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Investimentos

Copom corta a Selic e reforça cautela — o que fazer com seus investimentos agora

BC reduz Selic e mantém juros em patamar elevado, favorecendo renda fixa e exigindo mais seletividade do investidor

Por Leo Guimarães

18/03/2026 | 18:35 Atualização: 18/03/2026 | 18:51

Conflito no Irã afeta os preços do petróleo, gerando pressão inflacionária. Foto: AdobeStock
Conflito no Irã afeta os preços do petróleo, gerando pressão inflacionária. Foto: AdobeStock

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central confirmou a mudança de humor do mercado e reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75%. A autoridade monetária adotou um ritmo mais cauteloso de afrouxamento monetário diante da persistência da inflação em meio ao ambiente de incertezas reforçado pela guerra no Irã e alta do petróleo.

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A decisão ficou abaixo da expectativa predominante de até duas semanas atrás, de corte de 0,5 ponto. Esse cenário vinha sendo projetado havia 23 semanas pelo Boletim Focus, mas começou a perder força após o início da guerra no Irã, duas semanas antes da reunião.

O conflito afetou os preços do petróleo em todo o mundo e reforçou a necessidade de uma condução mais gradual da política de juros, na avaliação de agentes de mercado. Antes dos reflexos da guerra nos postos de gasolina, houve uma piora das projeções inflacionárias, após o IPCA de fevereiro surpreender com alta de 0,70%.

  • Escalada do conflito no Oriente Médio pode desacelerar corte da Selic pelo Copom; veja projeções do mercado

“A inflação continua sendo a principal preocupação do Copom e limita um afrouxamento monetário mais agressivo”, comenta Guilherme Fiore, head da Mesa de Renda Variável da Pequod Investimentos, escritório credenciado à XP Investimentos, com base no Recife. “As projeções do Boletim Focus para a inflação no fim do ano pioraram, exigindo que o Banco Central adotasse um ciclo de cortes mais gradual e bastante cauteloso”, completa.

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Juros altos tendem a reduzir a atividade econômica e, com isso, a pressão inflacionária.

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Guerra no Irã e impacto na inflação global

O cenário geopolítico tem um peso na decisão do BC devido aos choques de oferta. A guerra no Oriente Médio provocou o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, fazendo o barril de petróleo Brent saltar de US$ 67 para perto de US$ 100. “Isso gera forte pressão inflacionária global via combustíveis e produtos derivados de petróleo”, diz Fiori.

O conflito também reflete o sentimento de aversão a risco, com investidores buscando ativos de maior segurança. O movimento faz o fluxo de investimentos sair de países emergentes, como o Brasil,  e provoca a valorização do dólar. Com isso, produtos importados, a exemplo do trigo, ficam mais caros, trazendo impacto nos preços de produtos básicos, como o pão.

A política fiscal também continua como elemento fundamental na avaliação do Banco Central, que permanece atento à trajetória de alta da dívida pública, com projeções de atingir 83,6% do PIB em 2026.

O que muda na renda fixa com a Selic ainda alta

As eleições de outubro acrescentam cautela no cenário lido pelo BC. “Em anos eleitorais, as incertezas fiscais tendem a aumentar, o que pode afetar expectativas inflacionárias e prêmios de risco“, comenta Arnaldo Lima, líder de RI da Polo Capita.

O foco do mercado agora é entender qual será a taxa terminal da Selic em 2026.

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As últimas estimativas para o fim do ciclo subiram de 12,13% para 12,25% ao ano, de acordo com o relatório Focus. “Seguem no radar inflação de serviços, comportamento do câmbio e o cenário externo, especialmente as decisões do Fed“, diz Tales Barros, líder de renda variável da W1 capital. Os preços das commodities energéticas também segue no radar.

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Pós-fixados seguem dominando no curto prazo

Para o investidor de renda fixa, o início do ciclo de cortes da Selic, agora em 14,75% ao ano, ainda preserva um patamar historicamente elevado de rentabilidade, permitindo ganhos reais relevantes antes de novas reduções na taxa básica. “Ativos pós-fixados continuam muito atrativos no curto prazo, porque seguem pagando bem com baixo risco. Ao mesmo tempo, prefixados e híbridos (IPCA+) começam a fazer mais sentido para quem acredita na continuidade do ciclo de cortes, já que ainda permitem travar taxas reais bastante interessantes”, diz Tales Barros da W1 Capital.

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Arnaldo Lima reforça que neste ambiente de taxa básica ainda elevada e cercado por incertezas geopolíticas, os ativos de renda fixa continuam a desempenhar papel central na alocação de portfólio. “A perspectiva de uma trajetória de queda da Selic mais gradual tende a favorecer ativos pós-fixados atrelados ao CDI”, diz.

Encontrar o melhor produto exige seletividade e atenção ao perfil do investidor. O momento é adequado para uma posição tática nos pós-fixados, que oferecem flexibilidade e pagam bem para quem tem paciência de esperar uma maior clareza sobre a trajetória dos juros. Mas a baixa volatilidade  também cai como uma luva para o investidor conservador. “Isso vale para Tesouro Selic, CDBs DI e fundos de liquidez eficientes”, observa Enrico Gazola, economista e sócio-fundador da Nero Consultoria.

