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Mercado

Como a volta dos irmãos Batista à JBS (JBSS3) afeta o preço das ações?

Irmãos estavam afastados formalmente da gestão desde 2017, quando participaram de delação premiada na Operação Lava-Jato

Por Jenne Andrade

27/03/2024 | 17:53 Atualização: 27/03/2024 | 19:11

Os “irmãos Batista” estavam afastados formalmente da administração da JBS desde 2017. (Foto: Marcus em Adobe Stock)
Os “irmãos Batista” estavam afastados formalmente da administração da JBS desde 2017. (Foto: Marcus em Adobe Stock)

A JBS (JBSS3), maior produtora de carne bovina do mundo, pretende recolocar os executivos Joesley e Wesley Batista no Conselho de Administração da companhia. A proposta feita pela empresa deve ser votada pelos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária marcada para 26 de abril. Com o possível retorno deles, o número de assentos no conselho deve aumentar de 9 para 11.

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Os “irmãos Batista” estavam afastados da administração da JBS desde 2017, quando assumiram o pagamento de propinas e envolvimento da companhia em corrupção, no âmbito da Operação Lava-Jato. Na época, o escândalo afetou fortemente não só os papéis do frigorífico, como a Bolsa em geral.

Um dos episódios mais marcantes aconteceu em 18 de maio de 2017 e ficou conhecido como “Joesley Day”. Após o vazamento de conversas entre Joesley e o então presidente da República Michel Temer, em que o líder do Executivo dava aval para a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o Ibovespa caiu 8,8%, maior derrocada em 9 anos.

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O temor em relação aos Batista representa, inclusive, uma barreira para a entrada da empresa em Bolsas estrangeiras. Um movimento chamado “Ban the Batistas” busca evitar a listagem da JBS na Bolsa de Nova York (NYSE) e acusa a companhia de provocar dano ambiental e se envolver em corrupção, além de outras ações ilícitas.

Polêmico, retorno dos Batista era “previsível”

Ainda que o histórico dos irmãos Batista pese negativamente, o retorno deles à administração da empresa não é visto como novidade. Segundo Victor Bueno, sócio e analista de Ações da Nord Research, este era um passo “previsível” . Até por isso, diz, os papéis não estão respondendo tão negativamente à notícia. Até as 16h45, a JBSS3 cediam 2,19%, aos R$ 21,90, patamar que mantiveram até o fechamento do pregão desta quarta-feira (27).

“Eles ficaram 7 anos afastados depois de tudo que aconteceu em 2017, com o Joesley Day, mas continuaram sendo os principais controladores da empresa”, afirma Bueno. “Assim como já faziam, vão continuar interferindo nas decisões da companhia. Não muda nada. É uma sinalização ruim para o mercado, mas nada que surpreenda falando de Brasil.”

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O analista independente Mario Goulart também vê com certa neutralidade a questão. “Eles fizeram bem em se afastar quando houve toda aquela confusão do Temer e agora que a poeira abaixou, estão de volta. Apesar de toda a confusão ética que os envolve,  não há nada que impeça. Goste ou não deles, transformaram o açougue do pai em um dos maiores frigoríficos do mundo”, diz.

Goulart lembra ainda que mesmo nos Estados Unidos onde, afirma, o mercado tem uma postura mais rigorosa em relação a este tipo de questão, os irmãos Batista voltaram ao conselho da Pilgrim’s Pride, subsidiária local da JBS. Para o analista, a novidade não deve trazer grandes reviravoltas nas recomendações para os papéis da companhia de alimentos.

Felipe Pontes, da L4 Capital, segue a mesma linha de pensamento. O especialista questiona o nível de afastamento deles da gestão da empresa, ainda que em teoria, não ocupassem mais cargos na administração há sete anos. “Tenho sérias dúvidas com relação ao fato de eles terem se afastado de alguma atividade um dia. Nós todos sabemos como funciona a governança corporativa no Brasil e o papel de ‘quem deveria estar nos protegendo’, nessa falta de proteção”, afirma Pontes.

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O analista também ressalta que, operacionalmente, a JBS mostrou capacidade de superar as adversidades passadas, com crescimento forte de receita nos últimos anos. Ou seja, independentemente da participação direta dos irmãos Batista no conselho ou não, a visão é de que a empresa conseguiu expandir, com rentabilidade, apesar de em 2023 ter enfrentado dificuldades.

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Pontes afirma que com a volta oficial dos irmãos Batista à JBS a revisão das recomendações para JBSS3 seria esperada, devido ao “histórico prévio de governança questionável”. “Todavia, um analista experiente já deveria ter na conta que eles (Joesley e Wesley Batista) que mandam, de fato, na empresa”, diz o especialista. “Neste patamar de preço, eu não alocaria recursos dos meus clientes na JBS”, completa.

