A estratégia do Bradesco pode ser lida a partir de três vetores centrais: receita, eficiência e risco. No front de receita, o principal ativo é a BIA, assistente virtual que completa uma década em 2026 e vem ganhando novas camadas dentro da operação. “A BIA é uma trajetória de dez anos”, afirma Rafael Cavalcanti, diretor do Bradesco nos departamentos de Inteligência de Dados e CRM, destacando que o banco passou a trabalhar com uso interno, atendimento ao cliente e uma versão voltada ao desenvolvimento tecnológico.
Essa evolução começa a aparecer em métricas de engajamento. Segundo o executivo, a ferramenta atingiu “90% de retenção”, reflexo da ampliação do repertório conversacional e da capacidade de resolver demandas de forma mais eficiente. Ao mesmo tempo, a BIA deixa de ser apenas um canal de atendimento e passa a assumir funções transacionais.
Um dos exemplos mais emblemáticos vem do Pix por voz via WhatsApp. “A gente já faz 150 mil transações por mês”, diz Cavalcanti. A expansão deve continuar: pagamentos, transferências, consulta de saldo e, no pipeline (carteira de projetos) para 2026, até venda assistida de crédito e cartões.
Iniciativas alteram o comportamento do cliente
No âmbito do investidor, a BIA não aparece imediatamente como uma nova linha de receita, mas altera o comportamento do cliente. Como observa Rodrigo Rios, CEO da LR3 Investimentos, o ganho “é muito mais comportamental do que contábil” neste momento. O aumento de frequência de uso e a redução de atrito criam um ambiente mais favorável para cross-sell (venda cruzada de produtos, como crédito, seguros, investimentos) ainda que essa monetização não esteja totalmente explícita no balanço.
Esse cuidado em dar prioridade a iniciativas com potencial mensurável de escala é, inclusive, parte do direcionamento estratégico. “Tudo aquilo que pode ser liberado pelo cliente e tem possibilidade clara de ser escalado e medido como impacto entra no nosso pipeline“, afirma Francesco Di Marcello, diretor executivo de Tecnologia e lider de Transformação Digital do Bradesco. Projetos sem essa clareza ficam em espera, evitando risco à experiência do cliente.
Esse conjunto aponta para potencial de melhora no cost-to-income (índice de eficiência), ainda que, como ressalta Rios, o efeito não seja imediato. “Em um banco do porte do Bradesco, mudanças estruturais em eficiência não aparecem da noite para o dia”, explica.
O ganho inicial vem da redução de atrito e aumento de produtividade, antes de se traduzir em indicadores mais visíveis. Um exemplo é o uso da BIA como canal de validação de transações suspeitas – o sistema “Vigia”. Ao substituir ligações telefônicas e SMS, o banco utiliza o WhatsApp para confirmar operações fora do padrão, aumentando a taxa de resposta e reduzindo vulnerabilidades.
Na visão do analista, esse é um dos impactos mais relevantes da inteligência artificial no setor. “Quanto mais sofisticado o modelo, maior a capacidade de identificar deterioração financeira antes do atraso efetivo”, diz Rios. Isso pode levar a decisões mais precisas, menor perda e melhor recuperação de crédito.
Ainda assim, o efeito sobre inadimplência e provisões depende do ciclo econômico. “A tecnologia melhora a leitura do risco, mas não elimina o ciclo”, pondera.
O Bradesco dá sinais de que a IA está migrando de projeto de inovação para infraestrutura operacional. Há avanço consistente em engajamento, produtividade e gestão de risco. Mas o mercado ainda aguarda a tradução mais direta dessa transformação em números. A IA “ainda funciona mais como uma expectativa estratégica positiva do que como um diferencial totalmente consolidado no valuation (valor do ativo).
O 1T26 deve ser mais um capítulo desse processo, com sinais que começam a aparecer, mas ainda em fase de maturação.
Estreia da Bradsáude
O Safra avalia que a Bradsaúde estreou seus resultados como ecossistema de saúde já consolidado, com tendências subjacentes “sólidas”, sustentadas sobretudo pelo desempenho da Bradesco Saúde, enquanto o negócio odontológico (Odontoprev) ficou abaixo do esperado em função de despesas com vendas, gerais e administrativas mais altas.
Neste contexto, o Safra traz recomendação “neutra” para as ações da empresa, com preço-alvo é de R$ 13,50, embora afirme que, se o bom momento dos resultados se mantiver, isso pode justificar um desempenho positivo das ações.