O Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que consome. Leia novamente: mais de 80%. Quase metade desse suprimento vem de países cujas exportações passam pelo Estreito de Ormuz. E aqui estamos falando de ureia, amônia, fósforo, enxofre. Os insumos sem os quais não existe plantação de soja, não existe plantação de milho, não existe nada de escala comercial.
Pense em uma analogia simples. O Brasil montou a maior fábrica do mundo de alimentos. Somos responsáveis por quase 60% das exportações mundiais de soja, somos gigantes em milho, açúcar, carne. Mas essa fábrica inteira depende de um parafuso que a gente não tem. Um parafuso que chega de navio, atravessando um estreito que já está obstruído, em uma região em guerra. Quando o parafuso não chega, a fábrica para. Não importa o tamanho da fábrica.
Os preços da ureia já subiram perto de 30% desde o início do conflito, segundo o Fórum Econômico Mundial. E o problema não é apenas o preço. Há de se considerar também a disponibilidade física.
O think tank Carnegie Endowment publicou uma análise que deveria ser leitura obrigatória para o gestor de agronegócio no Brasil: ao contrário de 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia possibilitou redirecionamento das rotas de fertilizantes, desta vez não há opções. O fechamento de Ormuz retira o fornecimento direto que vem do Golfo para o Brasil e restringe a capacidade que o Marrocos tinha de nos vender fosfatados, uma vez que o país do norte da África também precisa do enxofre que vem do Golfo como insumo.
É um efeito dominó que não permite desvio.
E, para piorar, o timing é péssimo. O Hemisfério Norte está em plena fase de plantio. E o Brasil, que plantará a colheita de inverno em poucos meses, descontinuou suas compras de fertilizantes em cerca de dez pontos porcentuais abaixo do nível histórico do período, conforme dados do Itaú BBA.
Os produtores estão divididos: devem comprar agora, com preços altos e sem certeza de entrega; ou devem esperar e arriscar não ter qualquer insumo?
A safra quebrada em duas
Um fenômeno que considero anedótico e que praticamente ninguém discute no Brasil. A guerra entre Rússia e Irã fragmentou o agronegócio brasileiro em dois. Literalmente. Dentro do mesmo setor, existem empresas ganhando muito dinheiro e empresas sangrando. E a diferença entre uma e outra é uma questão de posicionamento na cadeia.
Os produtores de grãos estão em uma condição paradoxalmente boa. O milho subiu 6,7% em fevereiro na bolsa de Chicago e continuou avançando em março. O mecanismo é simples: petróleo caro transforma biodiesel e etanol em opções viáveis, o que puxa os preços da soja e do milho, matérias-primas dos combustíveis, para cima a montante.
Os futuros de óleo de soja superaram os maiores preços desde 2020 já na primeira semana de conflito. Usinas de cana devem optar pelo etanol em vez do açúcar, o que pressiona os preços internacionais do açúcar. Para quem vende grão, a guerra é uma boa notícia, cinicamente, no curto prazo.
Mas do outro lado da mesa, os frigoríficos enxergam o pesadelo em contrário. O Oriente Médio consome mais de 30% das exportações brasileiras de aves e metade desta quantidade passa pelo Estreito de Ormuz, que é o caminho de transporte. Os frigoríficos pagam mais pelo milho que alimenta os frangos e perdem acesso do mercado que compra o frango pronto. É como se houvesse um aumento de custos pela porta da frente e uma queda de receitas pela porta dos fundos simultaneamente.
E tem um detalhe que é pouco conhecido: em janeiro de 2026, mesmo antes de a guerra eclodir, o Irã já era o maior cliente do milho brasileiro. Foram 1,2 milhão de toneladas em um único mês, de um total de 4,2 milhões exportadas. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), o redirecionamento para os outros mercados é possível, pelo menos em teoria. Porém, na prática, redirecionar demanda tempo, logística, novos contratos e seguros marítimos que subiram bastante. Não basta virar a chave.
Para quem está no jogo, a implicação é direta: o agronegócio brasileiro deixou de ser um jogo monolítico. SLC Agrícola (SLCE3) e empresas de grãos ganham com a alta. Minerva (BEEF3), JBS (JBSS32) e Marfrig (MBRF3) têm ventos contrários, embora estejam negociando em valuations (valor de mercado) que os analistas julgam excessivamente descontadas.