A Ativa Research reforça a recomendação de compra para as ações e que o foco da JBS, hoje, é a dupla listagem (na B3 e nos EUA). “A entrada dos irmãos Batista não altera a nossa tese. A empresa, entre os frigoríficos, é a mais diversificada que nós temos. Nossa tese se baseia nas operações da empresa”, destaca a casa.

Já Frederico Nobre, head de análise da Warren Investimentos, vê a volta dos irmãos como negativa. No entanto, como a maioria dos conselheiros de administração continua independente e os principais acionistas já exerciam influência na companhia, os fundamentos da tese não devem ser alterados.

Recomendações do mercado para a JBSS3

Prejudicado pelo ciclo de menor oferta de gado nos EUA, a JBS apresentou um resultado negativo de R$ 1,1 bilhão no ano passado. Ainda assim, as perspectivas para empresa são consideradas positivas pela maior parte dos analistas.

De 20 instituições que cobrem o papel, 17 possuem indicação de compra, 3 estão com recomendação neutra e nenhuma indica a venda. Na média, o preço-alvo está em R$ 32,19, o que representa um potencial de alta de 47% em relação ao patamar do último fechamento, de R$ 21,90. Os dados estão expostos no site de Relações com Investidores (RI) da companhia.

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O Itaú BBA, por exemplo, tem recomendação “outperform” (equivalente à compra) para JBSS3, com preço-alvo de R$ 31. Ou seja, um potencial de alta de 41,5% em relação a quarta-feira (27). Segundo a instituição, os números do quarto trimestre de 2023 ficaram abaixo do esperado, com o maior impacto negativo da divisão de carne bovina dos EUA, mas as expectativas de longo prazo seguem “atraentes”.

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“A estrutura de capital parece robusta”, afirma o Itaú BBA. “No geral, continuamos a preferir a JBS no setor de proteínas, embora reconheçamos que aqueles com um universo de cobertura maior podem potencialmente mudar para nomes com gatilhos de curto prazo mais claros.”

A Genial Investimentos também possui recomendação de compra para JBSS3, com preço-alvo de R$ 30. Para a casa, o resultado do quarto trimestre de 2023 foi misto, com o frigorífico reportando uma rentabilidade “sequencialmente pior”, especialmente na operação norte-americana, mas com uma receita acima do esperado.

A receita totalizou R$ 96,3 bilhões no período, uma alta de 3,7% em comparação ao quarto trimestre de 2022. “Olhando adiante, prevemos uma melhoria gradual e sequencial nas margens de todos os segmentos ex-JBS Beef North America”, diz a Genial. “Esperamos também a eventual aprovação do processo de dupla listagem das ações nos EUA, o que consideramos ser um trigger (gatilho para valorização) de curto prazo.”

Nobre, head de análise da Warren Investimentos, tem recomendação de compra para JBSS3, com expectativa de que os resultados de 2024 e 2025 sejam melhores do que no ano passado. “O nível de alavancagem da JBS está controlado (mesmo em um ciclo desfavorável) e melhor do que as concorrentes em termos de saúde financeira”, diz.

Oportunidade de compra para a ação da JBS

O BTG Pactual também possui recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 35. Contudo, o banco reforça a visão mista de que a JBS apresentou um resultado operacional mais fraco nos últimos resultados, assim como um fluxo de caixa mais forte. “A JBS continua sendo nossa principal escolha de proteínas”, afirmou o BTG, em relatório. “Não acreditamos que os investidores irão receber bem os resultados do quarto trimestre de 2023, mas compraríamos com base na fraqueza. São necessários alguns esclarecimentos sobre a operação de carne bovina nos EUA.”

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Já a Nord não recomenda a compra de JBSS3 por ver a companhia “sofrendo bastante” nos últimos trimestres em função da grande exposição ao mercado americano, que passa por um ciclo desfavorável do gado. Hoje, o frigorífico tem 80% da receita líquida por produto atrelada aos EUA.

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“Enquanto que no Brasil temos um ciclo muito positivo, com maior disponibilidade para o abate, as empresas pagam menos pelo gado por ter mais animais para serem vendidos. E todos os frigoríficos ganham com esse spread (diferença entre os custos e os preços de venda)”, afirma Bueno. “Isso não acontece com a JBS, porque lá o ciclo do gado está desfavorável, o custo é mais alto e o spread mais curto. Não há visibilidade no curto prazo de que isso melhore”, diz.

A casa possui recomendação para Minerva (BEEF3), que tem grande parte das operações no Brasil.

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