Quando o Ibovespa bateu o recorde de 199 mil pontos, em abril, a diferença entre ele e o SMLL chegou ao maior nível em mais de 20 anos, segundo levantamento da Elos Ayta. O recorde do índice de small caps é de 3.224 pontos, registrado em junho de 2021. Atualmente, o indicador opera perto de 2,3 mil pontos.
O descolamento entre o Ibovespa e o SMLL pode ser explicado por diferentes fatores, segundo analistas. A principal razão está na entrada de capital estrangeiro. Até 29 de abril de 2026, dado mais recente da B3, o saldo de recursos externos na Bolsa brasileira estava positivo em R$ 58,294 bilhões.
Para comparação, em 2025 inteiro, o fluxo somou R$ 26,87 bilhões. Em 2024, o resultado foi negativo: investidores internacionais retiraram R$ 24,2 bilhões da B3.
Mas os gringos priorizam ações de alta liquidez, que têm maior facilidade de negociação e não estão presentes no índice de small caps. “Muito do fluxo deste ano veio por meio de estratégias passivas. O investidor estrangeiro comprou ETFs (fundos de índice) de ativos no Brasil, compostos principalmente por ações de maior liquidez”, explica Ricardo França, head de research da Ágora Investimentos.
Em um primeiro momento, o menor volume de negociação das small caps funciona como um limitante para a entrada de capital gringo nesses papéis. Mas, em um segundo momento, o fluxo também pode chegar nas small caps, se o investidor internacional continuar a comprar ações brasileiras.
Rodolfo Amstalden, CEO da Empiricus, afirma que o descolamento entre os índices não representa uma má notícia, porque o mercado funciona como vasos comunicantes. “O investidor de small caps deveria estar comemorando a alta do Ibovespa. Ela é um prenúncio do que pode acontecer com as empresas de menor capitalização.”
Se o investidor gringo vem e valoriza os ativos mais líquidos, abre-se espaço, posteriormente, para que ele procure ativos de small caps. Esse movimento, porém, não ocorre de forma instantânea. “Pode demorar 6 meses, pode demorar 1 ano, depende da dinâmica de alta da bolsa brasileira”, diz Amstalden.
Petroleiras impulsionam desempenho do Ibovespa
Por trás do distanciamento entre SMLL e Ibovespa, estão outros fatores: o conflito no Oriente Médio e a escalada dos preços do petróleo, que impactou ações do setor, como a Petrobras (PETR3;PETR4). As ações ordinárias da empresa avançam 69,76% no ano, enquanto as preferenciais sobem 61,08%.
“Dado que essas ações possuem um peso muito grande no Ibovespa, o conflito explica uma parte importante da diferença de performance”, afirma Bruno Henriques, diretor executivo de research do BTG Pactual.
O salto do petróleo também gerou uma revisão das expectativas de inflação, o que, consequentemente, mudou as perspectivas para o tamanho do ciclo de queda de juros no Brasil. O último Boletim Focus trouxe a projeção de 13% ao ano para a Selic no fim de 2026.
Para economistas, o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) de abril sinalizou que o ciclo de cortes de juros deve continuar, mas está mais dependente do cenário econômico e dos efeitos do conflito no Oriente Médio, com a possibilidade de pausa antes do esperado.
A expectativa de uma Selic alta por mais tempo impacta diretamente o índice de small caps. Isso acontece porque o indicador detém uma porcentagem maior de empresas correlacionadas ao mercado interno.
De acordo com Bruno Issa, sales de renda variável da InvestSmart XP, o controle da política fiscal no Brasil e o encerramento do conflito no Oriente Médio, com a redução dos preços do petróleo, são gatilhos para destravar o SMLL. “Esses fatores, combinados, reduziriam a expectativa de juros e viabilizariam um ciclo mais contundente de afrouxamento monetário por parte do Copom”, destaca.
Vale a pena investir em small caps agora?
Analistas concordam que os preços das small caps estão atrativos, mas pontuam que o investimento nas ações demanda cautela. Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, alerta que a captura da valorização dos papéis tende a levar tempo. “Antecipar demais o posicionamento nessas ações pode significar deixar outras oportunidades na mesa, especialmente em empresas mais líquidas que ainda podem performar bem no curto prazo”, afirma Bresciani.
O analista não tem recomendação para small caps e privilegia papéis de setores mais defensivos, como energia elétrica, saneamento e bancos. Ações do setor petroleiro, que ainda se beneficiam do cenário geopolítico, também estão entre as preferências. Ele destaca ainda o nome da Vale (VALE3), que mantém, em sua visão, resultados consistentes, alavancagem controlada e dividend yield (rendimento de dividendos) atrativo.
Em conversas com gestores locais, o Itaú BBA percebe um debate atual entre aumentar a exposição a small caps ou não. Até agora, a casa nota mais questionamentos do que uma alocação relevante de recursos nessa classe.
A preferência segue pelas bond proxies (ações com comportamento semelhante a títulos de renda fixa), mas há quem já esteja olhando para outros subsegmentos, como empresas associadas a concessões rodoviárias, shoppings e ferrovias.
O Itaú BBA acredita que há nomes atrativos na categoria de small caps, mas, para uma performance mais sustentável, é necessário observar a indústria de fundos doméstica. Em geral, investidores estrangeiros buscam liquidez acima de US$ 5 milhões de volume médio diário negociado e o índice SMLL ainda tem 44% de sua composição abaixo desse patamar.
França, da Ágora Investimentos, privilegia um processo de stock picking, que envolve a seleção individual de ações pelos fundamentos das empresas, em vez de simplesmente olhar para o índice SMLL como um todo.
Neste momento, a corretora tem priorizado empresas mais líquidas do ponto de vista de endividamento. Ou seja, nomes que têm caixa superior à dívida ou empresas com alavancagem sob controle.
Por outro lado, dentro da classe de small caps, França adota um tom mais cauteloso em relação ao setor de construção civil. A redução da Selic não deve ocorrer no ritmo projetado no início do ano, o que tende a aumentar a pressão sobre as empresas do segmento. Neste cenário, ele vê riscos para a sustentação da rentabilidade das companhias. “Entre as empresas de construção civil, o investidor precisa ser ainda mais seletivo, priorizando aquelas com maior capacidade de repassar custos”, afirma.