IPO da Compass vai reabrir janela na B3? Entenda por que retomada ainda pode demorar
Primeira operação do tipo em 4 anos tem mais a ver com problemas da holding Cosan do que com um novo momento favorável na Bolsa; estreia da empresa acontece nesta segunda-feira (11)
B3 não registra um IPO desde setembro de 2021 e a Compass vai quebrar essa série nesta segunda-feira (11). Especialistas, porém, dizem que ainda é cedo para falar em volta de onda de abertura de capitais na Bolsa. (Foto: Gabriela Biló/Estadão)
A precificação final da oferta pública inicial (IPO) de ações da Compass, a primeira operação do tipo na B3 em mais de quatro anos, está marcada para esta quinta-feira (7). A operação, 100% secundária, pode chegar a R$ 5,097 bilhões, a depender da faixa de preço dos papéis, que vai de R$ 28 a R$ 35, e levanta uma discussão sobre a volta dos IPOs na Bolsa brasileira. A subsidiária da holdingCosan (CSAN3) estreia no mercado na próxima segunda-feira (11), com o ticker PASS3.
O IPO da Compass é um marco importante no mercado financeiro brasileiro, porque põe fim a um jejum de listagens na Bolsa de Valores que dura desde setembro de 2021, quando a Vittia (VITT3) estreou a B3. Mas, para especialistas, é preciso cuidado com a euforia antes de cravar que a janela de operações desse tipo finalmente foi reaberta.
O cenário macroeconômico é melhor do que foi nos últimos anos. Os juros começaram a cair, ainda que de forma gradual; a Bolsa voltou a receber fluxo de aportes e o Ibovespa oscila perto das máximas históricas. Ainda assim, a operação tem a ver muito mais com fatores micro.
“Alguns fatores começam a melhorar, mas ainda não é uma janela super favorável. O IPO da Compass se aproveita desse momento, mas passa também pela necessidade de reestruturação da controladora, a Cosan”, diz Fabiano Vaz, sócio e analista de ações da Nord Investimentos.
O IPO da Compass é uma oferta secundária, ou seja, vende ações que estão nas mãos dos atuais acionistas para novos investidores. O dinheiro não vai para o caixa da empresa, como acontece em uma oferta primária, mas para os donos anteriores daquelas posições. Neste caso, a holding Cosan.
O grupo de Rubens Ometto – composto pelas subsidiárias Rumo (RAIL3), Raízen (RAIZ4), Compass, Moove e Radar – já vem há algum tempo com problemas de alavancagem e endividamento. No fim de 2024, mudou o board (Conselho de Administração) das subsidiárias numa tentativa de ajustar a estrutura de capital e anunciou venda de ativos para ganhar liquidez.
Naquele ano, tentou listar em Nova York a Moove, mas desistiu por “condições adversas de mercado”. Depois, em janeiro de 2025, vendeu os mais de 4% que detinha da Vale (VALE3), utilizando os recursos para abater a dívida líquida. O movimento ia de encontro com a pressão do mercado, que colocava na avaliação da Cosan a necessidade de melhoria no desempenho operacional das subsidiárias mais problemáticas e fortalecimento da estrutura de capital.
Para Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos, a Cosan chegou ao limite do que conseguia fazer internamente. “Com uma dívida líquida consolidada que pesou sobre as ações da holding nos últimos anos, o IPO da Compass não é um movimento de oportunismo de mercado, mas uma necessidade de engenharia financeira. A lógica é trazer capital externo para um ativo que, dentro da estrutura da holding, carregava o desconto clássico de conglomerado”, explica.
O mercado vê a operação com bons olhos, porque deve permitir que a Cosan avance na desalavancagem justamente porque a Compass é considerada um ativo “estável”. Afinal, trata-se de uma empresa de gás com concessões para Estados que tem receitas previsíveis e reajustadas pela inflação; é comum ver a subsidiária sendo chamada de “joia da coroa” da holding. E a listagem tende a ser positivo também para ela.
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“Para a Cosan, significa oxigênio puro e vai permitir para a empresa reduzir a dívida líquida e focar na capitalização de outras frentes, como a própria Raízen”, diz Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos. “Além disso, quando a Compass for listada separadamente, elimina o desconto de holding e permite que o mercado financeiro precifique o ativo de gás e energia de forma isolada. Geralmente, com múltiplos mais atraentes devido à resiliência do setor de infraestrutura.”
Cedo para falar sobre uma nova janela de IPOs
A listagem da Compass é o primeiro IPO na B3 desde a última safra, de 2020 e 2021, quando 62 empresas estrearam na Bolsa. Desde então, o País passou por uma seca de quatro anos sem nenhuma nova operação, um período em que as empresas viram os juros e o custo do capital subirem, enquanto o apetite dos investidores caiu.
Há tempos o mercado se questiona sobre quando as condições macro e microeconômicas permitiram que uma nova janela de IPOs se abrisse. A Compass agora puxa a fila, mas não indica necessariamente essa reabertura. Cleiton Souza, da Private, destaca que é “apressado” classificar a oferta de ações assim.
“Uma operação bem-sucedida em um ativo defensivo não significa que o mercado está pronto para receber qualquer empresa de crescimento com valuation (valor de mercado) esticado”, afirma.
Além da Compass, a B3 tem apenas uma outra oferta em andamento. A Copasa, companhia de saneamento de Minas Gerais cuja privatização foi aprovada pelo governo do estado em dezembro de 2025.
Se a operação da Compass tiver sucesso, ou seja, se as ações forem precificadas em um patamar atrativo e houver demanda forte pelos ativos, passa um bom sinal. Poderia, sim, incentivar outras companhias a seguirem o mesmo caminho. Mas ainda falta o principal: uma queda de juros mais clara e significativa.
Ainda que o Banco Central (BC) tenha iniciado em março deste ano o ciclo de afrouxamento monetário, tendo já reduzido a Selic de 15% ao ano em dois ajustes de 0,25 ponto porcentual – para os atuais 14,50% ao ano –, há uma incerteza em relação a quão longe será possível chegar. A guerra no Oriente Médio piorou o cenário, as expectativas de inflação longas voltaram a desancorar e a projeção do mercado para os juros ao final de 2026 já subiu para 13% – um patamar ainda restritivo para as empresas.
“O cenário do último IPO na Bolsa era bem diferente: a taxa Selic estava em 5,25% e o apetite para ativos de risco como ações era maior. Juros em um patamar menos elevado e inflação controlada fazem com que o apetite dos investidores aumente, buscando ativos como ações para composição de portfólio e, consequentemente, gerando um aumento na demanda para ações já negociadas na Bolsa e IPOs”, pontua Igor Ribeiro, sócio e Head de Renda Variável da Nippur. Por enquanto, isso ainda está em falta no mercado brasileiro.