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Comportamento

Como se defender contra golpes na hora de comprar vinhos

Um vinho em promoção vendido pelo Extra pode ter entrado ilegalmente no Brasil. Veja como se proteger

Por E-Investidor

28/08/2021 | 5:00 Atualização: 27/08/2021 | 18:37

(Foto: Benoit Tessier/Reuters)
(Foto: Benoit Tessier/Reuters)

(Suzana Barelli, especial para o E-Investidor) – Para um consumidor desavisado, a oferta de um vinho de R$ 568 por R$ 306 é tentadora. Ainda mais quando a garrafa em questão – o Nicola Catena Bonarda – é comercializado por um marketplace conhecido, o Extra, de propriedade da Via Varejo, empresa dona de marcas como Casa Bahia, Ponto e Bartira.

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Este vinho, no entanto, é mais um caso de golpes que estão inundando o mercado brasileiro de brancos e tintos, seja por plataformas de e-commerce, ou nas listas do aplicativo de mensagens WhatsApp. Depois da denúncia, veiculada inicialmente no Didu.com.br; a venda deste vinho foi bloqueada pela plataforma e a assessoria da Via Varejo informou que “está exigindo a documentação comprobatória sobre a procedência do produto”.

A Mistral, importadora exclusiva dos rótulos da Catena e do El Enemigo no Brasil, informa que o vendedor cadastrado no Extra.com.br não é seu cliente, o que é mais um indício de que o vinho pode ter entrado ilegalmente no Brasil. “A Catena está ciente do problema do descaminho. A vinícola limita as vendas para as províncias da fronteira, mas não tem como controlar no país inteiro”, afirma Otávio Lilla, diretor-executivo da Mistral.

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A denuncia levanta a questão de como se proteger de comprar vinhos contrabandeados. Devido a uma questão cambial da Argentina, que faz a diferença entre a cotação do dólar oficial e do paralelo, lá chamado de blue, ser quase o dobro, o descaminho de vinho vem crescendo na fronteira com o Brasil. Não há dados oficiais, mas são cada vez mais frequentes as notícias de apreensões de caixas e mais caixas de vinho vindas da Argentina, assim como as denúncias de importadoras brasileiras sobre garrafas que elas representam por aqui e que entraram ilegalmente no País.

Como fugir das fraudes

A melhor maneira de o consumidor se proteger é exigir a nota fiscal, física ou eletrônica, conforme o canal de compra. “Todo produto comprado pela internet deve vir acompanhado desta nota fiscal”, afirma Mariana Castriota, gerente sênior de marketplace da Magazine Luiza. Ela conta que, com a aceleração das compras por canais digitais, a empresa investiu em seus sistemas de controles para evitar a comercialização de produtos contrabandeados.

Um exemplo é um comunicado que foi enviado a todos que tentam cadastrar no marketplace da Magalu rótulos das argentinas Catena e El Enemigo. Para o vinho subir nesta plataforma, a empresa precisa apresentar documentos que comprovem a autorização da comercialização pela Mistral ou a importação do vinho legalmente. As duas vinícolas – que tem vários rótulos com altas pontuações dos críticos internacionais – parecem ser as campeãs do descaminho, mas não são as únicas.

Além da nota fiscal, para o consumidor, a melhor dica é conferir o contrarrótulo, que traz as informações da empresa que trouxe o vinho para o Brasil. Este cuidado é inviável nas compras pelas plataformas eletrônicas, mas possível nas lojas e nos restaurantes. “Já identificamos o descaminho de vinhos em lojas, restaurantes, principalmente aqueles fora dos grandes centros, e em muitas listas de whats app”, afirma Adilson Carvalhal Júnior, presidente da BFBA, associação que reúne as importadoras de vinho.

No caso das garrafas da Catena, há também um novo selo no rótulo que ajuda o consumidor a atestar a origem de sua garrafa. O selo, que começa a ser aplicado nas garrafas, informa que a Mistral é a importadora exclusiva da marca no Brasil. Sua criação mostra a importância do país para a vinícola argentina. “O Brasil está entre os nossos três principais mercados e estamos tomando uma série de medidas para combater o descaminho”, informa Cecília Rázquim, diretora de exportação da Catena.

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A terceira dica é desconfiar do preço. Variações de 10%, 15% são esperadas, pelas ofertas de cada loja, mas o consumidor deve tomar cuidado com os grandes descontos. Vale o ditado de que se a esmola é grande, o santo desconfia. O conselho é checar o preço do vinho pela internet. No caso dos vinhos argentinos, que estão liderando este atual descaminho, a grande maioria tem um contrato de exclusividade com uma empresa brasileira, que divulga o seu preço por aqui.

Outro ponto desde descaminho, aponta Carvalhal Júnior, é exatamente uma confusão dos valores dos vinhos. Para ele, a oferta de vinhos mais baratos não deve levar as vinícolas a reduzirem os seus preços de venda, até porque elas vendem pelo dólar oficial, o que reduz as suas margens no negócio. Mas, certamente, leva o consumidor a perder as bases dos preços dos vinhos.

Nada justifica o descaminho, mas Manuel Louzada, CEO da Almaviva, um dos grandes rótulos chilenos, lembra que os preços de vinhos no Brasil são, em média, dois terços acima do cobrado no mercado internacional resultado do chamado custo Brasil. “Um vinho de US$ 150 no mercado internacional custa o equivalente a US$ 250 no Brasil”, exemplifica ele.

BOX

O caminho do vinho

A percepção dos importadores brasileiros é que o descaminho do vinho argentino não se concentra apenas na fronteira entre os dois países. A diferença entre as cotações do dólar oficial e do dólar paralelo faz a pessoa comprar as suas caixas de vinho em lojas nas diversas províncias da Argentina e enviá-las por algum transporte terrestre para o Brasil.

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Além do comércio ilegal dos vinhos, há a questão de como estes grandes rótulos são armazenados nesta trajetória. As importadoras procuradas pelo E-Investidor mostram fotos de garrafas apreendidas nas piores condições possíveis. A mais comum é das caixas de vinho enroladas em lonas, escondidas embaixo de outras cargas. É um ambiente quente e seco, quando a boa conversação das garrafas pede temperaturas amenas. Alias, o ideal é o transporte climatizado.

E mais: o vinho é sensível ao cheiro em ambientes fechados – se tiver alguma dúvida, guarde a garrafa no armário de tempero e em breve o vinho ficará perfumado. A questão é que este “ambiente” em geral é perto de um tanque de gasolina e de um escapamento, odores que podem passar para a garrafa.

São armazenamentos que, certamente, comprometem a qualidade destes vinhos, muitos com altas pontuações dos críticos internacionais. O Gran Enemigo Single Vineyard Gualtallary, por exemplo, teve 100 pontos do crítico Robert Parker, na safra de 2013, e esta vinícola é uma das mais procuradas neste comércio ilegal.

“Só vamos vencer o descaminho com a consciência do consumidor”, afirma Adilson Carvalhal Júnior, presidente da Associação Brasileira de Importadores e Exportadores de Bebidas e Alimentos.

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