A pergunta certa não é mais “agro vai bem ou vai mal?”. É “qual agro?”.
Petrobras: o cobertor curto
Agora vamos falar do elefante verde-amarelo na sala. A Petrobras (PETR3; PETR4) decidiu bancar o escudo inflacionário do País. A estatal está vendendo combustível abaixo do preço internacional, e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou o quanto pôde, cortando impostos e criando subsídios diretos para o diesel. O Chile fez o contrário: passou a alta toda para o consumidor.
A lógica política é clara. Em ano eleitoral, deixar o diesel disparar é o mesmo que entregar a eleição de bandeja. No Brasil, quase tudo depende do transporte por caminhão. O preço do frete se transmuta automaticamente para o preço dos alimentos em dias, não em meses. Todo e qualquer governo que ocupa a cadeira do Planalto sabe disso.
Mas o cobertor é curto. Quando a Petrobras paga abaixo da paridade internacional, os importadores privados de combustível se tornam não competitivos e as importações de combustível secam. As importações de diesel já caíram de forma significativa. Se o conflito se esticar, o Brasil pode enfrentar algo que não aparece há anos: o desabastecimento físico de diesel. E diesel no Brasil não é luxo, é o sangue do sistema circulatório econômico.
Para o acionista de Petrobras, a situação reflete a clássica ambiguidade brasileira, só que amplificada. A companhia lucra com o petróleo cotado a quase 100 dólares o barril, mas o desconto forçado corrói margens e reacende a narrativa da interferência do governo que historicamente desvaloriza o múltiplo da ação. O velho dilema Petrobras convive agora com uma guerra distante 12 mil quilômetros.
O Banco Central que não pode errar
No dia 18 de março, o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) cortou a Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano. Foi o primeiro corte em quase dois anos. E foi metade do que o mercado financeiro antecipou.
Até poucas semanas antes da decisão, a expectativa predominante era de uma redução de 0,50 ponto porcentual. Os operadores demonstravam confiança, uma vez que a inflação havia recuado para menos de 4% pela primeira vez desde maio de 2024. No entanto, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) permanecia modesto, com uma alta de apenas 0,1% no quarto trimestre de 2025 (4T25), enquanto a projeção do Focus para 2026 era de 1,83%, substancialmente abaixo da média de 3,2% registrada nos três anos anteriores.
Todos esses fatores sugeriam um início agressivo para o ciclo de cortes da Selic.
Entretanto, a situação mudou drasticamente com o início da guerra. Consequentemente, o Copom adotou a postura que se espera de um banco central em tempos de crise: decidiu frear as ações. O comunicado resultante foi marcante pelo que deixou de mencionar. Não houve qualquer indicação sobre os próximos passos a serem tomados, nem mesmo um guidance (projeção) futuro. Além disso, a expectativa de inflação para 2026 aumentou de 3,4% para 3,9%, aproximando-se do limite superior da meta estabelecida.
O Goldman Sachs corretamente afirmou que o corte foi possibilitado porque o Copom se comprometeu com ele desde janeiro. Sem isso, o natural teria sido não cortar nada. O dilema de Gabriel Galípolo é verdadeiro e sem fácil solução. A economia necessita de juros mais baixos, mas cada corte na Selic é um palpite de que a inflação provocada pela guerra não vai morrer as expectativas.
Um cálculo realizado pela NeoFeed indica de que um aumento de 10% nas despesas com combustíveis acrescenta 0,2 ponto ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e os fertilizantes, mais adiante na cadeia, podem pressionar os preços de alimentos.
O mercado ainda tem a Selic perto de 12,25% no final do ano, mas essa conta foi feita num mundo que não existe mais.
O triângulo que ninguém percebe: Brasil, China e a soja como ferramenta estratégica.
Agora vem o marco que deveria afastar o sono de quem pensa estratégia em Brasília e que, de modo contraditório, deveria também ser um motivo para um otimismo cauteloso. A China é o maior importador de soja do mundo. O Brasil é o maior exportador. Em 2025, com as tarifas norte-americanas e com a escalada da guerra comercial EUA-China, Pequim comprou 93% da sua soja do Brasil entre janeiro e agosto.
