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Investimentos

Crédito privado vale a pena em 2025? Especialistas alertam sobre riscos com juros altos

Selic a 15% e crises corporativas recentes, como Braskem e Ambipar, derrubaram os spreads em nível historicamente baixo

Retrato de busto sob fundo azul escuro.
Por Leo Guimarães
Editado por Wladimir D'Andrade

03/11/2025 | 5:30 Atualização: 31/10/2025 | 23:56

Crise de Ambipar liga sinal de alerta para novos casos de risco de crédito. (Imagem: Adobe Stock)
Crise de Ambipar liga sinal de alerta para novos casos de risco de crédito. (Imagem: Adobe Stock)

O mercado de crédito privado se tornou um ambiente desfavorável para o investidor pessoa física diante de baixo retorno em relação aos títulos públicos e risco de calote aumentando devido à conjuntura de juros elevados.

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De um lado, crises recentes de empresas como Braskem (BRKM5)  e Ambipar (AMBP3) ligam o sinal de alerta para outros possíveis casos. Os juros no atual patamar – Selic atual em 15% ao ano – comprometem a saúde financeira de companhias endividadas, que terminam trabalhando para pagar dívidas em vez de investir em produtividade.

  • Leia mais: Crises de Braskem (BRKM5) e Ambipar (AMBP3) fazem bonds brasileiros derreterem até 70%; entenda o risco e quem é afetado

Na outra ponta das empresas mais saudáveis e seguras, os spreads estão num nível historicamente tão baixo que não justificam o investimento, apontam alguns especialistas. O spread é a remuneração adicional que o investidor recebe para correr o risco de crédito da empresa em vez de comprar um título público correspondente com risco soberano.

“O investimento em crédito privado, atualmente, é um dos piores riscos-retornos que você pode encontrar na economia. Os spreads estão muito baixos, o mercado está sobrealocado e há empresas bem alavancadas que podem virar ‘casos isolados’ em massa”, resume Marília Fontes, sócia e cofundadora da casa de análises Nord.

A especialista faz referência ao sentimento do mercado, que ainda não trabalha com a possibilidade de risco sistêmico, mas vê a cada semana notícias de empresas com problemas de caixa derivados dos juros altos prolongados na economia brasileira. Há três anos a Selic está acima de dois dígitos.

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Problema de crédito são casos isolados

O caso da Ambipar, que pediu recuperação judicial, envolve piora dos balanços e aumento do endividamento – confira os detalhes nesta reportagem. A Braskem segue pressionada por passivos bilionários, inclusive ambientais em Alagoas.

A Raízen (RAIZ4) também enfrenta desafios, mas é uma situação vista como mais confortável, já que o mercado financeiro enxerga que a empresa possui bons ativos para venda que podem melhorar sua liquidez de caixa. E a CSN (CSNA3) apareceu recentemente na imprensa com notícias de que tem R$ 10 bilhões em dívidas bancárias a vencer nos próximos dois anos.

  • Leia mais: BB-BI corta preço-alvo da CSN e reafirma recomendação de venda

Gabriel Santos, especialista de investimentos de Research e Estratégia da Bloxs, acredita que não há risco sistêmico neste momento. E o indicativo disso estão justamente nos spreads.

“Se o investidor tivesse realmente avesso a esse tipo de aplicação, os spreads aumentariam”, comenta.

Neste caso, as empresas teriam que pagar mais juros para atrair investidores. “Não é isso que a gente vê. Não teve um estresse. São casos isolados”, diz, comentando que o prêmio hoje está na casa de 1% acima do risco soberano.

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Neste sentido, chamam atenção os spreads negativos pagos nas debêntures incentivadas, que são emitidas por empresas de infraestrutura e que oferecem isenção de Imposto de Renda (IR). Hoje esse prêmio negativo está num patamar de -0,70% em relação aos títulos públicos.

Na prática, isso significa que o investidor aceita ser remunerado por uma taxa inferior aos títulos do Tesouro IPCA + esperando o ganho a mais apenas na isenção do IR. “É como se o investidor estivesse preferindo emprestar dinheiro para essas empresas do setor de energia do que para o governo”, resume Santos.