Prefixados e IPCA+: oportunidade ou risco?

Os prefixados e IPCA + funcionam de forma diferente. Seguem a lógica de que renda fixa não garante estabilidade para quem resgata o investimento antes do vencimento. O valor dos títulos oscila devido à marcação a mercado (mudanças nas taxas de juros), o que significa que vender antes do vencimento pode resultar em perdas. E nestes casos, o prazo faz diferença.

Títulos com vencimento mais longo costumam ter uma sensibilidade (duration) muito maior às mudanças dos juros. “Com a volatilidade recente, essas classes exigem mais convicção e horizonte de investimento. Em um cenário ainda incerto, eu tenderia a preferir duration curta e média, em vez de alongar demais a carteira”, completa Gazola.

Neste cenário de juros ainda muito elevados, outro cuidado que o investidor precisa é com relação ao emissor.

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O caso do Banco Master mostra que é importante estar atento a CDBs de bancos médios que oferecem taxas muito superiores à praticadas pelos pares. Mesmo tendo o lastro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para aplicações de até R$ 250 mil, essa garantia não exime a dor de cabeça no caso de uma crise sistêmica.

  • FGC não é escudo total: 6 sinais de alerta antes de investir em CDB

Outros produtos com garantia do FGC como Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA),  também exigem cuidado redobrado. Esses papeis, apesar de serem emitidos por bancos, estão lastreados em títulos de dívida privada.

Crédito privado exige mais cautela

O risco aumenta um pouco mais para quem opta por debêntures, que são títulos de dívida.  Nesse rol entram ainda as debêntures incentivadas (títulos de dívida voltados ao financiamento de projetos de infraestrutura), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e do Agronegócio (CRA), instrumentos lastreados em créditos desses setores. São papeis que contam com isenção de Imposto de Renda para a pessoa física.

Os juros altos por um longo tempo passaram a expor fragilidades operacionais, elevando o custo da dívida de empresas. Hoje, empresas como Raízen (RAIZ4), Pão de Açúcar (PCAR3), Braskem (BRKM5) e CSN (CSNA3) enfrentam problemas para cumprir suas obrigações financeiras. O risco de crédito e exige seleção rigorosa de emissores.

  • Raízen e GPA: crise expõe fundos de Itaú, BB e grandes gestoras; veja a lista

A Raízen, por exemplo, apresentou um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. Guilherme Fiore diz que o pequeno corte de 0,25% na Selic não reduz a asfixia financeira de empresas brasileiras alavancadas. “Diante de eventos como esse, arriscar em debêntures e títulos corporativos atrelados a empresas fragilizadas exige extrema cautela, sendo preferível concentrar aportes em emissores de altíssima qualidade, também conhecidos como High Grade”, diz .

Gazola reforça dizendo que, no caso da Raízen, parte relevante dos detentores de debêntures e CRAs pode enfrentar perdas econômicas ou deságios relevantes. “O investidor precisa separar juro de crédito.”

Como montar a carteira neste cenário

Nos últimos anos, o mercado de capitais registrou uma forte expansão no financiamento das empresas, impulsionada pela substituição gradual do crédito subsidiado do BNDES após o fim da TJLP e a introdução da TLP, durante o governo de Michel Temer. Esse movimento levou ao crescimento expressivo de instrumentos como debêntures, CRIs, CRAs e fundos de crédito privado, que ampliaram as alternativas de financiamento corporativo.

Arnaldo Lima diz que esses instrumentos, no entanto, ainda se mantêm relevantes na composição de uma carteira de investimento diversificada, mas sempre com muito cuidado. “O crédito privado continuará demandando análise criteriosa de risco, spreads (ganhos acima de títulos públicos, teoricamente de menor risco) e qualidade dos emissores”, diz.

Simulação

A pedido do E-Investidor, Fabio Gallo, colunista do Estadão e professor de Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), elaborou uma simulação para avaliar o desempenho de investimentos em renda fixa, considerando a nova taxa Selic de 14,75% ao ano.

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O levantamento adota uma projeção de 4,10% para a inflação medida pelo IPCA, segundo dados do Boletim Focus, e uma rentabilidade anual da poupança estimada em 8,19%. A análise inclui cálculos de rentabilidade bruta, líquida — já descontados impostos e taxas — e rentabilidade real, que leva em conta a correção pela inflação, para um investimento inicial de R$ 1 mil.

Rent. Bruta em 1 ano Tx Adm. IR% em Reais Rentabilidade Líquida em Reais
Valor Real (descontada a Inflação)
LCA 97% 14,31% 0 143,08 96,21
LCI 97% 14,31% 0 143,08 96,21
CDB 116% 16,23% 32,45 129,8 83,48
Tes Selic + 0,01%aa 14,76% 0,25% 28,95 115,78 70,04
Fundo DI 14,75% 0,50% 28,35 113,41 67,76
Poupança Nova 8,19% 0 81,9 37,54
Poupança antiga 8,19% 0 81,9 37,54
Fundo DI2 14,75% 1% 27,21 108,82 63,36
Fundo DI3 14,75% 2% 24,91 99,64 54,55

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