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Mercado

Os gigantes também caem: Fundo Verde no vermelho e Ponta Sul ‘stopado’

Entenda o que afetou os fundos de investimento de gestores lendários do mercado

Por Jenne Andrade

11/01/2022 | 3:00 Atualização: 11/01/2022 | 7:19

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Os últimos dois anos ganharam um capítulo especial na história dos mercados financeiros. Em 2020, uma situação que a maioria só tinha visto em filmes, virou realidade: um vírus novo se espalhou pelo mundo, vitimou milhões de pessoas e paralisou a atividade de diversos países. As bolsas mundiais reagiram com grandes quedas, mas logo conseguiram retomar na esteira do avanço das vacinas.

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Em 2021, a inflação deu as caras como resultado da quebra das cadeias produtivas globais. No Brasil, entretanto, fatores antigos pesaram ainda mais sobre a economia. A briga entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) sacolejou o Ibovespa, mas foram as discussões em direção à quebra do teto de gastos que provocaram grandes temores entre os investidores.

O resultado foi uma queda de 11,9% do principal índice de ações da B3, consolidando a Bolsa de Valores brasileira como a segunda pior bolsa do mundo no ano passado, atrás somente de bolsa da Venezuela, de acordo com dados da agência Austing Rating. O ambiente doméstico de alta aversão a risco, na contramão do que foi observado no resto do mundo, impactou os ativos e não poupou nem os maiores gestores.

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O famoso Fundo Verde, do lendário gestor Luis Stuhlberger, terminou o ano passado no ‘vermelho’. A última (e única) vez que a aplicação havia terminado um exercício no negativo tinha sido em 2007. É importante ressaltar que o Verde tem um dos desempenhos mais sólidos entre os fundos multimercados brasileiros e é conhecido pela performance impecável, inclusive em tempos de crise. Em 24 anos, somou uma alta de mais de 18.000%.

Portanto, a queda acumulada de -1,13% não passou em branco. Em outubro, período em que o fundo teve a maior baixa mensal, de -4,39%, uma das mais fortes declarações foi emitida ao mercado. Juntamente a Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset, Stuhlberger escreveu que o ministro da economia ‘Paulo Guedes’ havia escolhido a desonra ao apoiar medidas que vinham na contramão da austeridade fiscal.

“O posicionamento do fundo claramente se mostrou frágil dados os eventos que transcorreram no Brasil nos últimos meses. Acreditávamos que havia bastante notícia ruim no preço, e que os agentes políticos tinham incentivos razoáveis para não romper o teto dos gastos. Essa visão se provou errada”, aformaram os especialistas no documento.

O monstro foi stopado?

Contudo, Sthulberger não foi o único ‘monstro’ do mercado que teve problemas nos últimos meses. O misterioso fundo Ponta Sul, de Flávio Calp Gondim, perdeu quase R$ 9 bilhões na semana passada com a queda das ações do Inter, segundo informações do Mais Retorno. Gondim é conhecido como o ‘Monstro do Leblon’ e é o único cotista da aplicação, ou seja, gere a própria fortuna.

O fundo Ponta Sul é famoso pela estratégia extremamente arrojada e por operar alavancado em poucos papéis – sendo o Inter a posição de maior peso no portfólio. Com a derrocada de quase 70% nas ações do banco desde julho do ano passado, Gondim precisou se desfazer das ações para conter perdas e provocou um movimento de grande baixa nos papéis. Somente na terça-feira (4), as units caíram 13,68%.

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“Ele chegou a ter uma posição de quase R$ 2 bilhões em Inter, uma coisa absurda. Então ele estava em uma operação muito alavancada, e como os papéis vieram caindo, as corretoras começaram a pedir que ele diminuísse as posições ou iriam ‘stopar’ (ordem de venda quando atinge um limite máximo de prejuízo)”, afirma Vitor Miziara, sócio da Criteria investimentos.

O Monstro do Leblon vendeu 20 milhões de units do Inter a R$ 21. Com o desmantelamento de posição, o patrimônio do Ponta Sul chegou a R$ 790,7 milhões, ante os R$ 9,44 bilhões alcançados em julho (dados do Mais Retorno). E não é a primeira vez que o fundo passa por dificuldades.

A gestão arrojada fez o fundo passar por maus bocados no início da pandemia, com o impacto da crise do coronavírus na Bolsa. Em 13 de janeiro de 2020, o patrimônio na aplicação era de R$ 5,3 bilhões. Dois meses depois, em 24 de março de 2020, havia menos de R$ 500 milhões de patrimônio. Entretanto, o ‘monstro’ fez jus ao apelido e conseguiu recuperar o capital bilionário em poucos meses. Agora, perdeu boa parte do capital novamente e se tornou ‘ex-bilionário’.

“O mercado falou muito desse stop-loss. Alguns analistas dizem que por conta das alavancagens do Ponta Sul ele pode ter tido uma chamada de margem, mas ações reagiram na sexta-feira (7), com uma alta de 15%”, afirma Mario Goulart, analista da O2Research. “Muita gente começa a falar que comparando banco digital com banco digital, Inter começa a ser uma boa opção frente ao Nubank.”

Tubarões versus sardinhas

Na visão de Miziara, situações como a do Ponto Sul deixam uma lição para o pequeno investidor. “É preciso olhar as pessoas que tem grandes posições nas empresas nas quais você está investindo. Nesse caso todo mundo sabia que o ‘Monstro do Leblon’ estava entrando em Inter só por especulação, então alguns investidores já estavam com o pé atrás em relação ao papel, porque sabiam que a qualquer hora ele sairia”, explica. “Deixa algum receio, porque é uma parcela grande de uma empresa nas mãos de um único trader.”

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Por outro lado, a resiliência de grandes gestores, como Gondim e Stuhlberger, devem ser copiadas. “Diferentemente das pessoas físicas, esses caras aproveitam as baixas de mercado, distorção e eventos de curto prazo para adequar, ajustar e até aumentar posições. Os fundos estão voltando a comprar Bolsa, aproveitando pechinchas, enquanto muitos investidores pessoas físicas fazem o contrário”, conclui Miziara.

Já para Juan Espinhel, especialista em investimentos na Ivest Consultoria, a baixa nos papéis do Inter e dos demais bancos digitais lançam um alerta importante. O movimento vendedor acontece na esteira da alta dos juros futuros, que tendem a tornar a monetização da base de clientes dessas empresas mais difícil, além de dificultar financiamentos.

“São empresas que necessitam de caixa para se manter, com a elevação de taxa de juros esse financiamento fica mais caro e o resultado pode ser pior”, afirma Espinhel. “Estamos vendo agora que talvez esses bancos não sejam tão lucrativos assim. Eles tem uma base de clientes enorme, que ainda não traz uma rentabilidade sustentável no longo prazo, e não se sabe ainda quando esses bancos irão virar a chavinha e lucrar”, alerta.

Procurado, o Fundo Verde afirmou que “não será possível encaminhar um posicionamento”. Representantes do Ponta Sul não foram encontrados.

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