As bets, por outro lado, operam sob outra lógica. Elas não são um investimento de alto risco. A ilusão começa pela embalagem inofensiva de “entretenimento” que oculta uma máquina brutal de concentração de renda e destruição de patrimônio.
Diferente de qualquer produto financeiro, onde há uma expectativa de retorno com base no cenário econômico, na aposta esportiva ou no cassino online, a assimetria é absoluta. Você não está financiando o crescimento de uma empresa ou do governo; você está transferindo o orçamento da sua família, de forma unilateral, para plataformas que operam um modelo de extração de riqueza.
Um estudo divulgado pelo Itaú Unibanco revelou que os brasileiros perdem, de forma líquida, R$ 24 bilhões por ano nas apostas. Esse montante sugado da população equivale a 0,22% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e a quase 2% da massa salarial do país. É um ralo de liquidez sem precedentes que destrói não apenas a poupança, mas a renda primária.
Há quem defenda a expansão do setor com a justificativa de que ele “gera impostos”. Esse é um erro crasso de matemática tributária. A arrecadação não nasce do vácuo. O dinheiro que o apostador deposita na plataforma é exatamente o mesmo dinheiro que deixa de ser útil para uma compra de mercado, farmácia ou um eletrodoméstico.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) já precificou esse estrago: um levantamento aponta que o varejo brasileiro deixou de faturar R$ 103 bilhões em 2024 devido ao desvio de recursos para as apostas virtuais. Ou seja, o Brasil decidiu trocar o imposto do consumo diário, que faz a roda da economia girar e dá emprego a milhões de brasileiros, pelo imposto do vício. É uma troca trágica: a arrecadação agora vem de empresas que lucram bilhões, mas geram um número irrelevante de empregos locais.
O tamanho da fratura social acaba de ser medido: um estudo recente do Ibevar/FIA apontou que as apostas já superam os juros bancários como o principal fator de endividamento no país. Para completar, dados da fintech Klavi mostram que 30% dos usuários dessas plataformas já recorreram a empréstimos para continuar apostando. Na prática, a pessoa se endivida no sistema tradicional de crédito para jogar dinheiro em uma máquina programada para tirar tudo dela. O resultado final é óbvio: calote, superendividamento e o fim da paz dentro de casa.
Essa conta não fecha: qualquer receita com impostos será rapidamente engolida pelo gasto futuro do Estado com a assistência de famílias destruídas. Chamar aposta online de mau investimento é não entender o mercado. A instituição que oferece o pior título de capitalização ainda o trata como um cliente com uma carteira ineficiente. A bet o trata como alvo.
Na economia real, não se tolera um sistema estruturado para quebrar o consumidor. Esse risco precisa ser neutralizado antes que a conta chegue para todo mundo. Pensando bem, a conta já está chegando para nós com o estrago econômico e social.