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Mercado

Para além de Biden ou Trump, indústria da cannabis ganha votos nos EUA

Mercado americano já tem 35 estados com aprovação do uso medicinal

Por Luiz Felipe Simões

19/11/2020 | 18:00 Atualização: 20/11/2020 | 14:39

Foto: Dave Chan/The New York Times
Foto: Dave Chan/The New York Times

Para quem não está familiarizado com os meandros das eleições norte-americanas, o futuro presidente do país não foi a única escolha feita pelos cidadãos no último dia 3. Além de escolher entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump, os eleitores tiveram que votar em representantes para a Câmara, o Senado e em mais uma infinidade de questões locais – entre elas, o uso da cannabis.

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O assunto foi tema de referendo em cinco estados: New Jersey, Arizona, Dakota do Sul e Montana (que votaram para legalizar o uso recreativo entre adultos acima de 21 anos) e Mississipi (que decidiu sobre a regulamentação do uso medicinal da planta, iniciativa tomada também pelo estado de Dakota do Sul).

Considerando os pleitos do início de novembro, os Estados Unidos somam agora 35 estados com aprovação do uso medicinal da cannabis e 15 que dão aval ao uso recreativo da droga.

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Somadas à eleição de Biden – que prometeu descriminalizar a cannabis no âmbito federal -, as notícias foram suficientes para fazer as ações do setor saltarem no decorrer de uma semana. Desde as apurações, os papéis da Canopy Growth Corporation (WEED) subiram cerca de 11%. Já as ações da Aurora Cannabis (ACB) avançaram 30%.

A indústria está só começando. Em 2018, já somava US$ 12 bilhões e a previsão é que, para 2024, o setor atinja US$ 103,9 bilhões, segundo o relatório “The Global Cannabis Report”, elaborado em novembro de 2019. A autoria do levantamento é da Prohibition Partners, agência internacional de inteligência e estratégia dedicada ao mercado global de maconha, com sede em Londres. Os valores levam em conta todos os negócios em torno da maconha legal, uso recreativo, uso medicinal e industrial.

A maior parte das ações da indústria são negociadas nas bolsas dos EUA e do Canadá. Hoje, 40 países já autorizam o uso medicinal da planta para tratar diversas enfermidades, como epilepsia, Alzheimer, Parkinson, câncer e dores crônicas, entre dezenas de outras doenças. 

A falta de uma legislação federal nos EUA impede que os bancos trabalhem com as empresas da indústriada cannabis. Todos os produtos à base da planta só podem ser transacionados em dinheiro vivo ou com o cartão de crédito. Isso faz com que as companhias tenham um alto volume de cédulas, o que gera preocupações sérias de segurança.

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Mas, afinal, a indústria tem futuro ou é pura especulação? O E-Investidor conversou com um especialista para ajudar você a entender mais sobre o assunto.

Na opinião de George Wachsmann, sócio e chefe de gestão da Vitreo, o crescimento tem fundamento. “No nível federal, existe a expectativa de que um governo democrata coloque em pauta de forma mais acelerada os assuntos voltados à legalização. Por outro lado, no nível estadual, há uma série de referendos que estão indo de encontro à visão federal”, diz.

Como funciona a indústria 

Os pilares da indústria da cannabis podem ser divididos em três setores, cada um com suas particularidades.

  • Uso recreativo – Por meio de lojas especializadas, conhecidas como dispensários, os estabelecimentos podem vender a planta e seus derivados para qualquer adulto acima de 21 anos;
  • Uso medicinal – A utilização para fins terapêuticos teve início antes do mercado recreacional. Médicos podem receitar tanto remédios à base da planta, como também a própria cannabis para fumar;  
  • Uso industrial – Talvez o mais antigo dos três, as fibras de cânhamo eram utilizadas antes mesmo do algodão. Hoje em dia, o mercado explora produtos infusionados com os princípios ativos da planta – o CBD e o THC. Os produtos vão desde o setor de bebidas até o de cosméticos. 

Opções de investimento

Para os brasileiros que desejam investir na indústria, as opções são limitadas. É possível abrir uma conta em uma corretora norte-americana e investir diretamente no país. Mas com isto o investidor está exposto à variação cambial.

