Estive recentemente em viagem ao Brasil. Um momento oportuno, com alguns brasileiros questionando a tese e a importância do investimento no exterior ou mesmo do dólar como um ativo de segurança para seus portfólios.
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Estive recentemente em viagem ao Brasil. Um momento oportuno, com alguns brasileiros questionando a tese e a importância do investimento no exterior ou mesmo do dólar como um ativo de segurança para seus portfólios.
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Compreensível. Vemos os EUA envoltos em um conflito com o Irã, temos a persona controversa de Donald Trump e, em especial, a queda do dólar, que atinge patamares não vistos em alguns anos.
O investidor olha e pensa: “Foi um mau negócio investir em dólar” e “quem investiu em dólar perdeu dinheiro” ao observar os últimos 12 ou 15 meses. De forma polida, recebi esses questionamentos quando estive no Brasil.
Na verdade, depois de anos acompanhando de perto o comportamento do investidor brasileiro e ajudando milhares a construírem patrimônio no exterior pela Avenue, aprendi uma lição simples e poderosa: a cotação do dólar não é a variável mais importante quando você decide investir fora do Brasil. O preço do dólar não é a variável-chave quando o assunto é investimento no exterior.
É sobre isso que quero falar. Meu objetivo aqui é te provocar e subverter a sua lógica sobre essa importante questão acerca do investimento no exterior — ou seja, a questão da cotação do dólar!
O investidor brasileiro, historicamente, foi condicionado a olhar o dólar como um preço — quase como se fosse um ativo especulativo. Se está alto, assusta e, em alguns casos, paralisa: “Vou esperar o dólar cair para investir lá fora”. Se está baixo, anima, mas também provoca a expectativa de que ele pode cair mais: “Vou esperar o dólar cair para investir lá fora”.
E assim o tempo passa enquanto esperamos. O investidor ignora um custo invisível, mas elevado: o custo da inércia. Enquanto você espera o “dólar ideal”, deixa de participar do crescimento de empresas globais, mantém sua carteira concentrada em um único país e perde tempo — esse, sim, o ativo mais valioso no processo de acumulação de patrimônio. No longo prazo, a diferença entre começar hoje e começar “no momento perfeito” pode ser enorme.
Vou te dar um exemplo que ilustra esse conceito.
Imagine dois investidores: (i) o primeiro, aquele que esperou o dólar cair de R$ 5,00 para R$ 4,70 para investir; (ii) o segundo, que começa a investir imediatamente, independentemente da cotação, focando em bons ativos. Agora imagine que, nesse período, o mercado norte-americano sobe 15% — me refiro aqui à bolsa de valores, mas poderia ser qualquer outro tipo de ativo.
O investidor que “esperou o dólar melhorar” pode ter economizado alguns centavos na moeda, mas perdeu a valorização dos ativos. Já o segundo investidor, mesmo comprando um dólar teoricamente mais caro, participou da alta do mercado.
Esse exemplo ilustra um ponto central: o retorno dos ativos costuma ter um impacto muito maior do que pequenas variações cambiais no curto prazo. Em outras palavras, acertar o ativo tende a ser mais relevante do que tentar acertar o câmbio.
O momento atual é deveras pertinente para essa questão, pois estamos vivendo na prática essa lógica. Nos últimos 12 meses (entre abril de 2025 e abril de 2026), o dólar caiu cerca de 15%. No mesmo período, o índice S&P 500 da bolsa norte-americana teve alta de cerca de 30%.
Outro problema nessa visão de esperar o momento ideal é que ela ignora um ponto essencial: quando você investe no exterior, o dólar deixa de ser apenas um preço e passa a ser um meio. Um meio para acessar mercados, empresas, fundos e alternativas de investimento do mundo. Um meio para diversificar sua carteira e para proteger seu patrimônio contra riscos locais. Ou seja, o dólar é a porta de entrada — não o destino final.
Quando alguém investe nos Estados Unidos, não está comprando apenas dólares. Está comprando acesso a empresas líderes globais, setores pouco representados no Brasil – como tecnologia, saúde avançada, robótica e inteligência artificial (IA), entre outros –, renda fixa em moeda forte, fundos imobiliários (FIIs) globais e ativos expostos ao crescimento mundial.
Outro fator que reduz a importância da cotação específica do dólar é o seguinte: a decisão de esperar, ou de não investir de forma dolarizada, é uma decisão de concentrar o patrimônio no real. É uma decisão de aumentar a dependência de um único país, uma única moeda e um único ciclo econômico. Não comprar dólares é, em última instância, comprar reais — apostar que a moeda brasileira vai se valorizar mais.
O problema disso é que o real não se comporta como uma moeda “neutra”. Ele anda de mãos dadas com o apetite por risco global.
Mais uma vez, o momento atual ajuda a confirmar essa tese. A bolsa norte-americana atinge novas máximas históricas, a bolsa brasileira atinge o marco de 200 mil pontos, bolsas do mundo têm se valorizado e moedas de outros países emergentes também performam positivamente com a expectativa de um cessar-fogo no Oriente Médio. Não é coincidência que o real também tenha tido uma performance positiva.
Já quando o jogo muda e o mundo teme por algum motivo diverso — crise, pandemia, inflação alta, guerra —, os investidores historicamente buscam segurança no dólar, no ouro e em Treasuries (títulos públicos dos EUA). O real, como moeda de país emergente, vai para o outro lado: desvaloriza forte. Foi assim em 2008, em 2020 e em vários momentos de estresse.
Não investir de forma dolarizada, esperar ou focar somente na cotação do dólar significa ignorar esses conceitos e verdades óbvias e observáveis.
Para encerrar, quero deixar três reflexões diretas:
Eu entendo ser natural que o brasileiro tenha sensibilidade ao dólar. Vivemos décadas em uma economia marcada por inflação alta, crises cambiais e instabilidade. O câmbio virou termômetro emocional.
O problema é que, enquanto discutimos se a taxa de câmbio vai ficar em R$ 5,00, cair para R$ 4,50 ou subir para R$ 5,50, o mercado norte-americano continua acontecendo, os dividendos são reinvestidos e os juros compostos trabalham a nosso favor.
No fim do dia, investir no exterior não é sobre prever o dólar, mas sobre construir futuro. E isso começa com uma decisão, não com uma cotação.
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