto de Renda (IR).
“Um colaborador que contribui com 5% do salário e recebe mais 5% da empresa está, na prática, dobrando seu aporte mensal, sendo difícil encontrar algo equivalente no mercado“, afirma Colombo.
Por outro lado, a previdência corporativa perde atratividade quando não há contrapartida da empresa, as taxas são elevadas ou o colaborador precisa de liquidez no curto e médio prazo. Nesses casos, especialmente para quem já possui uma carteira de investimentos bem estruturada, pode fazer sentido reavaliar a adesão ao plano.
Os riscos dos planos corporativos
Segundo Colombo, trata-se de um produto de baixa liquidez, que não permite o resgate do dinheiro a qualquer momento. O plano depende ainda das regras da empresa, responsável por definir o porcentual de match e o vesting, por exemplo.
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Outros riscos envolvem a própria natureza da previdência privada. Fundos muito conservadores tendem a render menos, enquanto os mais arrojados estão sujeitos a alta volatilidade. Além disso, alguns planos têm taxas de administração elevadas, que podem comprometer o retorno no longo prazo.
Regras de resgate e portabilidade
De acordo com Netto, da Onze, quando o colaborador realiza a portabilidade (transferência do saldo para outro plano) ou o resgate do investimento, antes do prazo determinado no vesting, ele pode enfrentar restrições ou perder parte dos benefícios vinculados ao plano, a depender das regras de cada empresa.
Por isso, antes de solicitar qualquer movimentação em um plano de previdência corporativa, é fundamental verificar as diretrizes previstas no contrato, tanto para a parcela individual quanto para a parte aportada pela empresa.
Outro ponto importante, segundo a consultora, é a regra que estabelece um prazo mínimo para o resgate de qualquer valor aplicado pelo empregador. Esse prazo é contado a partir de janeiro do ano seguinte ao início das contribuições.
Na prática, isso significa que, se as contribuições à previdência corporativa iniciaram-se em março de 2026, o colaborador só poderá sacar parte do valor aportado pela empresa a partir de janeiro de 2028. “Se a empresa começa a contribuir em um ano par, o resgate só é liberado no próximo ano par. Se começa em um ano ímpar, a liberação ocorre no próximo ano ímpar”, explica Netto.