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Mercado

Gringos impulsionam o Ibovespa, small caps ficam para trás e criam oportunidade

Índice de small caps da B3 opera longe da máxima histórica e tem ações com preços atrativos, mas investimento demanda cautela

Por Beatriz Rocha
Editado por Geovana Pagel

06/05/2026 | 5:30 Atualização: 05/05/2026 | 20:43

Fluxo estrangeiro se concentra em ações de maior liquidez e small caps têm alta mais contida em 2026. Foto: Adobe Stock
Fluxo estrangeiro se concentra em ações de maior liquidez e small caps têm alta mais contida em 2026. Foto: Adobe Stock

O Ibovespa encerrou abril perto do zero a zero, com queda mensal de 0,08%. No ano, a história é outra: a principal referência da B3 ainda acumula ganhos de 16,26%, bem acima do índice Small Cap da B3 (SMLL), que registra valorização de 2,41% e reúne empresas de menor capitalização.

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Quando o Ibovespa bateu o recorde de 199 mil pontos, em abril, a diferença entre ele e o SMLL chegou ao maior nível em mais de 20 anos, segundo levantamento da Elos Ayta. O recorde do índice de small caps é de 3.224 pontos, registrado em junho de 2021. Atualmente, o indicador opera perto de 2,3 mil pontos.

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O descolamento entre o Ibovespa e o SMLL pode ser explicado por diferentes fatores, segundo analistas. A principal razão está na entrada de capital estrangeiro. Até 29 de abril de 2026, dado mais recente da B3, o saldo de recursos externos na Bolsa brasileira estava positivo em R$ 58,294 bilhões.

Para comparação, em 2025 inteiro, o fluxo somou R$ 26,87 bilhões. Em 2024, o resultado foi negativo: investidores internacionais retiraram R$ 24,2 bilhões da B3.

Mas os gringos priorizam ações de alta liquidez, que têm maior facilidade de negociação e não estão presentes no índice de small caps. “Muito do fluxo deste ano veio por meio de estratégias passivas. O investidor estrangeiro comprou ETFs (fundos de índice) de ativos no Brasil, compostos principalmente por ações de maior liquidez”, explica Ricardo França, head de research da Ágora Investimentos.

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Em um primeiro momento, o menor volume de negociação das small caps funciona como um limitante para a entrada de capital gringo nesses papéis. Mas, em um segundo momento, o fluxo também pode chegar nas small caps, se o investidor internacional continuar a comprar ações brasileiras.

Rodolfo Amstalden, CEO da Empiricus, afirma que o descolamento entre os índices não representa uma má notícia, porque o mercado funciona como vasos comunicantes. “O investidor de small caps deveria estar comemorando a alta do Ibovespa. Ela é um prenúncio do que pode acontecer com as empresas de menor capitalização.”

Se o investidor gringo vem e valoriza os ativos mais líquidos, abre-se espaço, posteriormente, para que ele procure ativos de small caps. Esse movimento, porém, não ocorre de forma instantânea. “Pode demorar 6 meses, pode demorar 1 ano, depende da dinâmica de alta da bolsa brasileira”, diz Amstalden.

Petroleiras impulsionam desempenho do Ibovespa

Por trás do distanciamento entre SMLL e Ibovespa, estão outros fatores: o conflito no Oriente Médio e a escalada dos preços do petróleo, que impactou ações do setor, como a Petrobras (PETR3;PETR4). As ações ordinárias da empresa avançam 69,76% no ano, enquanto as preferenciais sobem 61,08%.

“Dado que essas ações possuem um peso muito grande no Ibovespa, o conflito explica uma parte importante da diferença de performance”, afirma Bruno Henriques, diretor executivo de research do BTG Pactual.

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O salto do petróleo também gerou uma revisão das expectativas de inflação, o que, consequentemente, mudou as perspectivas para o tamanho do ciclo de queda de juros no Brasil. O último Boletim Focus trouxe a projeção de 13% ao ano para a Selic no fim de 2026.

Para economistas, o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) de abril sinalizou que o ciclo de cortes de juros deve continuar, mas está mais dependente do cenário econômico e dos efeitos do conflito no Oriente Médio, com a possibilidade de pausa antes do esperado.

A expectativa de uma Selic alta por mais tempo impacta diretamente o índice de small caps. Isso acontece porque o indicador detém uma porcentagem maior de empresas correlacionadas ao mercado interno.

De acordo com Bruno Issa, sales de renda variável da InvestSmart XP, o controle da política fiscal no Brasil e o encerramento do conflito no Oriente Médio, com a redução dos preços do petróleo, são gatilhos para destravar o SMLL. “Esses fatores, combinados, reduziriam a expectativa de juros e viabilizariam um ciclo mais contundente de afrouxamento monetário por parte do Copom”, destaca.

Vale a pena investir em small caps agora?

Analistas concordam que os preços das small caps estão atrativos, mas pontuam que o investimento nas ações demanda cautela. Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, alerta que a captura da valorização dos papéis tende a levar tempo. “Antecipar demais o posicionamento nessas ações pode significar deixar outras oportunidades na mesa, especialmente em empresas mais líquidas que ainda podem performar bem no curto prazo”, afirma Bresciani.

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O analista não tem recomendação para small caps e privilegia papéis de setores mais defensivos, como energia elétrica, saneamento e bancos. Ações do setor petroleiro, que ainda se beneficiam do cenário geopolítico, também estão entre as preferências. Ele destaca ainda o nome da Vale (VALE3), que mantém, em sua visão, resultados consistentes, alavancagem controlada e dividend yield (rendimento de dividendos) atrativo.

Em conversas com gestores locais, o Itaú BBA percebe um debate atual entre aumentar a exposição a small caps ou não. Até agora, a casa nota mais questionamentos do que uma alocação relevante de recursos nessa classe.

A preferência segue pelas bond proxies (ações com comportamento semelhante a títulos de renda fixa), mas há quem já esteja olhando para outros subsegmentos, como empresas associadas a concessões rodoviárias, shoppings e ferrovias.

O Itaú BBA acredita que há nomes atrativos na categoria de small caps, mas, para uma performance mais sustentável, é necessário observar a indústria de fundos doméstica. Em geral, investidores estrangeiros buscam liquidez acima de US$ 5 milhões de volume médio diário negociado e o índice SMLL ainda tem 44% de sua composição abaixo desse patamar.

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França, da Ágora Investimentos, privilegia um processo de stock picking, que envolve a seleção individual de ações pelos fundamentos das empresas, em vez de simplesmente olhar para o índice SMLL como um todo.

Neste momento, a corretora tem priorizado empresas mais líquidas do ponto de vista de endividamento. Ou seja, nomes que têm caixa superior à dívida ou empresas com alavancagem sob controle.

Por outro lado, dentro da classe de small caps, França adota um tom mais cauteloso em relação ao setor de construção civil. A redução da Selic não deve ocorrer no ritmo projetado no início do ano, o que tende a aumentar a pressão sobre as empresas do segmento. Neste cenário, ele vê riscos para a sustentação da rentabilidade das companhias. “Entre as empresas de construção civil, o investidor precisa ser ainda mais  seletivo, priorizando aquelas com maior capacidade de repassar custos”, afirma.

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