Por quanto tempo o Tesouro Direto continuará atrativo? Veja os 4 fatores que influenciam os títulos e qual rende mais
Com Selic em 14,50% ao ano, inflação pressionada e cenário global incerto, títulos públicos oferecem prêmios considerados históricos, especialmente nos vencimentos intermediários e longos
Com juros elevados, Tesouro Direto mantém retornos atrativos, mas volatilidade da curva exige atenção do investidor (Foto: Adobe Stock)
Os títulos do Tesouro Direto estão em um dos momentos mais atrativos das últimas duas décadas. Com inflação ainda pressionada, juros altos (na casa dos 14,50%) e incertezas no ambiente global, os papéis públicos passaram a oferecer prêmios considerados raros pelo mercado, especialmente nos vencimentos mais longos. Nesta quinta-feira (7), o título com o maior retorno é o Educa+ com vencimento em 2030, que paga IPCA + 7,95%.
Segundo André Matos, CEO da MA7 Negócios, a ata da 278º reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) mostrou que o Banco Central seguirá adotando uma política monetária restritiva por mais tempo. Além disso, o Boletim Focus desta semana elevou novamente as projeções de inflação. O mercado agora espera IPCA de 4,89% para 2026 (a oitava alta consecutiva nas estimativas) além de IGP-M em 5,50% e Selic terminal consolidada em 13,00%.
“O BC foi explícito ao reconhecer a desancoragem das expectativas de inflação, com Brent acima de US$ 107 após Trump rejeitar a última proposta iraniana, e o mercado entendeu que o ciclo de cortes será calibrado e dependente de dados, sem qualquer guidance (projeção) para junho”, explica.
Hoje, o Tesouro Prefixado 2029 opera próximo de 13,67%, enquanto o Prefixado 2032 gira em torno de 13,75%. Já os papéis indexados à inflação também chamam atenção: o Tesouro IPCA+ 2029 oferece retorno ao redor de IPCA + 7,56%, e o IPCA+ 2060 voltou a superar a marca de IPCA + 7% ao ano.
O que influencia as taxas daqui pra frente?
“Daqui para frente, quatro frentes vão ditar a dinâmica das taxas”, afirma Matos. A primeira delas, segundo ele, é o desfecho do conflito no Oriente Médio, que influencia diretamente os preços do petróleo e, consequentemente, a inflação global. A segunda envolve a entrada de Kevin Warsh à frente do Federal Reserve em 15 de maio. O executivo é visto como favorável a cortes de juros, mas mais duro em relação à redução do balanço da autoridade monetária americana, o que pode alterar o fluxo de capital para países emergentes como o Brasil.
O especialista também cita a importância dos próximos índices de inflação no Brasil. Além disso, ele considera que o principal ponto de atenção continua sendo a situação fiscal brasileira, especialmente diante da projeção de déficit primário de 0,50% do Produto Interno Bruto (PIB) e dívida líquida próxima de 69,90%.
“Para o investidor, a leitura é objetiva. O carrego está alto, os prêmios estão historicamente elevados, mas a marcação a mercado segue volátil. Travar essas taxas hoje significa proteger poder de compra por uma década, ainda que oscilações no caminho façam parte do jogo”, conclui.
Tesouro Selic: pouca volatilidade
No caso do Tesouro Selic, a taxa adicional permanece bastante baixa, em torno de 0,0453% ao ano no papel com vencimento em 2028, o que indica pouca volatilidade e manutenção do perfil conservador desse título. O preço unitário gira próximo de R$ 18,2 mil, com aplicação mínima na casa de R$ 182,89, mantendo-se como principal alternativa para reserva de liquidez e proteção contra oscilações de mercado.
Já os títulos Tesouro IPCA+ (sem juros semestrais) seguem oferecendo prêmios expressivos. O papel com vencimento em 2029 paga cerca de IPCA + 7,63%, enquanto os mais longos, como 2040 e 2050, oferecem taxas de 7,11% e 6,92%, respectivamente.
A inclinação da curva, com taxas mais altas nos prazos intermediários, sugere um prêmio maior concentrado no médio prazo, refletindo expectativas de inflação e juros ainda elevados no horizonte mais próximo, com alguma acomodação no longo prazo.
No segmento de IPCA+ com juros semestrais, o título com vencimento em 2035 apresenta taxa de IPCA + 7,48%, também em patamar elevado. Esse tipo de papel continua sendo mais indicado para investidores que buscam fluxo de renda periódica, embora com maior sensibilidade à marcação a mercado.
Tesouro Renda+
Os produtos voltados a objetivos específicos, como o Tesouro Renda+ (aposentadoria), mostram uma curva longa relativamente estável, com taxas que partem de IPCA + 7,21% em 2049 e vão caindo gradualmente até cerca de 6,95% nos vencimentos mais longos, como 2084. Esse comportamento indica uma ancoragem das expectativas de inflaçãono longo prazo, ainda que em níveis elevados de juros reais.
Tesouro Educa+
Da mesma forma, o Tesouro Educa+ apresenta taxas reais bastante atrativas, principalmente nos vencimentos mais curtos, como 2030 (IPCA + 7,95%) e 2031 (IPCA + 7,75%). Ao longo da curva, há uma leve queda nas taxas até cerca de IPCA + 7,02% em 2046, reforçando o mesmo padrão observado nos demais títulos: prêmios mais altos no curto e médio prazo.
Publicidade
O quadro atual do Tesouro Direto mostra juros reais ainda elevados, curva levemente inclinada e oportunidades mais interessantes nos prazos intermediários, enquanto o Tesouro Selic segue como instrumento de estabilidade.