Inadimplência preocupa e JPMorgan acende alerta para bancos no 1T26; Banrisul (BRSR6) já sofre rebaixamento
Qualidade dos ativos vira principal preocupação para a primeira temporada de balanços do ano, com aumento de provisões, pressão sobre margens e sinais de desaceleração
JPMorgan vê deterioração na qualidade de crédito e aumento de provisões no setor bancário brasileiro durante o 1º trimestre de 2026 (Foto: Adobe Stock)
O JPMorgan entra na temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 (1T26) com a conclusão de que o setor financeiro brasileiro começa o ano sob pressão crescente, com o principal ponto de atenção na qualidade de crédito. A casa afirma que o “foco neste trimestre deve estar principalmente nas tendências de qualidade de ativos”, em meio a dúvidas sobre se a piora observada em atrasos iniciais é apenas sazonal ou o início de um ciclo mais adverso.
Historicamente, o primeiro trimestre já traz uma deterioração natural nos indicadores de inadimplência, especialmente nas faixas de atraso entre 15 e 90 dias. Entretanto, segundo o relatório, há preocupação disseminada entre diferentes linhas de crédito, de cartão a empréstimospessoais e crédito corporativo, o que pode afetar não só provisões, mas também o apetite de risco das instituições.
Diante desse cenário, o Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4) aparece como a principal referência tática para o 1T26, sustentado por um balanço mais sólido e melhor comportamento relativo da carteira de crédito. O JPMorgan projeta lucro de R$ 12,3 bilhões e retorno sobre patrimônio (ROE) de 24,5%, com inadimplência mais estável que os pares, mesmo diante de pressões sazonais. Ainda assim, há ventos contrários relevantes nos três primeiros meses de 2026, como menos dias úteis, menor saldo médio em crédito rotativo e efeitos técnicos de dividendos antecipados.
A decisão de rebaixar o Banrisul (BRSR6) para underweight (equivalente a recomendação de venda) reflete uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. No Rio Grande do Sul, onde o banco tem forte concentração, a inadimplência tem piorado acima da média do sistema, tanto para pessoas físicas quanto para empresas. Além disso, o banco enfrenta incertezas sobre a renovação de contratos com o governo estadual e limitações estruturais para ganhar eficiência frente à concorrência de bancos digitais.
“Esperamos um aumento nas provisões devido à deterioração da carteira”, afirma o JPMorgan, projetando elevação do custo de risco nos próximos anos.
Na leitura da casa, esse conjunto reduz o potencial de valorização do papel. A expectativa é de retorno sobre patrimônio (ROE) em torno de 11% nos próximos anos, com queda de lucros em 2026, além de um valuation(valor do ativo) que ainda embute risco de baixa.
O que a casa diz sobre os outros “bancões”?
Logo de partida, a casa compara suas projeções com o consenso e mostra um viés mais conservador, sobretudo em alguns bancos. No caso do Banco do Brasil (BBAS3), por exemplo, o JPMorgan projeta lucro trimestral de R$ 3,4 bilhões, cerca de 17% abaixo do consenso, refletindo maior cautela com provisões e impacto do agronegócio. O banco destaca que o setor pressiona resultados. Há expectativa de aumento relevante nas provisões, com pagamentos renegociados (“bullet payments“) sendo um fator-chave a monitorar nos próximos meses.
Já no caso do Santander Brasil(SANB11) o cenário combina crescimento mais fraco e pressão de risco. Os dados indicam expansão de crédito inferior à média do sistema (+4% contra +10% ano a ano), além de aumento no custo de risco, o que deve limitar a expansão do resultado. A projeçãoé de lucro de R$ 3,96 bilhões, com ROE de cerca de 16,7%, mas com pouca evolução sequencial.
O Bradesco(BBDC4) aparece em uma posição intermediária: o JPMorgan espera um trimestre “ok”, com margem financeira estável (margem financeira líquida perto de 9%), mas já incorporando pressões pontuais de crédito corporativo e do setor rural. Ainda assim, a trajetória de recuperação gradual é mantida, sustentada por ganhos de eficiência.
Entre os digitais, o destaque continua sendo o Nubank(ROXO34). A expectativa é de crescimento de receita puxado por expansão da carteira (+46% ano a ano) e mudança de mix para crédito sem garantia. Mesmo assim, o relatório reforça que qualidade de ativos também será tema aqui, já que o 1T26 tende a pressionar inadimplência inicial. O lucro projetado é de US$ 879 milhões, com ROE próximo de 30%.
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O Banco Inter (INBR32) segue em expansão acelerada (aproximadamente 30% ano a ano em crédito), mas com custo de risco subindo, especialmente pela expansão em crédito consignado privado. O crescimento continua forte, mas com maior risco embutido, o que deve pressionar margens ajustadas ao risco.
Investment banking afeta BTG, XP B3
Além dos bancos, o relatório traz sinais importantes para o ecossistema financeiro como um todo. Em mercados de capitais, apesar de um início forte com mais de R$ 67 bilhões de entrada estrangeira no ano, a expectativa é de desaceleração nas receitas de bancos de investimentos (investment banking), com menor atividade em emissões e impacto da abertura de spreads de crédito (diferença entre a taxa de juros de um título de dívida e a taxa de um título livre de risco, refletindo o risco de crédito do emissor).
Isso já aparece nas projeções para casas como BTG Pactual (BPAC11) e XP Investimentos. Para o BTG, o trimestre ainda deve ser bom, mas “menos empolgante”, com desaceleração em investment banking e trading.
Para a XP, a expectativa é de um trimestre “sem inspiração”, com pressão nas receitas corporativas compensada parcialmente por fluxos vindos de eventos como pagamentos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Na B3 (B3SA3), os números operacionais são fortes, com volume médio diário de negociação de R$ 37 bilhões (+48% ano a ano) e lucro projetado crescendo 38%, mas o JPMorgan pondera que o papel já precifica esse momento, limitando o upside (potencial de valorização) após a forte alta no ano.
Calendário de balanços completo do 1T26
A divulgação dos mais importantes balanços da temporada do primeiro trimestre de 2026 começa nesta sexta-feira (24), antes da abertura do mercado. Veja a tabela completa: