A gestão da empresa apontou que a qualidade dos ativos do agro ainda é influenciada por créditos originados antes do aperto nos critérios de concessão em julho de 2025. Embora as safras mais recentes já mostrem melhor desempenho, elas representam uma parcela relativamente pequena dos vencimentos (cerca de 20% do total em abril).
Como resultado, as tendências de curto prazo do BB ainda devem refletir a dinâmica da carteira antiga, com o primeiro trimestre de 2026 “apertado”. Por isso, Geovanne Tobias, CFO do banco, espera que a empresa siga uma trajetória de recuperação em “W”– ou seja, com nova queda antes da retomada.
Na avaliação do Itaú BBA, um dos principais destaques do evento foi o gráfico que detalha o cronograma de pagamentos da carteira de agronegócio de R$ 65 bilhões que foi prorrogada. Esses créditos foram alongados após produtores enfrentarem condições adversas. “O que chama atenção é que cerca de 36% desse montante vence em 2026, um volume significativo, especialmente considerando margens pressionadas por preços mais baixos de commodities e juros elevados”, destaca o BBA.
Essa carteira possui cerca de R$ 14 bilhões em provisões, sendo R$ 7 bilhões já inadimplentes, o que resulta em cerca de R$ 7 bilhões em provisões para os R$ 23 bilhões que ainda vencem neste ano. Para o BBA, essa concentração relevante de pagamentos em 2026 reforça a cautela com as despesas de provisão ao longo do ano.
Por outro lado, há sinais iniciais de estabilização, com menos pedidos de recuperação judicial (RJ). Novas entradas de RJ no primeiro trimestre de 2026 caíram para R$ 1,34 bilhão, ante R$ 1,84 bilhão no terceiro trimestre de 2025. Analistas veem isso como um sinal positivo, embora o nível ainda seja elevado e haja maior concentração de dívidas à frente.
BTG e Safra cortam preço-alvo de BBAS3
Mesmo tendo encarado com bons olhos a maior divulgação de informações e transparência, o BTG Pactual concluiu que o guidance (projeção de resultados) do BB para 2026 está em risco, já que a empresa deve passar por uma recuperação mais lenta.
Diante desse cenário, o BTG revisou suas estimativas, passando a projetar provisões maiores para o BB, com crescimento anual de cerca de 5% em 2026 para aproximadamente R$ 64,7 bilhões (13% acima do teto do guidance), seguidas de normalização gradual.
O BTG estima lucro líquido de R$ 3,5 bilhões para o Banco do Brasil no primeiro trimestre de 2026, com Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) de 7,4%. As projeções de lucro por ação para 2026 a 2028 foram cortadas em 16,5%, 13% e 11%, respectivamente.
Agora o BTG estima:
- Lucro de R$ 20,1 bilhões, com ROE de 10,3%, em 2026;
- Lucro de R$ 26,1 bilhões, com ROE de 12,6%, em 2027;
- Lucro de R$ 32 bilhões, com ROE de 14,1%, em 2028.
Com a piora no cenário de resultados, o BTG também reduziu o preço-alvo da ação BBAS3 de R$ 26 para R$ 25, com recomendação neutra. O banco avalia que, atualmente, o papel não parece caro, mas também não está especialmente atrativo frente ao histórico.
“Diante da expectativa de novas revisões negativas de lucro, mantemos uma postura cautelosa. Entre os grandes bancos brasileiros, o Itaú segue como nossa única recomendação de compra, enquanto preferimos Bradesco (BBDC4) à BBAS3 no momento”, afirma o BTG.
O Safra foi na mesma linha e reduziu o preço-alvo do Banco do Brasil de R$ 28 para R$ 27 após o Investor Day, mantendo recomendação neutra para o papel.
Os analistas do banco ressaltaram que o cenário permanece “altamente incerto”, com fatores externos agravantes como os conflitos geopolíticos e seu impacto nos custos de insumos agrícolas, o elevado ritmo de pedidos de recuperação judicial entre produtores rurais e os potenciais efeitos do fenômeno natural La Niña.
XP e BBA sinalizam cautela
A XP vê alguns avanços na carteira do BB, como um cronograma de vencimentos mais equilibrado, mas ainda aponta desafios. O cenário está pressionado por alta dos preços de fertilizantes em meio à incerteza geopolítica, câmbio depreciado em termos de atratividade para o produtor, menor volume de garantias remanescentes e risco de nova deterioração em RJ à medida que os vencimentos se aproximam.
No geral, a casa vê uma relação risco-retorno assimétrica para o lado negativo e acredita ainda ser cedo para adotar uma visão mais construtiva sobre a tese. Isso mantém a XP cautelosa com a perspectiva para o agro e sustenta a recomendação neutra para BBAS3, com preço-alvo de R$ 25.
Para o Itaú BBA, a mensagem principal do Investor Day foi de um cenário positivo no médio prazo, mas ainda com um primeiro semestre desafiador. O primeiro trimestre, mesmo com ROE estimado abaixo de 10%, pode ser seguido por trimestres ainda mais difíceis, na visão do BBA.
A casa mantém recomendação market perform (equivalente à neutra) para o BB, com preço-alvo de R$ 22, reconhecendo o potencial de longo prazo, mas com risco de revisões negativas de lucro no curto prazo.
O BBA estima lucro de R$ 21 bilhões em 2026 para o Banco do Brasil, abaixo do guidance de R$ 22 a 26 bilhões do banco. “Permanecemos abaixo do consenso e do guidance nas estimativas de lucro para 2026 e mantemos uma visão cautelosa para o papel”, ressalta.