A Cofco, empresa estatal de alimentos da China, investiu cerca de US$ 285 milhões para se tornar o maior terminal de granéis sólidos do Porto de Santos. A China não está apenas comprando soja brasileira. Ela está comprando a infraestrutura que assegura o fluxo. Isto é um investimento em segurança alimentar, não em commodities.
Mas existe aqui uma circularidade nesta relação que raramente é saliente nas análises: a China precisa do Brasil para produzir soja e o Brasil precisa dos fertilizantes do Golfo Pérsico para poder produzir esta soja. O Carnegie Endowment atingiu o ponto fraco: a China, apesar de ser autossuficiente em muitos aspectos, depende do Brasil, que depende da ureia do Oriente Médio, para plantar a soja que alimenta suínos e bovinos nos dois países. Uma cadeia de dependência circular.
E a guerra do Irã acabou por expor o elo mais fraco da corrente: nós.
O viés pessimista é claro. Sem fertilizantes, a produtividade cai, os volumes de exportação caem e o Brasil vai se tornando menos relevante estrategicamente, quando deveria ter se tornado mais relevante no jogo geopolítico.
Todavia, a leitura que mais me agrada é a otimista: o Brasil, ao resolver seu problema de insumos, não será mais um fornecedor, mas um parceiro estratégico insubstituível para a segunda maior economia do mundo. A China aprendeu com Ormuz que é inaceitável depender de um único gargalo marítimo para alimentar 1,4 bilhão de pessoas. Se o Brasil puder oferecer segurança de fornecimento e não apenas volume, o poder vai mudar de mão.
Mas isso obriga o Brasil a fazer algo que historicamente adora não fazer: planejamento.
A cadeia invisível
Eu quero fechar com o argumento com o qual abri este texto, porque é o que realmente importa para quem toma decisões de negócios no Brasil. Vou desenhar a cadeia total, elo por elo.
O Estreito de Ormuz fecha. Os fertilizantes não vêm. O custo de produção agrícola sobe. A safra pode perder produtividade. Os preços dos alimentos disparam e o IPCA sobe. O Banco Central ou pausa o ciclo de cortes ou, no pior cenário, volta a subir. O custo do crédito sobe.
Agora a sua empresa pleiteia mais para financiar capital de giro, expansão, folha de pagamento.
Cada um desses elos já está em movimento ou já se concretizou. O IPCA já subiu. O Copom já cortou menos do que queria. O mercado já cortou e afunilou expectativas para Selic de fim de ano. A curva Depósito Interfinanceiro (DI) já foi reprecificada. O Ibovespa registrou uma perda quase total do ganho acumulado em 2026, um queda de situações de pico perto de 192 mil pontos a 176 mil em março.
O empresário brasileiro que não entender Ormuz gerenciará risco no escuro. Não estamos falando de erudição geopolítica, com tudo sendo uma questão de sobrevivência operacional.
O que fazer então?
Para o investidor: o agro deixou de ser uma tese única. Os grãos receberam a alta. A proteína sofreu. A Petrobras é o hedge (proteção) natural do petróleo, mas carrega risco político. O posicionamento adequado é seletivo, não setorial.
Para o planejador: qualquer projeção de fluxos de caixa para 2026 que não considere cenários para petróleo sustentados acima de US$ 100 e fertilizantes 30% mais caros é incompleta. Essa condição vale para agroindústria, logística, varejo alimentar, e qualquer negócio sensível a insumo e frete.
Para quem imagina o Brasil no longo prazo: esta crise deveria ter sido o catalisador definitivo para uma política de fertilizantes de verdade. O Brasil possui jazidas de potássio no Amazonas, reservas de fosfato em Minas Gerais e Goiás e potencial de produção de amônia verde a partir de energia renovável. Nenhuma dessas alternativas é imediata, mas nenhuma foi perseguida com a urgência do momento.
A maior commodity do Brasil não é a soja. É a dependência. E não se exporta dependência, paga-se por ela.