Copom confirma Selic a 14,5%: onde investir com segurança agora
Com inflação pressionando e cenário externo turbulento, especialistas reforçam renda fixa e indicam onde buscar retorno sem correr riscos desnecessários
Copom cortou Selic em 0,25 ponto percentual, conforme esperado pelo mercado. Foto: Adobe Stock
O Comitê de Política Monetária (Copom) confirmou nesta quarta-feira (29) a Selic em 14,5% ao ano, mantendo os juros em patamar elevado e reforçando a atratividade da renda fixa — mas o avanço da inflação e o cenário externo mais incerto exigem ajustes na estratégia do investidor.
A decisão já era amplamente esperada pelo mercado e reforça o diagnóstico das casas de análise: apesar do início do ciclo de cortes, o investidor ainda encontra na renda fixa — especialmente em ativos pós-fixados e indexados ao IPCA — o principal pilar de retorno e proteção da carteira neste momento.
O ambiente que cerca a decisão do Copom, porém, está longe de ser tranquilo. Desde a reunião de março, quando o comitê do BC fez o primeiro corte em quase dois anos, a inflação saiu do radar confortável.
O IPCA de março fechou em 0,88%, bem acima dos 0,33% que o próprio Banco Central projetava no Relatório de Política Monetária (RPM). As expectativas coletadas no Boletim Focus desta semana já colocam o indicador de 2026 em 4,86%, ultrapassando o teto da meta de 4,5% imposta ao BC para o ano, que trabalha com objetivo de 3% e margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
O Morgan Stanley foi além e elevou sua projeção para o IPCA deste ano de 3,9% para 4,5%. Para 2027 e 2028, as medianas do Focus também foram ajustadas para cima, sinalizando que as pressões inflacionárias não são um fenômeno de curto prazo.
Especialistas dizem que o principal vetor de incerteza vem do exterior. O conflito que envolve Estados Unidos, Israel, Irã e Líbano – iniciado em 28 de fevereiro – manteve o barril de petróleo na casa dos US$ 100 durante praticamente todo o período entre as duas últimas reuniões do Copom.
A cotação do petróleo virou fator de risco permanente para os preços domésticos. Analistas ponderam que o câmbio relativamente comportado oferece algum alívio, já que um real mais forte reduz parte do repasse à inflação. Ainda assim, a inflação implícita subiu desde março – como indicou o IPCA-15 divulgado ontem -, e as expectativas de curto e médio prazo no Focus pioraram, tornando o trabalho do Copom mais delicado.
Onde investir, o que evitar e como montar a carteira agora
Segundo Leonardo Andreoli, especialista em investimentos da Hike Capital, com a Selic ainda elevada, a recomendação é de manter parcela relevante da carteira em fundos de renda fixa pós-fixados, fundos de crédito privado de alta qualidade, conhecidos no mercado como high grade, e estratégias que equilibrem retorno, liquidez e controle de risco.
“O ponto principal é que o investidor ainda consegue capturar um carrego muito atrativo no Brasil sem precisar correr riscos desnecessários”, afirma Andreoli.
Para ele, dentro da renda fixa o foco deve estar em gestores com histórico comprovado, boa análise de crédito, diversificação por emissores e garantias consistentes.
Na mesma linha, Marcelo Freller, estrategista de investimentos do C6 Bank, mantém forte alocação em títulos indexados ao IPCA. A lógica, diz ele, é simples: esses papéis funcionam bem em diferentes cenários. “Com inflação alta, são ativos que protegem o poder de compra. Se o cenário melhorar e os juros caírem, se beneficiam do fechamento da taxa real, gerando retorno”, explica Freller.
Publicidade
O estrategista observa que os juros reais ainda não acompanharam totalmente a oscilação da bolsa e dos juros nominais, o que sustenta expectativa de bons retornos à frente. Para perfis conservadores, lembra ele, a Selic em patamar alto permite boa remuneração com baixa volatilidade. Já para perfis mais agressivos, os prefixados estão em atrativos, mas com maior sensibilidade ao ciclo da inflação.
Qual a carteira ideal agora?
De acordo com Bruna Centeno, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, a carteira ideal neste momento combina ativos voltados a retorno com ativos de proteção. A especialista lembra que não existe uma “carteira ideal” única, já que tudo depende do perfil e do planejamento individual.
“O que sustenta os resultados [de uma carteira] são a consistência, o alinhamento ao planejamento e ajustes pontuais”, diz Centeno, que vê esses fatores como responsáveis por 80% a 90% do sucesso de um portfólio.
Para ela, investidores conservadores e moderados ainda encontram na renda fixa o ambiente mais favorável, com títulos públicos, crédito privado, debêntures e fundos com essa característica.
Do lado dos riscos a evitar, Juliano Lara Fernandes, especialista em mercado financeiro da Armada Asset, alerta que títulos prefixados podem não conseguir gerar juros reais proporcionais caso a inflação suba além do que já está embutido nesses papéis. Fernandes também acende o sinal de alerta para o crédito privado: “Uma abertura de spreads pode gerar perdas, além de mais inflação e juros mais altos serem punitivos para o setor privado emissor de dívidas”.