O outro jeito – e talvez o mais simples – é via fundos de investimentos específicos para o setor. Hoje existem apenas três fundos voltados para a cannabis no Brasil. 

A Vitreo conta com dois fundos temáticos de cannabis. O primeiro é o Vitreo Canabidiol FIA IE, para investidores qualificados, mas há também o Canabidiol Light FICFIM, para investidores gerais e com aporte mínimo de R$ 5 mil.

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Apesar da crise provocada pela covid-19, segundo dados do relatório fornecido por Wachsmann, os fundos da Vitreo Canabidiol e Canabidiol Light vêm registrando altas de 53,47% e 14,29%, respectivamente.

O outro fundo que disponível aqui no Brasil é o da XP Investimentos, o Trend Cannabis FIM, que tem aplicação mínima de R$ 500.


As maiores empresas

Apesar de ser um setor novo, a indústria da cannabis conta com players fortes no cenário internacional. Só para efeitos de comparação, o valor de mercado da Canopy Growth é de R$ 40 bilhões, enquanto que o da Via Varejo no Brasil é de R$ 28 bilhões.

Abaixo, seguem as cinco maiores empresas da indústria, de acordo com o seu valor de mercado:

  1. Canopy Growth (WEED) – Junto com as suas subsidiárias, a companhia se dedica à produção, distribuição e venda de cannabis para fins recreativos e médicos, principalmente no Canadá, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido. Possui um valor de mercado de aproximadamente US$ 8,8 bilhões;
  2. Curaleaf Holdings (CURA) –  Curaleaf é uma operadora líder de cannabis medicinal e de bem-estar nos Estados Unidos. Atualmente é avaliada em US$ 5,38 bilhões;
  3. GW Pharmaceuticals (GWPH) – A GW Pharmaceuticals é uma empresa biofarmacêutica que se concentra na descoberta, desenvolvimento e comercialização de novas terapias para produtos derivados da cannabis. Seu principal produto é o Epidiolex, um medicamento oral para o tratamento de epilepsias infantis. É avaliada em US$ 3,4 bilhões;
  4. Cronos Group (CRON) –  Opera como uma empresa de canabinóides nos Estados Unidos e internacionalmente. Fabrica, comercializa e distribui suplementos derivados de cânhamo e produtos cosméticos por meio de canais parceiros no comércio eletrônico, varejo e hospitalidade. Hoje, vale US$ 2,6 bilhões;
  5. Aurora Cannabis (ACB) –  Produz e distribui itens de cannabis medicinal em todo o mundo. É verticalmente integrada e horizontalmente diversificada em vários segmentos da cadeia, incluindo engenharia e design de instalações, cultivo, pesquisa genética, produção, derivados e desenvolvimento de produtos de alto valor agregado. Atualmente, possui valor de mercado de US$ 1,3 bilhão.

Para quem deseja entender a indústria como um todo, Wachsmann cita o Prime Alternative Harvest Index, que acompanha 36 companhias da indústria da cannabis. Ao longo do ano, o índice registra queda de 18,1%. Contudo – e só no último mês -, cresceu 13,8%.

Status do Brasil

A cannabis no Brasil é legalizada para uso medicinal desde 2015. Contudo, o cultivo ou a importação da planta ou de partes dela (como folha, caule, flor e bulbo) seguem proibidos. Ou seja, somente remédios derivados podem ser importados. Para isso, pacientes precisavam tanto da receita médica, como a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa.

Em 2019, a agência publicou novas resoluções sobre o uso medicinal. Agora, os pacientes com prescrição podem comprar os medicamentos diretamente nas farmácias.

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Com a proibição do cultivo, as empresas que querem produzir o remédio no país terão que recorrer à importação do extrato da cannabis. A resolução aprovada pela Anvisa prevê que só será possível importar a matéria prima semi-elaborada, e não a própria planta ou parte dela.

“O principal entrave ainda é a questão da legislação. Por trás disso, tem o tabu social, que impacta na velocidade em que esses assuntos são trazidos para discussão e, consequentemente, aprovados”, conta Wachsmann.

Para que a indústria ganhe mais terreno no País, é preciso deixar as ideologias de lado e olhar para os resultados obtidos em outros mercados. Apesar de ter legalizado o uso medicinal, o Brasil ainda tem muito caminho a percorrer até alcançar países como Estados Unidos e Canadá.

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