A guinada da estatal na bolsa acompanha o desempenho do petróleo no mercado internacional em função dos ataques de Israel ao Líbano que motivaram o Irã a impor novas restrições no Estreito de Ormuz. Os novos conflitos fragilizaram a trégua mediada pelo Paquistão e elevaram a instabilidade geopolítica.
Também no fechamento, os contratos futuros do petróleo do tipo WTI, com vencimento para maio, dispararam 3,66%, a US$ 97,87. Já os do Brent para junho avançaram 1,23%, a US$ 95,92.
Com esse cenário de petróleo mais caro no curto prazo, o Citi revisou suas projeções para a companhia e elevou o preço-alvo de US$ 15 para US$ 19,5 por ADR (American Depositary Receipt) e de R$ 37 para R$ 49 para a ação preferencial. Ainda assim, manteve recomendação neutra, apontando que o benefício da alta do barril tende a ser limitado pela política de preços domésticos e pelo programa de subvenção ao diesel.
Segundo o banco, a exposição da estatal ao petróleo ocorre sobretudo via exportações, estimadas em cerca de 900 mil barris por dia. Ao mesmo tempo, a defasagem nos combustíveis e possíveis atrasos no ressarcimento do subsídio pressionam o capital de giro.
Maior perda diária em 4 anos
Na sessão de quarta-feira (8), a Petrobras chegou a amargar a maior perda de valor de mercado em quatro anos, diante do tombo do petróleo após o anúncio do cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã. O barril do Brent recuou 17% no pior momento do dia, abandonando a marca de US$ 100.
Na primeira hora de negócios, o market cap da Petrobras tombou a R$ 604,9 bilhões, uma diferença de R$ 57,9 bilhões ante o fechamento de terça (R$ 662,8 bilhões) e 10% abaixo do pico histórico (R$ 677,2 bilhões, em 30 de março).
A perda diária é a quarta maior da história, inferior apenas às baixas de 9 de março de 2020 (R$ 91,12 bilhões), 22 de fevereiro de 2021 (R$ 74,25 bilhões) e 24 de maio de 2022 (R$ 60,45 bilhões). Ainda assim, a marca psicológica de R$ 600 bilhões, ultrapassada há um mês, segue intacta.
Além da flutuação dos preços do petróleo, os analistas ponderam que as cotações da Petrobras também podem embutir um temor de interferência política na estatal. A demissão de Claudio Schlosser da diretoria de Logística, Comercialização e Mercados da estatal após críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ágio do leilão de GLP reacendeu essa apreensão no mercado nesta semana.
“Schlosser vinha fazendo um bom trabalho empresarial. Eu fico com receio que talvez a definição de um bom trabalho tenha mudado. É preocupante ver um diretor demitido por praticar preços de mercado”, diz o professor da FGV EPGE Rafael Chaves. “Usar o peso político para interferir numa empresa estatal é péssimo. Já foi feito no passado e não deu certo.”
*Colaborou Gabriela da Cunha, do Broadcast