Andreoli vai além e lista o que não faz sentido neste momento: migração agressiva para ações muito alavancadas, small caps sem geração de caixa, empresas dependentes exclusivamente da queda da Selic e crédito privado de baixa qualidade.
“O erro neste momento seria abandonar ativos líquidos e bem remunerados para buscar retorno em produtos com baixa previsibilidade, pouca transparência ou risco de crédito mal precificado”, diz o especialista da Hike Capital.
Para Centeno, o principal erro do investidor é sair do próprio perfil. A recomendação é de manter uma reserva de liquidez entre 20% e 30% da carteira, ajustada à realidade de cada um.
Faz sentido investir no exterior agora?
A resposta dos especialistas é sim, desde que com cautela e dentro de uma estratégia de diversificação patrimonial. Para Andreoli, a exposição internacional não deve ser encarada como uma aposta no dólar de curto prazo.
“Em um cenário de guerra, petróleo volátil, juros globais ainda altos e incerteza fiscal no Brasil, ter parte do patrimônio exposta a dólar reduz a dependência do mercado doméstico”, argumenta. A preferência recai sobre ações diversificadas e teses estruturais como infraestrutura de inteligência artificial, semicondutores, data centers, energia e tecnologia corporativa. A dolarização, diz o especialista, deve ser construída aos poucos como parte permanente da alocação.
Centeno, da Blue3, reforça essa visão e aponta que a alocação internacional ganha força especialmente quando se consideram a desvalorização histórica do real e a instabilidade política e econômica doméstica. Ela adverte, ainda, que esperar o melhor momento do câmbio pode significar perder oportunidades. O dólar que importa, na visão dela, é o que ainda não está na carteira.
Publicidade
Andreoli afirma que a carteira do investidor deve combinar renda fixa local, crédito estruturado, fundos líquidos, ativos reais e exposição internacional em dólar. “A carteira não precisa abandonar o Brasil, mas também não deve depender só do Brasil”, conclui.
“O mercado internacional não é só renda variável americana – tem toda uma carteira de renda fixa de diversos emissores globais, além de países que estão com uma economia em crescimento a despeito da guerra”, lembra Fernandes, da Armada Asset.
No exterior, os setores mais indicados são os ligados à infraestrutura de tecnologia, energia, redes elétricas e segurança digital, todos considerados temas estruturais de longo prazo.
O que esperar das próximas reuniões do Copom
As projeções do mercado para a Selic até o fim deste ano variam entre as casas de análise, com a incerteza sobre até onde o BC conseguirá ir neste ciclo de afrouxamento monetário. A XP e o C6 Bank estimam a Selic em 13,50% até dezembro. Bank of America (BofA) e Citi trabalham com 13,25%. Goldman Sachs, Suno e PicPay preveem 13%.
Ágora, Genial e Santander projetam 12,50%, enquanto JP Morgan e Safra chegam a 12,25%. Morgan Stanley e UBS BB são os mais otimistas entre as grandes casas, com projeção de 12%. No extremo oposto, a Blue3 Investimentos acredita que a Selic terminará o ano em 14,75%, praticamente no patamar atual, enquanto a Ativa Investimentos projeta o corte mais agressivo, chegando a 11%. Para 2027, o Focus aponta para 11% e, para 2028, 10%. A projeção para 2029 caiu levemente, de 9,88% para 9,75%.
Publicidade
Para Andreoli, da Hike Capital, o mais provável é a continuidade dos cortes, mas em ritmo lento e subordinados aos dados econômicos. “O Focus indica Selic de 13% ao fim de 2026, o que sugere mais cortes ao longo do ano, mas a revisão recente das expectativas mostra que o mercado já enxerga um Banco Central mais cauteloso”, analisa. O especialista aponta dois caminhos possíveis a partir daqui.
Se a inflação continuar subindo, o Copom pode reduzir menos ou até pausar o ciclo de cortes. Se, por outro lado, os dados de atividade econômica enfraquecerem e a inflação voltar a ceder, há espaço para novo corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião, marcada para 17 de junho.
Calcule o retorno dos seus investimentos com a nova taxa de juros
A pedido do E-Investidor, Fabio Gallo, colunista do Estadão e professor de Finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), realizou uma simulação para analisar o desempenho de investimentos em renda fixa, levando em conta a nova taxa Selic em 14,50%. O estudo utiliza uma previsão de 4,86% para o IPCA, conforme o Boletim Focus, e considera uma rentabilidade anual da poupança de 8,19%. A simulação abrange cálculos de rentabilidade bruta, líquida (após dedução de impostos e taxas) e real (ajustada pela inflação) para aplicações de R$ 1 mil.
Investimento de R$ 1.000 por 1 ano com a Selic a 14,50%