Movimento global de reavaliação de risco

Na visão global sobre o Brasil, o cenário é semelhante. O mercado de bonds – em que são negociados os títulos corporativos brasileiros no exterior – passou a precificar com mais cautela os papéis de empresas locais, sobretudo as mais endividadas ou com risco de governança. À medida que os casos aparecem, os grandes investidores correm para títulos de empresas mais seguras e de melhor qualidade, que pagam menos.

Para Gabriel Santos, esses ajustes refletem um movimento natural de reavaliação de risco, e não uma aversão estrutural ao Brasil. O comportamento dos juros futuros e do dólar reforça que a moeda segue estável e que não há saída abrupta de investidores. “O dólar é uma proxy de investimento estrangeiro”, comenta.

Com a divisa americana seguindo estável em torno de R$ 5,40, não há indícios de estresse vindo de fora. Os juros futuros na casa 13,30% também ajudam a manter a atratividade para o investidor de fora.

  • Entenda: Valorização do real impulsiona o mercado de crédito brasileiro

A fala é reforçada pelas análises de casas estrangeiras. Em sua carta semanal, a Gramercy Funds Management observa que “mesmo com o dólar estável, os investidores seguem preferindo moedas de países emergentes com juros reais altos”.

Vale a pena sair de papeis arriscados para os seguros?

No mercado local também acontece uma migração de papéis de maior risco para aqueles considerados mais seguros, de rating AAA. Esse movimento está sendo puxado por gestores de fundos que são obrigados a ter crédito na carteira.

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Para Marília Fontes, da Nord, o investidor pessoa física que não tem alocação em fundo de crédito pode, simplesmente, não ter títulos de dívida na carteira. “Não faz sentido você se manter no mercado de crédito quando os prêmios do high grade (ativos de baixo risco, mas com baixo retorno) estão tão baixos”, diz, completando: “Para mim, o que faz sentido é simplesmente parar de correr risco de crédito e ficar nos títulos públicos.”

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Enquanto nos EUA o gatilho para redução do spread foi a expansão do crédito privado e a entrada de novas gestoras neste mercado, a exemplo da Blackrock, no Brasil esse papel ficou com a migração em massa de investidores de ativos de risco – Bolsa de Valores e títulos longos do Tesouro –, que terminou reduzindo o ganho a mais do crédito privado. Essa é a visão de Alexandre Brito da Finacap.

  • Confira ainda: Por que os 18 recordes do Ibovespa em 2025 não têm ‘clima de festa’ entre investidores

Crédito privado cresceu muito em três anos

O fenômeno passou a se consolidar de três anos para cá com o crescimento dos fundos investidos em crédito privado, que passaram a ter a preferência do mercado em relação às outras opções de investimento. “Você teve um pouquinho de queda de ações, um pouquinho de queda de outros investimentos e um aumento do crédito privado”, diz Marília Fontes.

“Todo mundo está no crédito privado: a pessoa física, as corretoras. Os distribuidores também mudaram muito para oferecer crédito privado ao invés de fundos. Antigamente eles ofereciam FIA (fundos de ações), multimercados, hoje em dia é só crédito privado.”

A especialista da Nord reforça que fora do mercado de fundos, não vale a pena para o investidor pessoa física tentar se arriscar a investir no crédito privado, pois é difícil separar o joio do trigo em relação à qualidade das empresas emissoras.

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Esse processo de análise envolve a avaliação da qualidade dos ativos, da capacidade dos controladores de aportar capital e da vontade da governança em resolver os problemas financeiros, numa época em que os juros altos desafiam todos os gestores. O cuidado envolve até as recomendações de assessores de investimento.

“O pequeno investidor com menos de R$ 1 milhão não terá uma assessoria focada e, neste caso, os assessores podem recomendar produtos em que ganham um fee (taxa) pelo produto de crédito”, comenta.

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Em outras palavras, em muitos casos há conflito de interesse. “O investidor pessoa física tem que tomar cuidado com quem faz as recomendações e ter certeza de que quem está pagando por elas é ele, não o banco, o produto ou a corretora.”

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